início da sua explicação, havia desenhado no quadro.
“Está a ver aqui as pontas dos cromossomas? Estas
pontas são protegidas por estruturas de ADN chamadas
telómeros. Sempre que os cromossomas se dividem, os
telómeros ficam um pouco mais pequenos. Ora eu há pouco
disse-vos que ocorrem no nosso corpo cerca de cem mil
divisões de células por segundo, lembram-se? Isto é
muita divisão. Se a cada divisão de uma célula, e
consequentemente de um cromossoma, os telómeros ficam
mais pequenos, imaginem o que isso representa ao fim de
algum tempo! Os telómeros tornam-se de tal modo
minúsculos que deixam de conseguir proteger os
cromossomas. É nessa altura que a célula morre.”
“O que está a dizer”, resumiu o português, “é que esses
telómeros funcionam como uma espécie de relógio
biológico para a morte...”
“Exactamente!”,
exclamou
o
professor
Hammans,
satisfeito por ter sido entendido à primeira. “Mas não
pense num relógio. Pense antes numa ampulheta que vai
perdendo os seus grãos de areia. Quando o último grão
cai, a célula morre.”
Tomás assentiu.
“Estou a ver.”
O director do Departamento de Biotecnologia apontou
para os jarros com os restos das experiências falhadas.
“Qual é o problema dos animais clonados?”, perguntou em
tom retórico. “É que os cromossomas que usamos para a
clonagem vêm de uma célula que já se dividiu milhentas
vezes. Por isso os seus telómeros já nascem muito
reduzidos. Com telómeros mais curtos, os animais
clonados começam a sua vida mais envelhecidos do que os
outros animais. É justamente essa a razão pela qual
vivem menos tempo.”
“E é também por isso que vocês não arriscam a clonagem
de um ser humano.”
“Claro! Temos o problema técnico de manter na célula
clonada as duas proteínas que garantem a separação
ordenada dos cromossomas e temos o problema ético de
criar um ser humano que vai viver doente e durante
pouco tempo. São estes os dois problemas que impedem a
clonagem de pessoas. Temos, pois, de os resolver para
poder passar à fase seguinte do processo.”
Arnie Grossman, todo ele desassossego impaciente,
aproveitou esta resposta para tentar progredir na
investigação.
“Isso explica a contratação do professor Vartolomeev
pela fundação”, observou o polícia israelita. “E as
outras duas vítimas? Qual o papel delas em todo este
esquema?”
Estas questões relacionadas com os homicídios eram
invariavelmente
respondidas
pelo
presidente
da
fundação.
“Comecemos pelo professor Alexander Schwarz”, propôs
Arkan. “Como sabem, era professor de Arqueologia da
Universidade de Amesterdão. Acontece que uma das áreas
que estamos a pesquisar de uma forma bastante agressiva
é justamente a do ADN fóssil.”
“ADN fóssil?”, admirou-se Tomás. “Isso não pertence à
ficção científica?!”
O professor Hammans caminhou de novo em direcção às
estantes e imobilizou-se junto a um jarro. No interior
flutuava o que parecia um pedaço minúsculo de carne.
“Está a ver este feto?”, perguntou. “Sabe o que isto
é?”
O português curvou o lábio inferior.
“Um músculo?”
O cientista abanou a cabeça.
“E o resultado de um novo tipo de pesquisa genética que
estamos a desenvolver e para a qual precisámos da
colaboração do professor Schwarz, e em especial dos
seus talentos na área da arqueologia”, disse. “O ADN
antigo.”
“Antigo como?”
“Antigo como o de espécies já extintas, por exemplo.”
De testa franzida, o historiador português olhou de
novo
para
o
jarro
indicado
pelo
director
do
Departamento de Biotecnologia do centro.
“Isso é um feto de uma espécie já extinta?”
“Correcto.”
Tomás aproximou-se do jarro e fitou com atenção o
minúsculo pedaço de carne que flutuava no interior.
Tentou adivinhar-lhe as formas, mas percebeu que isso
era impossível com um espécime tão prematuro.
“Que raio de espécie é esta?”
O professor Hammans sorriu, um brilho de satisfação a
cintilar-lhe no olhar macilento.
“Um Neandertal.”
LVII
Os movimentos do intruso eram precisos e furtivos, como
os de um felino no encalço da presa. Ocultado pelas
folhas do arbusto onde se abrigara, Sicarius extraiu do
bolso o pequeno pager especialmente preparado para a
operação e consultou o ecrã. O sinal indicava um ponto
a piscar a norte-nordeste. Olhou naquela direcção e
identificou
o
maior
edifício
do
complexo,
com
estruturas curvas e abertas, como as de um navio
gigante.
“Então é ali que está o mestre...”, sussurrou.
Daí a pouco estudaria melhor o edifício. De momento
tinha outras prioridades. Varreu o horizonte com os
olhos, procurando assegurar-se de que o caminho estava
livre.
Assim era.
A seguir avaliou a distância que precisava de
percorrer. Tinha pela frente uns bons trezentos metros.
Isso dava uma corrida de uns quarenta segundos;
parecia-lhe
demasiado
tempo
e
achou
que
seria
imprudente fazer tudo de uma vez só. Procurou por isso
pontos intermédios e escolheu uma árvore e uma sebe que
se lhe afiguraram adequadas. Cobriria a distância em
três etapas, cada uma de aproximadamente cem metros.
Isso significava que só estaria exposto durante uns
doze segundos de cada vez. Achou que se tratava de um
risco razoável.
Como um sprinter a largar do bloco de partida, Sicarius
deixou o arbusto onde se havia escondido e correu com
toda a velocidade de que era capaz em direcção à
árvore. Chegou à oliveira e imediatamente desapareceu
nela, espalmando-se contra o tronco contorcido como se
também ele fosse uma parte da árvore. Esperou uns
segundos e depois olhou em redor, primeiro para se
certificar de que não havia sido avistado, depois para
garantir que o caminho continuava livre.
Repetiu o processo até chegar à sebe para trás da qual
se atirou. A linha de vegetação aparada era baixa e
apenas fornecia uma protecção horizontal, pelo que
teria de se deitar. Permaneceu alguns instantes
estendido no relvado a recuperar o fôlego. Depois
ergueu a cabeça e voltou a examinar o terreno em volta
para determinar se poderia ou não concluir de imediato
a terceira etapa. Avistou nesse instante dois homens de
bata a passarem à conversa pelo jardim, a uns meros