janelas
e
com
vários
corredores,
formados
por
equipamento sofisticado e mesas de trabalho. As paredes
estavam cobertas por uma sequência de portas de um
branco liso, como as dos frigoríficos. O ar tinha uma
pressão ligeiramente superior à normal, para impedir a
invasão
de
microrganismos
ou
de
qualquer
pó
indesejável, e um termómetro digital na parede
registava um grau Celsius. Pelos vistos fazia frio, mas
o escafandro mantinha toda a gente aquecida.
“É isto o Kodesh Hakodashim?”, quis saber Tomás,
estudando a câmara com atenção. “É mesmo o santo dos
santos?”
Arpad Arkan acenou afirmativamente.
“Já vos disse que sim.”
O grupo manteve-se silencioso durante alguns segundos,
na expectativa, os olhares projectados em todas as
direcções. Mas nada acontecia e Arnie Grossman, o mais
impaciente dos três visitantes, não se conteve.
“Se isto é o Kodesh Hakodashim, onde está Deus? Não
deveria Ele deambular fisicamente neste lugar?”
“Ele está aqui”, confirmou o anfitrião. “Encontra-se
nesta câmara. Em pessoa.”
Os olhos dos visitantes voltaram a procurar vestígios
da presença divina, como se ela fosse um corpo
material. Porém, nada viam de extraordinário para além
de todo o equipamento que quase transformava a câmara
num labirinto. Talvez se explorassem todos os seus
caminhos encontrassem alguma coisa.
“Onde?”
Arkan meteu por um dos corredores e fez sinal aos três
de que o seguissem. Colunas de armários e equipamento
faziam de parede do corredor, que ao fim de uma centena
de metros foi dar a um pequeno largo. A meio desse
espaço aberto estava uma mesa com um microscópio,
ampolas, seringas e tubos de ensaio, mas o mais
importante era o que se apresentava em frente.
Tratava-se da porta de um enorme congelador. O que o
distinguia do resto era o emaranhado de luzes vermelhas
cruzadas em todas as direcções, como uma rede de linhas
rectas. Para requerer um dispositivo de segurança assim
tão sofisticado, o que quer que ali estivesse guardado
era decerto precioso.
Antes de começar a falar, o presidente da fundação
esperou que todos se pusessem à vontade naquele espaço.
“Algum de vós já ouviu falar de Armon Hanatziv?”
“Claro”, retorquiu de imediato Grossman, puxando dos
seus galões de polícia. “É um bairro uns cinco
quilómetros a sul da cidade velha de Jerusalém, mesmo
ao pé do monte Moriah. O que tem ele?”
“Sabe como se chamava antigamente?”
O inspector-chefe da polícia israelita curvou os lábios
numa expressão de ignorância.
“Não sabia que Armon Hanatziv já teve outro nome...”
O olhar de Arkan desviou-se para Tomás; queria observar
a expressão do historiador quando pronunciasse o nome
antigo do bairro.
O académico português esboçou uma careta indefinida,
como se o nome lhe parecesse vagamente familiar.
“Talpiot... Talpiot...”, murmurou, fazendo um esforço
de memória. “Isso de facto lembra-me alguma coisa...”
O anfitrião sorriu.
“Vou dar-lhe uma ajuda”, disse. “Numa manhã da
Primavera de 1980, um bulldozer estava a operar no
bairro de Armon Hanatziv para abrir espaço destinado à
construção de um novo projecto imobiliário. No decurso
dos trabalhos, o bulldozer embateu inadvertidamente
numa estrutura enterrada no solo. Os operários foram
ver o que era e depararam-se com o que parecia uma
fachada de pedra pertencente a uma construção antiga
debaixo da terra. Havia uma abertura e um estranho
sinal esculpido no topo da fachada, por cima da
abertura. Era um ‘V’ invertido por cima de um pequeno
círculo.” Pegou numa caneta e fez um desenho num papel.
“Assim.”
“Talpiot.”
Tomás contemplou o desenho com um olhar entendido.
“Parece o símbolo pregado na fachada da Porta de
Nicanor, uma das entradas no Templo”, observou.
“Conhecemo-lo graças a imagens que aparecem nas moedas
do período.”
“E o que significa?”
O historiador fez um ar pensativo.
“A Porta de Nicanor assinalava o ponto final da
peregrinação a Jerusalém”, indicou. “Esse símbolo
representava o olho da pureza, também designado olho da
ascensão. Sabe, o círculo dentro de um triângulo é um
símbolo paleo-hebraico. Em termos literais, é um olho a
espreitar por uma porta.”
“Diria que se trata de uma descoberta interessante?”
Tomás fez um sim enfático com a cabeça.
“Muito!”
“Pois os trabalhadores também acharam curioso”, disse
Arkan. “Mas havia trabalho para fazer e eles depressa
esqueceram a descoberta. Os bulldozers recomeçaram a
remover terras e a dinamite voltou a ser usada para
quebrar rochas.”
“Espere aí!”, interrompeu-o Grossman. “Por lei, quando
se faz um achado destes, todo o trabalho tem de ser
interrompido. Só pode ser retomado depois de os
arqueólogos autorizarem.”
“A lei é muito bonita, sim senhor”, registou o
anfitrião com ironia. “Mas, como tenho a certeza de que
sabe, todos os meses são feitas dezenas de descobertas
semelhantes em Jerusalém e a última coisa que os
construtores desejam é parar os trabalhos sempre que
umas velharias lhes aparecem quando estão a aplanar
terreno para erguer mais uns prédios. No fim de contas,
quem lhes paga os prejuízos que sofrem por terem os
trabalhos suspensos durante dias a fio, se não mesmo
meses?”
O polícia israelita assentiu. O problema era por demais
conhecido em Israel.
“Pois é, ninguém respeita a lei.”
“Acontece que, depois de os trabalhos serem retomados,
uns miúdos da vizinhança esgueiraram-se pela abertura
da fachada e encontraram alguns crânios no interior da
estrutura enterrada no solo. Puseram-se até a jogar à
bola com eles. A ver tudo isto estava o filho de uma
arqueóloga, que, devido à profissão da mãe, sabia que
todo o sector em torno do monte Moriah era rico em
achados arqueológicos de grande importância.”
“Não admira!”, observou Tomás. “O monte Moriah é o
monte onde estava construído o Templo. Tudo o que ele
contém há-de ser de importância.”
“Assim é, de facto. De modo que o miúdo foi alertar a
mãe. A arqueóloga pediu ajuda ao marido e seguiram os
dois para o local. Deram com as crianças a brincar com
os restos mortais e puseram-se aos berros, afugentando-
-as. Com as crianças fora do caminho, inspeccionaram os