quarenta metros de distância, e encolheu a cabeça.
Depois de as vozes se afastarem, voltou a inspeccionar
o perímetro. O caminho tinha ficado livre. Levantou-se
de repente e completou a última etapa, que terminou
encostado a uma parede. Chegara ao edifício. Abrigou-se
num canto discreto e consultou de novo o pager. O sinal
parecia vir do outro lado.
“Está quase.”
Contornou a grande estrutura, desta vez evitando os
movimentos rápidos. Esforçou-se por caminhar devagar e
manter-se na sombra, os olhos a espreitarem a relva
como se procurasse ervas daninhas. Quem o avistasse de
longe não acharia nada suspeito; limitar-se-ia a pensar
que era um jardineiro e deixá-lo-ia em paz.
Avançou assim com grande discrição, movendo-se
casualmente de forma a dar a impressão de que estava à
vontade e se integrava com naturalidade naquele
cenário. Aqui e ali ia lançando olhares disfarçados ao
pager, orientando assim a sua progressão. O sinal foi
crescendo de intensidade até um ponto em que a sua
força começou a diminuir. Sicarius parou e voltou para
trás, procurando identificar a posição onde o sinal era
mais enérgico.
“É aqui.”
Tratava-se de um ponto do exterior do edifício onde não
havia janelas, apenas uma grande parede de cimento.
Calculou a distância em função da intensidade do sinal
e concluiu que, em linha recta, o mestre estaria a uns
meros dez metros de distância.
Dez metros.
Olhou em redor e reconheceu o ponto mais próximo de
entrada no edifício. Tratava-se de uma porta de serviço
situada a uns setenta metros de distância. Era por ali
que entraria se o mestre se mantivesse no local onde se
encontrava nesse momento e enviasse os dois bips
combinados.
“Ei! Tu!”
Sicarius estacou, quase horrorizado, os movimentos
congelados, o coração a disparar.
Havia sido avistado.
LVIII
“Quem viu o filme Parque jurássico?”
Quando o professor Hammans fez a pergunta foi com a
perfeita consciência de que ela enquadraria a pesquisa
em termos compreensíveis a leigos e adequados para
descrever as investigações sob a sua responsabilidade
no Centro de Pesquisa Molecular Avançada.
Os dois polícias ergueram de imediato as mãos em
resposta à pergunta, mas Tomás não alinhou no jogo.
“Não estamos a falar de ficção científica”, disse o
português, quase irritado com o que lhe parecia uma
forma demasiado leviana de tratar um problema daquela
natureza. “Estamos a lidar com ciência e com a
realidade.”
“Mas, meu caro professor”, argumentou o anfitrião, “o
Parque Jurássico aborda uma questão científica real.”
O historiador cruzou os braços e esboçou uma expressão
céptica, a cabeça inclinada de lado, como um adulto a
mostrar a uma criança que não estava a engolir as
patranhas que ela lhe contava.
“Clonar dinossauros?”, questionou. “Chama a isso uma
questão científica real?”
O alemão hesitou.
“Bem, não diria clonar dinossauros”, admitiu. “Mas
sabia que desde a década de 1990 os cientistas andam a
tentar extrair ADN de dinossauro?”
“Isso é possível?”
“Há quem ache que sim”, considerou o cientista. “Embora
primeiro seja necessário contornar o problema da
fossilização. A pesquisa tem incidido no ADN que se
encontra nos ossos dos dinossauros, mas, como sabe, a
fossilização implica que os componentes orgânicos
naturais dos ossos sejam substituídos por materiais
inorgânicos, como cálcio e silício. Isso significa que
quimicamente já não estamos a lidar com a mesma coisa,
não é verdade? Como a maior parte dos ossos dos
dinossauros está fossilizada até ao núcleo, o ADN
original já foi dissolvido. A nossa esperança é
identificar ossos cujo núcleo não esteja fossilizado.
Uma equipa de uma universidade do Utah chegou a
anunciar, em 1994, ter encontrado ADN nos ossos de um
dinossauro com oitenta milhões de anos, e no ano
seguinte surgiram outros dois estudos a revelar ter
sido detectado ADN extraído de um ovo do cretácico.
Infelizmente acabou por se concluir que o ADN
descoberto não era de dinossauro, mas ADN moderno que
contaminara
as
amostras.”
Esboçou
uma
expressão
resignada. “Talvez um dia tenhamos sorte.”
Tomás lançou-lhe um olhar corrosivo, como quem diz que
aquela resposta não o surpreendia.
“Ou seja, não é possível clonar dinossauros.”
Embora a contragosto, o professor Hammans acabou por
balançar afirmativamente a cabeça.
“Assim é, de facto”, admitiu.
“Já lidei com esse problema durante umas peritagens que
acompanhei para a Fundação Gulbenkian”, revelou o
historiador. “Disseram-me que o ADN vai perdendo
qualidade com a passagem do tempo.”
“Não é só isso”, explicou o cientista. “O problema da
conservação do ADN está igualmente relacionado com a
temperatura e a humidade existentes no local onde se
conserva o espécime de onde é extraída a amostra. O
material genético apresenta frequentemente rupturas e
tem hiatos, com pedaços de ADN a desaparecerem da
sequência. A própria estrutura química do ADN pode
sofrer alterações.”
“Então qual é o ambiente mais adequado para encontrar
material genético de qualidade?”
“O ambiente dos seres vivos, claro. As células vivas
estão forçosamente intactas, não é verdade? Tratando-se
de tecido já morto, a situação é diferente. Nesse caso
podemos estabelecer como regra que, quanto mais frio e
seco é o ambiente em redor da amostra com que
trabalhamos, melhor a qualidade de conservação do ADN.
Já os ambientes quentes e húmidos são, receio bem,
muito destrutivos.”
“Tem alguma ideia de quais os parâmetros de conservação
do ADN nos tecidos mortos?”
“Eu diria que, sendo realista, podemos contar com mais
de cem mil anos em situação de permafrost e oitenta mil
anos nos espécimes preservados em condições de frio no
interior de cavernas e no alto das montanhas. Quando as
amostras estão guardadas em locais quentes... enfim, a
situação é muito diferente. A esperança de conservação
no calor reduz-se a quinze mil anos e, com muito calor,
a uns meros cinco mil anos.”
Tomás ergueu a mão esquerda e acenou, como a despedir-
-se.
“Ou seja, adeus dinossauros!”
O cientista não se deu todavia por vencido e indicou o