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dar nas vistas. Se recusasse a ajuda que lhe era

solicitada, como reagiria o homem que o interpelara?

Por outro lado, se lhe fosse dar o auxílio que lhe era

pedido, a coisa poderia correr mal. Quem lhe garantia

que o desconhecido não começaria a fazer perguntas

incómodas que acabassem por desmascará-lo? Sentiu-se

dividido por alguns instantes, sem saber como proceder,

mas o seu treino para lidar com imprevistos levou a

melhor e ele acabou por se decidir.

“Onde está o saco?”

“No armazém de jardinagem.”

“Dê-me um quarto de hora e eu já lá apareço, está bem?

Estou só a procurar um rato que anda aqui a dar cabo

dos canteiros!...”

O homem ficou um momento paralisado, como se avaliasse

a resposta. Sicarius sentiu o coração bater com força e

quase conteve a respiração. Será que ele ia engolir a

desculpa? O desconhecido acabou por assentir e abrir a

porta de serviço para se afastar.

“Está bem”, disse ele. “Mas não demores muito. O Ehud

está furioso porque alguém se esqueceu de lhe levar os

fertilizantes!”

O homem desapareceu no interior do edifício e Sicarius

respirou fundo. Olhou para o pager e viu o sinal que

piscava no visor a movimentar-se.

“Que raio!...”

O intruso hesitou, sem saber para onde dirigir-se. Para

a esquerda? Para a direita? Esforçando-se por pensar

com clareza, pousou os olhos no ecrã e aguardou que a

nova situação se definisse. O indicador de potência

mostrou-lhe que o sinal começara a enfraquecer, indício

seguro de que o seu marcador secreto se deslocava e

começara a afastar-se.

“Para onde vais, mestre?”, murmurou com ansiedade, os

olhos cravados no pager. “Para onde?”

Deu uns passos para a esquerda e verificou que o sinal

se tornou ainda mais fraco. Inverteu a direcção e

voltou para a direita em passo acelerado. A intensidade

do sinal aumentou de imediato, o que o tranquilizou. O

marcador estava a caminhar para a direita. O intruso

prosseguiu assim o percurso na mesma direcção,

progredindo

paralelamente

à

parede

exterior

do

edifício, a atenção sempre fixa na força do sinal que

piscava no ecrã do pager.

O sinal foi ganhando intensidade até que atingiu um

valor máximo e depois começou a diminuir. O intruso deu

meia volta e procurou o ponto onde ele era mais forte.

Quando o encontrou, fez novo cálculo. O marcador

situava-se nesse instante a quinze metros de distância

em linha recta para o interior do edifício.

Sicarius olhou em redor, buscando o acesso mais próximo

para entrar quando recebesse a ordem. Viu uma abertura

no relvado, a uns meros dez metros de distância, e foi

inspeccionar o local. Havia ali umas escadas a descer

para a base do edifício e que desembocavam numa saída

de emergência.

Perfeito.

O intruso acocorou-se, fingindo que era um jardineiro a

apanhar ervas daninhas, e pousou o pager sobre a relva,

consciente de que a qualquer momento teria de passar à

acção.

O bip do mestre é que lhe daria a ordem.

LX

A porta blindada que barrava o acesso à grande câmara

metálica tinha aspecto de ser incrivelmente compacta. O

grupo aproximou-se dela e Tomás apercebeu-se de que,

debaixo da janela circular, semelhante às escotilhas

dos navios, a porta ostentava uma placa prateada com

caracteres hebraicos.

antfTpn un?

t h: - v 1

Impelido pela curiosidade, o historiador leu a

expressão gravada na placa e arregalou os olhos. Como

um autómato, pronunciou as duas palavras quase sílaba a

sílaba.

“Kodesh Hakodashim.”

Valentina notou o olhar siderado do português e voltou-

-se para Arnie Grossman. O polícia israelita parecia

igualmente surpreendido pela informação que lia na

placa da porta.

“O que é?”, quis saber, subitamente inquieta. “O que

quer isso dizer?”

Os dois estavam demasiado surpreendidos para

responderem de imediato, pelo que foi Arkan quem, com o

orgulho desenhado no rosto, lhe traduziu a expressão

hebraica. “Santo dos santos”, disse com pompa. “O

coração do Templo.”

“Qual templo? O de Jerusalém?”

“Claro. Haverá outro?”

A italiana sacudiu a cabeça.

“Não percebo”, confessou. “O Templo não é em Jerusalém?

Em que sentido é isto o santo dos santos?”

Foi Tomás, que entretanto recuperara da surpresa de ver

ali aquela designação, quem lhe respondeu.

“O Kodesh Hakodashim, ou santo dos santos, era uma

câmara situada na parte oeste do Templo de Salomão,

perto do actual Muro das Lamentações”, explicou o

historiador. “Daí a importância desse muro para os

judeus. O santo dos santos estava protegido por um véu

e guardava a arca da aliança, sendo este o local onde a

presença de Deus se sentia com mais força na Terra. O

Templo de Salomão foi mais tarde destruído e a arca da

aliança desapareceu. Quando o segundo Templo foi

construído por Herodes, após o exílio dos judeus na

Babilónia, colocou-se no santo dos santos uma pequena

elevação no lugar que a arca tinha ocupado, para

simbolizar a sua presença. No entanto, os judeus

sustentavam que Deus continuava fortemente presente na

câmara, pelo que ela se manteve sagrada.”

Valentina seguia a explicação com os olhos presos à

porta blindada.

“Estou a entender”, disse. “Essa expressão está aí num

sentido metafórico. Quer dizer que a coisa mais

importante deste complexo é guardada ali dentro.”

“Também”, anuiu Arkan, “mas não só.”

“Que quer dizer com isso?”

O presidente da fundação assentou as mãos nas ancas e

contemplou a janela redonda a meio da porta.

“Esta porta é o véu”, disse, com uma expressão

subitamente solene. “Para lá dela está o Kodesh

Hakodashim.” Fez uma curta pausa, para obter efeito

dramático. “No sentido literal da palavra.”

A declaração fez Tomás arrebitar o sobrolho e, logo a

seguir, revirar os olhos, como se não tivesse paciência

para ouvir disparates.

“Não brinque com ela”, observou. “No sentido literal,

isso quereria dizer que Deus está a deambular para lá

dessa porta. Ora uma coisa dessas não é verdade, como é

evidente.”

“Estou a dizer-lhe que a câmara diante de nós é o

Kodesh Hakodashim”, repetiu Arkan, sempre com ar

grandiloquente.

“No

sentido

literal.

Não

tenha

dúvidas.”

O historiador riu-se e apontou para a janelinha