Выбрать главу

jarro com o embrião conservado em formol.

“De qualquer modo não estamos exactamente a falar de

dinossauros, pois não? O que tenho ali é um embrião de

Neandertal.”

“E então?”

“Meu caro, temos estado a trabalhar com ossos de

Neandertal com trinta mil anos e preservados em

ambientes frios. Essas condições estão perfeitamente

dentro dos nossos parâmetros de conservação adequada de

material genético.”

“Mas basta encontrar umas partes de ADN para clonar um

homem de Neandertal?”

“Claro que apenas algumas partes não chegam”,

reconheceu o professor Hammans. “Precisamos do genoma

inteiro da espécie. Mas não se esqueça de que cada

célula no corpo de um ser vivo, planta ou animal,

contém todo o seu código genético, incluindo o genoma.

Portanto, o que precisamos é de encontrar um núcleo

completo ou, não estando completo, que tenha um genoma

que seja reconstituível. Para lá dos ossos, as buscas

incidem também em dentes. Além de ter a vantagem de

estar selada, a polpa dentária degrada-se lentamente,

preservando o ADN. E há ainda que considerar, claro, o

material genético nos cabelos.”

O historiador acocorou-se diante do jarro com o embrião

e estudou-o de perto; parecia uma amálgama de carne.

“E no caso do Neandertal?”

“Como vê, estamos a trabalhar nele. Não tivemos ainda

sucesso, como mostra o facto de esse embrião não ter

sobrevivido, mas estou convencido de que é uma questão

de tempo.” O cientista aproximou-se também e inclinou-

-se para o jarro, pousando a mão no vidro como se o

quisesse acariciar. “Este embrião vem de um espécime de

Neandertal descoberto em Mezmaiskaya, no Cáucaso russo.

O ADN deste espécime foi parcialmente sequenciado, mas

a experiência não resultou. Os nossos novos esforços

estão agora centrados em espécimes encontrados na gruta

Vindija, na Croácia, recorrendo às sequências do

Projecto Genoma Neandertal.”

Tomás reergueu-se.

“Mas o Neandertal não era um primata? Se bem me lembro,

o professor disse há pouco que existem problemas

técnicos relacionados com a clonagem de primatas que

não foram resolvidos...”

O alemão ergueu o dedo.

“Ainda”, sublinhou. “Não foram resolvidos ainda. Como

já lhe expliquei, estamos a trabalhar nesses problemas.

A nossa ideia é desenvolver pesquisas paralelas sobre a

clonagem de primatas para preparar o trabalho seguinte,

que é a clonagem de seres humanos. Mas é evidente que

só passaremos a essa fase quando estiverem solucionados

os problemas técnicos relacionados com as proteínas que

ordenam os cromossomas no momento da separação dos

núcleos e os problemas com os telómeros que afectam a

esperança e a qualidade de vida dos animais clonados.”

Tomás cruzou os braços e lançou um olhar perscrutador

na direcção do cientista.

“Ou seja, o objectivo final do trabalho neste Centro de

Pesquisa Molecular Avançada é clonar seres humanos.”

O professor Hammans quase respondeu, mas hesitou e,

inseguro quanto ao que dizer, desviou o olhar para o

seu

superior

hierárquico,

como

se

solicitasse

instruções.

“Também”,

disse

Arpad

Arkan,

encarregando-se

da

resposta a esta questão. “Também.”

“Também, como?”, admirou-se o historiador. “Não é isso

o que vocês estão a tentar fazer aqui?”

“Sem dúvida!”, confirmou o presidente da fundação.

“Clonar seres humanos é um objectivo da nossa

instituição.”

“Um objectivo? Que quer dizer exactamente com isso? Há

outros objectivos?”

“Claro que há!” Abriu os braços, exibindo todo o espaço

em redor. “A nossa instituição é muito grande e temos

vários projectos em curso ao mesmo tempo. O maior é

mais importante do que a simples clonagem de seres

humanos.”

Tomás ficou embasbacado.

“Que projecto pode ser maior do que esse?”

Arkan sorriu e começou a caminhar em direcção à porta

da sala, fazendo um gesto ao grupo para o acompanhar.

“Venham daí”, convidou-os. “Vou levar-vos ao coração do

Centro de Pesquisa Molecular Avançada.”

Os três visitantes entreolharam-se, mas a um novo sinal

acabaram por seguir o anfitrião. O professor Hammans

despediu-se deles, alegando ter trabalho a fazer num

laboratório, e o grupo internou-se no edifício.

Percorreram longos corredores, passando por mais

laboratórios. Em dois deles havia pessoas a trabalhar

com máscaras e em escafandros brancos, como se

estivessem a operar no espaço sideral ou na Lua.

“É para evitar a contaminação”, explicou Arkan perante

o olhar inquisitivo dos seus acompanhantes. “Estes

laboratórios lidam com espécimes antigos num ambiente

totalmente esterilizado.”

Ao longo do percurso apenas viram a luz do dia quando

circundaram um pátio interior onde estavam instaladas

mesinhas ao ar livre. Viam-se alguns técnicos de bata

branca a beber café ou refrigerantes e a comer saladas

ou sanduíches e a conversar em tom ameno. Mas depressa

o caminho os conduziu de volta à luz artificial e ao

labirinto de corredores que caracterizava o interior do

edifício.

Desembocaram num pequeno átrio voltado para uma parede

cilíndrica de betão. Havia uma porta blindada ao

centro, com uma grande janela circular no meio, como a

de uma nave espacial, e um guarda armado com uma Uzi a

proteger a entrada.

“Chegámos ao coração da Arca”, anunciou Arkan com

orgulho. “Na verdade, é mais do que o coração do

edifício.” Pousou a mão na porta blindada. “O que está

para lá desta porta é o coração de todo este complexo.

Trata-se, se quiserem, da raison d'être do projecto que

alimenta o Centro de Pesquisa Molecular Avançada.”

“Está a falar de quê?”

O anfitrião arqueou as suas grossas sobrancelhas e

estreitou os olhos com ar sigiloso, misterioso até.

“Do nosso segredo mais bem guardado.”

LIX

Sicarius rodou lentamente o corpo e olhou para trás,

consciente de que tinha sido avistado. Viu um homem de

bata branca junto à entrada de serviço a olhar na sua

direcção; fora decerto ele que o interpelara.

“Chamou-me?”

“Sim. Preciso que me ajudes a transportar um saco de

fertilizantes para o Éden.”

O intruso ficou momentaneamente sem saber o que fazer.

Precisava de acompanhar o posicionamento do mestre no

marcador, para não lhe perder a pista, mas não podia