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ossos que elas deixaram no chão. Eram restos de pelo

menos dois crânios, já feitos em cacos pelos pontapés.

A arqueóloga e o marido recolheram esses vestígios e

guardaram-nos em sacos de plástico. Quando o casal

regressou a casa, ela ligou para a Autoridade das

Antiguidades de Israel, que enviou de imediato técnicos

para analisar o achado. Uma equipa de três arqueólogos

esgueirou-se

pela

estreita

entrada

da

estrutura

soterrada e inspeccionou o interior. Rastejaram uns

metros e o espaço abriu-se, permitindo que se pusessem

de pé. Tinham chegado a uma câmara inferior, onde o ar

estava estagnado e cheirava a giz húmido e a terra

bolorenta. Apontaram as lanternas para o chão e

perceberam que a terra ali era vermelha. Tratava-se da

famosa terra rossa.”

“Sei muito bem”, indicou Grossman com um semblante

conhecedor. “É típica de Jerusalém.”

“Os arqueólogos viraram então as lanternas para as

paredes e ficaram embasbacados com o que viram. Quando

percebeu o que estava lá dentro, o chefe da equipa saiu

imediatamente da estrutura subterrânea e mandou parar

todos os trabalhos.”

Fez uma pausa na narrativa e passeou o olhar pelas três

pessoas que o escutavam.

“Fazem ideia do que tinha acabado de ser descoberto?”

“A arca da aliança?”, gracejou o polícia israelita. “Ou

terão sido antes as tábuas da lei que Deus deu a

Moisés?”

Arkan disparou um olhar fulminante para Grossman,

tornando claro que dispensava aquelas larachas.

“Um importante mausoléu funerário”, revelou, levemente

irritado por o inspector-chefe lhe ter estragado o

efeito. “Havia seis receptáculos cavados em três das

quatro paredes da câmara inferior, e cada receptáculo,

designado kokhim em hebraico e loculi em latim,

continha um ou mais ossários. Ao todo, a equipa

contabilizou dez ossários cobertos de terra rossa. Os

ossários foram retirados um a um e remetidos para o

armazém da Autoridade das Antiguidades de Israel,

embora aparentemente um deles tenha acabado por

desaparecer algures pelo caminho, decerto vendido a um

antiquário qualquer. Seja como for, os arqueólogos

voltaram ao interior do mausoléu e inspeccionaram a

câmara baixa ao pormenor. Descobriram três crânios

dispostos no chão em triângulo, disposição que dava a

impressão de

resultar

de

um

qualquer

tipo

de

cerimonial.”

Arnie Grossman consultou o relógio. A impaciência era

um vulcão que lhe regurgitava nas entranhas e ameaçava

explodir a todo o instante.

“Oiça, o que interessa isso?”, perguntou, à beira da

erupção. “Estamos a conduzir uma investigação criminal

e essa história de arqueólogos não interessa para nada!

Porque não nos diz imediatamente, e sem rodeios, o que

queremos saber?”

“Estou a dizer-vos o que vocês querem saber!”,

retorquiu Arkan com acidez. “Mas para perceberem o que

tenho para vos revelar, e mostrar, precisam primeiro de

conhecer estes pormenores. Sem eles, o resto não faz

sentido.”

O inspector-chefe da polícia israelita esboçou um gesto

largo, a indicar tudo em redor.

“O senhor começou por nos dizer que isto aqui era o

santo dos santos e coisa e tal”, exclamou. “Chegou até

a afirmar, blasfémia das blasfémias, que Deus está

fisicamente nesta câmara! E agora vem-nos com essa

conversa de ossários e mais não sei quê!”

“Calma”, aconselhou Valentina, pondo-lhe a mão no ombro

para o conter. “Vamos primeiro ouvir tudo até ao fim e

depois decidiremos o que fazer. Se isto for uma manobra

dilatória, é só uma questão de fazer uso do mandado que

o juiz passou.”

Travado pelos argumentos da colega italiana, Arnie

Grossman respirou fundo e, quase com fumo a exalar-lhe

pelas narinas, dominou o desassossego.

“Prossiga.”

Arpad Arkan não parecia minimamente preocupado, o que

intrigou Tomás. Ou estava muito seguro de que tinha de

facto uma grande revelação a fazer, ou então guardara

uma carta na manga para se escapar no derradeiro

momento.

“Uma vez no armazém da Autoridade das Antiguidades de

Israel, os nove ossários de Talpiot foram medidos,

fotografados e catalogados com a referência IAA 80/500-

509”, disse o presidente da fundação, retomando o

relato num tom imperturbável. “IAA refere-se às

iniciais do nome inglês da instituição, Israel

Antiquities Authority, o 80 ao ano da descoberta, 1980,

e o 500-509 ao número de entrada dos ossários na lista

dos artefactos catalogados nesse ano.”

“Tudo isso são minudências técnicas”, interrompeu

Tomás. “O que tinham esses ossários de especial?”

“Respondo-lhe com outra pergunta”, devolveu Arkan. “Tem

ideia se é comum os ossários judaicos conterem nomes?”

O historiador abanou a cabeça.

“Que eu saiba, apenas uns vinte por cento dos ossários

descobertos

em

Jerusalém

dispõem

de

referências

inscritas.”

O anfitrião confirmou.

“Assim é. Acontece que, no caso de Talpiot, seis dos

nove ossários tinham de facto nomes grafados na pedra.

Já isso os tornava raros. Mas o que fez deles uma

descoberta verdadeiramente singular foram os nomes que

registavam.”

Nova pausa para interpelar o historiador.

“Consegue imaginar que nomes eram esses?”

Tomás encolheu os ombros.

“Não.”

“O ossário IAA 80/500 era o maior, apresentava-se

ornado por rosetas com pétalas e estava coberto de

terra seca. Os arqueólogos limparam a terra e

detectaram uma inscrição em grego a dizer Mariamnu eta

Mara. O ossário 80/501 era igualmente decorado com

rosetas e tinha uma inscrição em hebraico a dizer

Yehuda bar Yehoshua. O 800/502 registava, também em

hebraico, o nome Matya. O 800/504 dizia Yose e o

800/505 registava Marya, sempre em hebraico.”

“O senhor disse que seis ossários tinham inscrições”,

observou Tomás, atento aos pormenores.

“Mas só mencionou cinco.”

Arkan sorriu.

“Já vi que é bom observador”, constatou. “De facto,

saltei o 80/503 de propósito. Esse não estava inscrito

em grego nem em hebraico. Encontrava-se em aramaico. As

letras apresentavam-se obscurecidas por camadas grossas

de pátina, não sei se sabe o que é.”

“Trata-se de verdete”, esclareceu o historiador. “Um

processo de mineralização com o qual os arqueólogos

lidam frequentemente.”

O anfitrião inclinou a cabeça.