Goethe.
O segredo que permitia destrancar a porta blindada era
o nome do autor do poema que servia de inspiração ao
trabalho da Fundação Arkan. G-o-e-t-h-e. Seis letras.
O mecanismo da fechadura levou um breve instante a
processar a palavra de código inserida por Arkan. Em
menos de um segundo, a porta emitiu um som metálico
final e destrancou-se com um zumbido suave.
Bip.
LXI
Bip.
Embora suave, a mensagem no pager soou na cabeça de
Sicarius com a força explosiva de um gongo. Como se um
programa
silencioso
tivesse
sido
activado
nesse
instante no seu cérebro, o assaltante pegou no
dispositivo e verificou a posição e a força do sinal
emitido pelo marcador. Permanecia imóvel a quinze
metros de distância em linha recta para o interior do
edifício. E, no entanto, acabara de lhe enviar a
mensagem de activação da fase final da operação.
“Dois minutos, mestre”, sussurrou Sicarius. “Estarei aí
em dois minutos!”
Com o coração aos saltos e o corpo vitalizado pela
injecção de adrenalina que aquele bip lhe despejara no
sangue, dirigiu-se em passos rápidos à abertura cavada
no relvado e desceu as escadas até à porta de
emergência. Cruzou a entrada discreta e entrou no
edifício
por
um
corredor
estreito.
A
passagem
apresentava-se iluminada por luzes brancas e difusas,
como as dos hospitais, e ouvia-se no ar um zumbido
indefinido. A pontuar aquela zoada de fundo estavam
pancadas violentas e ritmadas, que ao fim de alguns
instantes o intruso percebeu serem as batidas do seu
próprio coração.
Entrara na fase crucial da missão. Havia trabalhado
muito para chegar até ali e correra demasiados riscos
para agora deitar tudo a perder. Não podia permitir que
a noção da importância do momento e a adrenalina que
lhe circulava no sangue o levassem a deixar escapar o
domínio das emoções. Deitou a mão à cintura para sentir
a presença da sica. O toque na superfície fria da adaga
sagrada lembrou-lhe a protecção divina que a lâmina lhe
conferia e, como um sedativo, serenou-o.
“Deus o quer!”
O treino tomou nesse instante controlo do corpo. Tal
como no Vaticano, em Dublin, em Plovdiv e no quarto do
American Colony, Sicarius deixou a partir desse momento
de ser um homem e tornou-se um autómato, uma máquina
programada para cumprir a sua missão, fosse qual fosse
o preço. Deslizou com agilidade ao longo do corredor,
os
sentidos
despertos,
a
atenção
centrada
nos
pormenores, os olhos vidrados pela obsessão de concluir
a operação.
Chegou a um corredor largo e deteve-se. Detectou uma
câmara de vigilância no alto da parede, mesmo junto ao
tecto, e hesitou. Verificou a posição do sinal no ecrã
do pager. O seu marcador estava à direita. Espreitou
naquela direcção e viu o novo corredor prolongar-se.
Examinou o espaço em detalhe e vislumbrou um diagrama
do edifício pregado à parede.
Respirou fundo, já em absoluto domínio das emoções, e
começou a caminhar com descontracção. Entrou no
corredor em passo normal, como se fizesse parte da
equipa que operava no complexo e se movesse por ali
perfeitamente à vontade, e dirigiu-se ao quadro para o
consultar.
Totalmente
exposto
ao
olhar
frio
e
silencioso da câmara de vigilância, aproximou-se da
parede onde se encontrava afixado o quadro. A planta
assinalava o nome do edifício, Arca, e indicava os
diversos
percursos,
laboratórios,
compartimentos,
armazéns e câmaras existentes dentro da estrutura, e
ainda a posição onde ele se situava.
Estudou o pager e viu que o sinal começara a
enfraquecer, indício de que o seu marcador reentrara em
movimento. Calculou a distância do marcador em linha
recta e comparou-a com as posições desenhadas no
diagrama do quadro, para perceber para onde devia
dirigir-se e qual o trajecto a tomar.
Identificou a posição do marcador na planta do edifício
e leu o nome do compartimento onde ele se encontrava.
“Kodesh Hakodashim”, murmurou. “O santo dos santos.”
Vacilou, surpreendido com a designação, e olhou em
redor com uma expressão interrogadora. “O que é isto? O
Templo?”
Mas não havia tempo a perder com charadas; para mais,
não era de certeza nessa altura que obteria respostas.
Voltou a concentrar-se na missão. Comparou a posição do
santo dos santos com o ponto onde se encontrava nesse
momento e percebeu, com a ponta do dedo a deslizar pelo
itinerário estabelecido no diagrama, que lhe bastaria
percorrer o corredor e virar na segunda porta à
direita.
Era lá que estava o alvo.
Uma vez o percurso delineado, partiu de imediato.
Percorreu o corredor em passos largos e quando chegou à
segunda porta à direita parou. Consultou mais uma vez o
pager para se certificar de que se posicionara no sítio
certo. O sinal mostrou-se mais forte do que nunca e
Sicarius calculou que o marcador se encontrava a três
ou quatro metros de distância em linha recta. Era ali o
destino. Respirou fundo e avançou.
Abriu a porta com cuidado e ouviu vozes. Hesitou.
Deveria entrar ou seria melhor aguardar? A verdade é
que o mestre o instruíra para só passar ao ataque
depois de receber a segunda mensagem. A primeira, o bip
que acabara de receber no pager, não passara de uma
ordem para se pôr em posição, coisa que nesse momento
fazia. Porém, para poder cumprir adequadamente esta
primeira ordem precisava de perceber o que o esperava
do outro lado. Deveria arriscar?
Com mil precauções, meteu a cabeça e espreitou para o
interior. Do lado de lá estava uma antecâmara com uma
parede cilíndrica de betão à frente e uma porta de aço
maciço aberta no meio. Avistou algumas pessoas de
costas para ele e vestidas com escafandros brancos a
franquearem a passagem e, embora não lhe visse o rosto
bendito, percebeu que uma delas era o mestre.
A porta blindada fechou-se atrás do grupo com um
zumbido ténue, voltando para o exterior uma placa
prateada que assinalava Kodesh Hakodashim em caracteres
hebraicos.
Se
alguma
dúvida
lhe
restasse,
ela
dissipara-se nesse preciso momento.
Era ali.
LXII
A porta blindada fechara-se e os três visitantes
olhavam em redor, num misto de curiosidade e cautela,
manifestando um enorme respeito pelo lugar onde se
encontravam. Tinham entrado numa vasta câmara sem