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circular. “Deus está ali dentro?” O tom da pergunta era

jocoso. “E o Pai Natal? Também?”

O anfitrião não respondeu. Fez sinal ao guarda e de

imediato o homem tirou uma chave do bolso e destrancou

uma porta. O grupo olhou para lá dela e viu um

balneário com chuveiros.

“Toda a gente para o banho!”

A ordem colheu os visitantes de surpresa.

“Para quê? O que se passa?”

O presidente da fundação apontou para a porta blindada.

“Faz parte do protocolo para poder aceder ao santo dos

santos”, justificou. “Qualquer pessoa que entre lá tem

de estar totalmente esterilizada, de modo a não

contaminar a câmara.”

A primeira a tomar banho foi Valentina, seguindo-se os

três homens. Tomás teve de ir para baixo de um chuveiro

e foi ensaboado da cabeça aos pés com uma solução

especial. No final tinha o guarda a esperá-lo com uma

toalha branca, com que se cobriu.

Quando regressou à antecâmara, viu Arkan abrir um

armário corrido ao longo da parede. O interior estava

repleto de grandes peças de roupa branca pendurada em

cabides, com capuzes cobertos por visores e selados no

interior de um grande plástico transparente. O

anfitrião retirou quatro dessas peças, rompeu o

plástico

protector

e

entregou

três

aos

seus

acompanhantes.

“Vistam isso!”

Tomás desdobrou a peça que lhe coube e analisou-a de

uma ponta à outra. Tratava-se de um escafandro como os

que tinha visto serem usados em alguns laboratórios do

edifício.

“O que se passa?”, gracejou. “Estamos no Carnaval ou

que?

“Vista!”, insistiu o anfitrião, indicando a porta

blindada com um movimento da cabeça. “Também faz parte

do protocolo para entrar lá dentro.”

O grupo obedeceu e cada um foi para um vestiário

individual. O historiador sentiu maiores dificuldades

em meter-se no escafandro devido à mão direita

engessada, que não assentou correctamente na luva,

tendo acabado por ficar como um chumaço na extremidade

do braço.

Terminaram de se vestir e voltaram para a antecâmara,

onde o guarda os ajudou a selar os visores.

Experimentando uma leve sensação de claustrofobia,

Tomás sentia-se como um astronauta; respirava por um

circuito alimentado por duas botijas fixas nas costas,

semelhantes às dos mergulhadores.

Depois de se certificar de que estavam todos

preparados, Arkan aproximou-se da entrada e abriu uma

tampa, revelando uma cavidade no interior da porta

metálica. Mesmo atrás dele, o português espreitou-lhe

sobre o ombro e percebeu que havia um teclado pregado à

base da cavidade, cada tecla com uma letra ou um

número.

“O que é isso?”

“É para inserir o segredo que destranca a porta”,

retorquiu o presidente da fundação. “Não se esqueça de

que vamos entrar no santo dos santos. Isso significa

que estaremos na presença de Deus. Um sítio destes tem

de ser adequadamente protegido, não lhe parece?”

A forma como Arkan falava deixava transparecer a

convicção de que acreditava literalmente em tudo aquilo

que dizia, o que baralhou Tomás. O historiador começou

a perguntar a si mesmo se haveria algum fundamento real

para tanta certeza. Seria aquela câmara realmente o

santo dos santos? Sentir-se-ia ali fisicamente a

presença de Deus? Como era tal coisa possível? A

hipótese mais provável parecia-lhe ser que o seu

anfitrião tinha enlouquecido. Estava decerto delirante

e sofria de ilusões de grandeza. Porém, se era esse o

caso, tratava-se de uma alucinação cara e que envolvia

grandes recursos.

O historiador olhou em redor, quase como se fosse um

inspector das Finanças. Aquelas instalações, mais o

equipamento, os cientistas e todo o pessoal que nelas

trabalhava,

tinham

ar

de

ser

realmente

muito

dispendiosas. Com certeza que, se tudo aquilo não

passasse de um devaneio louco de um alucinado, ninguém

teria seguido Arkan. No entanto, ali estava aquele

enorme centro de investigação a operar. Tinha, pois, de

ser coisa genuína. Ora se não se tratava de uma

loucura, de que se tratava afinal? Poderia Arkan estar

mesmo a falar a sério?

Com a curiosidade a ferver-lhe nas veias, o português

espreitou pela janela redonda para tentar perceber o

que se encontrava no interior da câmara. Notou nesse

instante que havia uma frase colada ao vidro em

caracteres medievais góticos de difícil leitura.

llBcr alíen 6ípfefn íst Tluf), ín aíTen tüípfefn

spürest §u Raum eínen íòauclj;

Me t)õgefeín scfjwíççen ím TÜafôe.

TÜarte nur, 6afôe. Xufiest 5u aucfj.

Esforçou-se por decifrar aquelas letras difíceis e

entender o que estava ali escrito; apercebeu-se de que

se tratava de um verso em alemão e, após destrinçar as

primeiras palavras, tomou consciência de que aquele

texto lhe era familiar.

“‘Por todos estes montes reina a paz”’, recitou ele com

súbito deleite, “‘em todas estas frondes a custo

sentirás sequer a brisa leve; em todo o bosque não

ouves nem uma ave. Ora espera, suave. Paz vais ter em

breve.’”

Arkan voltou a cabeça para trás e sorriu.

“Bonito, não acha?”, perguntou. “É o motto da minha

fundação.”

Inebriado com a musicalidade das palavras recitadas em

alemão, Tomás balançou afirmativamente a cabeça.

“É realmente um belo poema”, concordou. “Mas o que está

ele aqui a fazer?”

O seu anfitrião voltou-se para a frente e inseriu a mão

enluvada na cavidade onde se encontrava o teclado.

“Tem uma relação com o segredo que destranca esta

porta”, confessou. “Mandei escrever o poema nesse vidro

para nunca o esquecer.”

Girou sobre si mesmo, de modo a ocultar o teclado da

vista dos visitantes, e pôs-se a digitar o segredo. A

visão estava tapada pelas costas de Arkan, mas Tomás

escutou o som da palavra de código a ser introduzida; é

que, ao ser premida, cada tecla emitia um tique

electrónico.

Tique-tique-tique-tique-tique-tique.

O historiador contou seis tiques consecutivos e, a

mente de criptanalista instintivamente a funcionar, de

imediato percebeu o segredo. Arkan dissera que a

palavra de código estava relacionada com o motto da

fundação? E os seis tiques emitidos pelo teclado

mostravam tratar-se de uma palavra com seis letras? A

resposta era de uma simplicidade infantil.