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“Não me diga que ainda não chegou ao nome que está

nesse sexto ossário de Talpiot...”

De olhos semicerrados, Tomás ia relacionando a

informação com os registos na sua memória. De repente

arregalou os olhos, atingido em cheio pelo impacto da

descoberta.

“Espere aí!”, exclamou num tom alterado. “Agora me

lembro onde ouvi falar de Talpiot! Isso não é o local

onde descobriram o ossário com o nome de... de...”

O presidente da fundação cruzou os braços e cravou os

olhos em Tomás, consciente de que ele era o único dos

seus interlocutores naquela câmara que entenderia o

verdadeiro alcance do que significava o nome inscrito

no ossário IAA 80/503.

“Yebosbua bar Yehosef.”

O académico português abriu a boca, estarrecido.

“Não pode ser!”

“Garanto-lhe.”

“Está a falar a sério?”

Os dois polícias registaram a estupefacção estampada no

olhar de Tomás e perceberam que algo lhes escapava

naquela conversa.

“O que é?”, perguntou Valentina. “O que significa

isso?”

O historiador levou alguns segundos a recuperar do

choque. Ainda atordoado, virou-se devagar para a

italiana e olhou-a como se tivesse a mente em ebulição.

“Hã?”

“O nome inscrito nesse ossário”, insistiu ela. “O que

tem ele de especial?”

Tomás sacudiu a cabeça e, como se regressasse ao

presente, focou os olhos nela.

“Yehoshua bar Yehosef?”, perguntou. “Não sabe o que

isso quer dizer?”

“Claro que não! Esclareça-me, se fizer o favor.”

“Joshua, filho de José.”

Valentina esboçou uma expressão vazia; era evidente que

aquele nome nada lhe dizia.

“Joshua? E então?”

“ Yehoshua é uma antiga forma de Joshua. Esse é o nome

formal, claro, mas os hebraicos tendiam a usar

diminutivos. Em vez de dizerem Yehoshua, diziam Yeshu.”

A italiana manteve o mesmo olhar oco. Nada daquilo lhe

parecia minimamente notável.

“E depois?”

O português olhou de relance para Arkan, como se

quisesse certificar-se de que entendera bem. A

expressão levemente orgulhosa do presidente da fundação

deu-lhe a confirmação. Voltou a encarar Valentina e

deu-lhe enfim a resposta.

“Yeshu significa Jesus”, esclareceu. “Entende?”

Valentina esbugalhou os olhos.

“Perdão?”

“Jesus, filho de José.”

LXIII

Logo que a porta blindada se fechou, o homem armado que

guardava a antecâmara do Kodesh Hakodashim viu o

intruso espreitar pela entrada e interpelou-o.

“Precisa de ajuda?”

Não se pode dizer que Sicarius tivesse sido apanhado de

surpresa; afinal estava treinado para lidar com

imprevistos e ser detectado naquele local era uma

eventualidade que previra atempadamente. Tinha por isso

resposta já preparada.

“Chamaram-me dos serviços de manutenção”, disse,

entrando na antecâmara com confiança. “Parece que há

por aqui problemas técnicos.”

Olhou com atenção para tudo em redor. Dava a impressão

de procurar a origem de uma avaria, quando na verdade

estava a inspeccionar o local para recolher informação

que lhe permitisse actuar com eficácia. Havia uma

câmara de vigilância no tecto, apontada para a porta

blindada com a janela circular no meio.

“Problemas?”, admirou-se o guarda. “Que problemas? A

central de segurança não me avisou de nada.”

“São questões de natureza eléctrica”, alegou Sicarius,

os olhos ainda a dispararem em todas as direcções para

identificar potenciais ameaças à operação. “Um curto-

circuito, ou coisa do género. Não há por aqui nada

fundido?”

O guarda pegou no intercomunicador que trazia colado ao

peito.

“Vou verificar com a central”, disse, estranhando a

situação. “Eu devia ter sido informado.”

Aquele intercomunicador era outra ameaça, percebeu o

intruso. Mais ainda nesse preciso instante, em que o

guarda iria pedir informações à central de segurança.

Isso era algo que convinha evitar; do outro lado

poderiam vir questões difíceis de responder.

“Isto não é o Éden?”, quis saber Sicarius, papagueando

o nome proferido pelo homem que o interpelara no

jardim. “Não notou nenhuma avaria?”

O guarda ergueu o sobrolho.

“Estamos na Arca!”, anunciou.

“A avaria é no Éden?”

“Foi o que me disseram.”

“Pois está no sítio errado.”

O intruso esboçou um ar contrariado.

“Oh, que chatice!”, exclamou. “Tenho uma loja de

artigos eléctricos em Nazaré e fui chamado de urgência

para vos ajudar.” Fez um gesto vago no ar, simulando

frustração. “Acho que me perdi! Nunca aqui tinha

entrado e isto é enorme!”

O homem armado sorriu e, já tranquilizado, devolveu o

intercomunicador ao seu lugar. A explicação parecia-lhe

verosímil; o complexo era realmente enorme e ele

próprio quase se tinha perdido da primeira vez que ali

entrara.

“Estou a perceber a confusão”, disse enquanto tirava do

bolso uma folha. Desdobrou-a e mostrou uma planta do

complexo que pousou no chão para a poderem ver melhor.

“Está a ver este edifício aqui?” Indicou um ponto

assinalado na planta. “É a Arca, onde nos encontramos

agora.”

Deslizou o indicador para o ponto que se encontrava ao

lado.

“O Edifício Éden é este aqui.”

Sicarius pousou a mão sobre o coração, num gesto de

profundo agradecimento.

“Ah, muito obrigado!”

O guarda acompanhou-o à saída e despediu-se dele. Ficou

a vê-lo afastar-se e regressou ao seu posto de

vigilância junto à porta blindada que dava acesso ao

Kodesh Hakodashim. O que ele não podia saber é que, lá

fora, o “electricista” não se tinha ido embora. Em vez

disso, fizera meia volta e estava nesse instante

encostado à porta de passagem à antecâmara.

Sicarius preparava-se para lançar o ataque.

LXIV

Os três visitantes fitavam Arpad Arkan com uma

expressão pasmada, como se tivessem ouvido e não

acreditassem.

O

anfitrião

sorria-lhes

de

volta,

satisfeito com o impacto da revelação que acabara de

fazer.

“Os nossos arqueólogos encontraram o túmulo de Jesus?”,

questionou-o Arnie Grossman.

Sacudiu a cabeça, como se quisesse acordar.

“Estamos a falar de Jesus Cristo?”

Arkan mantinha o seu sorriso largo.

“Conhece mais algum Jesus, filho de José?”