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O polícia israelita trocou um olhar com a colega

italiana, a pedir-lhe ajuda.

“Desculpe, mas não sei se entendi bem”, disse

Valentina, igualmente perturbada com o que havia

escutado. “Se esse ossário fosse de Jesus, do nosso

Jesus, não deveria estar escrito Jesus Cristo?”

Foi a vez de o anfitrião desviar o olhar para Tomás,

como se lhe endossasse aquela resposta.

“Antigamente as pessoas não tinham nome de família”,

explicou o historiador. “Dispunham de um nome próprio e

em geral eram conhecidas pelo nome do pai ou pelo nome

da sua terra ou da profissão que desempenhavam.

Dizia-se, por exemplo, João, filho de Pedro. Ou João

Alfaiate. No caso de Jesus, podia ser conhecido pelo

nome da terra de onde era oriundo, Jesus de Nazaré, ou

então pelo nome do pai, Jesus, filho de José. Neste

contexto, Cristo não era um nome. O pai dele não se

chamava José Cristo e a mãe Maria Cristo. Cristo era

uma designação. A palavra Messias dizia-se mashia em

hebraico e aramaico e christus em grego. Como a seita

dos nazarenos se expandiu rapidamente entre os gentios,

graças a Paulo, e como a maior parte dos gentios falava

grego, passou a dizer-se Jesus, o Messias, ou Jesus, o

Cristo, expressão que o próprio Paulo cedo contraiu

para Jesus Cristo. Mas o próprio Jesus nunca deve ter

escutado a palavra cristo na vida.”

“Ou seja”, concluiu Valentina, “estranho seria se o

nome Jesus Cristo aparecesse num ossário judaico.”

“Nem mais.”

“E acredita mesmo que esse ossário seja do nosso Jesus

Cristo?”

Tomás considerou por momentos a pergunta. A inspectora

da Polizia Giudiziaria acabara de lhe solicitar um

parecer técnico e parecia-lhe aconselhado ser prudente.

“Isso já é outra questão”, disse. “Seria necessário

investigar melhor o assunto para lhe poder dar

respostas definitivas.”

A observação do historiador suscitou uma reacção

imediata por parte do presidente da fundação.

“Ora essa!”, indignou-se Arkan, levantando a voz. “Como

pode duvidar do que acabei de lhe dizer? Acha que estou

a mentir? Pensa que ando a aldrabar as pessoas?”

Na sede da fundação em Jerusalém, dias antes, Tomás

tivera já um breve e conturbado contacto com o

temperamento volátil do seu anfitrião, quando o vira a

discutir em tons desabridos com Valentina. A última

coisa que pretendia agora era envolver-se numa

discussão emocional em registo semelhante.

“Não penso que queira aldrabar ninguém”, apressou-se a

tornar claro, num esforço para apaziguar Arkan.

“Mas pode ter-se enganado.”

O presidente da fundação, no entanto, por esta altura

já tinha o rosto enrubescido, a fúria a crescer-lhe no

corpo como uma locomotiva que ganhava velocidade, e a

hipótese suscitada pelo historiador serviu apenas para

lhe incendiar ainda mais a ira.

“Como se atreve?”, protestou, lançando inadvertidamente

alguns perdigotos na direcção dos interlocutores.

“Julga que sou um diletante que anda para aqui a

brincar? Pensa que não estou a fazer ciência rigorosa?

Acha porventura que não passo de um amador? Eu?”

O apaziguamento não era afinal o caminho, percebeu

Tomás tarde de mais. Mas o confronto também não, como

havia verificado dias antes, quando Arkan e Valentina

discutiam violentamente em Jerusalém. Talvez o caminho

do meio fosse o mais adequado para lidar com o seu

exaltado interlocutor.

“Penso que preciso de provas”, disse num tom neutro,

como se estivesse a participar numa amena cavaqueira.

“Uma coisa dessas é tão grande que requer verificação

cuidadosa, não é verdade?”

“Provas? Quer provas?”

“Se as tiver.”

O anfitrião vacilou e, tão depressa como se exaltara,

serenou.

“O que precisa de saber exactamente?”

O registo da discussão tornara-se de novo

surpreendentemente normal. Não que Tomás se queixasse.

Na verdade, parecia-lhe o tom adequado para prosseguir

a conversa, até porque tinha uma mão-cheia de questões

a esclarecer.

“Tudo”, indicou o historiador. “Para começar, parece-me

importante perceber como pode ter tanta certeza de que

a descoberta de Talpiot se refere mesmo a Jesus de

Nazaré.”

Arkan cravou nele um olhar meditativo, como se

ponderasse coisas mais importantes do que aquela que o

seu interlocutor lhe tinha pedido.

“Vamos fazer assim”, acabou por dizer.

“Vou-lhe apresentar um conjunto de perguntas-chave e

será você mesmo, com os seus conhecimentos nesta área,

que chegará às conclusões certas. Parece-lhe bem?”

A sugestão surpreendeu o português. Considerou a ideia

e não viu inconvenientes em alinhar no jogo.

“Tudo bem”, aceitou. “Dispare a primeira.”

O anfitrião manteve a expressão pensativa, avaliando

qual a melhor questão para abrir o questionário.

Delineou a estratégia e, firmando a ideia na mente,

ergueu o indicador no ar.

“Então aqui vai”, disse.

“Apesar das inscrições, os ossários não estão datados.

Assim sendo, como podemos nós saber que correspondem ao

período de Jesus?”

“Essa é fácil”, retorquiu Tomás. “A lei judaica

determina que os mortos devem ser enterrados antes do

pôr do Sol. Por volta de 430 a. C., a deposição dos

corpos numa cave, numa gruta ou num túnel escavado na

pedra

começou

a

ser

considerada

em

Jerusalém

equivalente a um enterro. No entanto, a prática de usar

ossários só se iniciou pouco antes do nascimento de

Jesus e terminou no ano 70, quando os Romanos

destruíram a cidade e o segundo Templo. Assim sendo,

por definição, qualquer ossário que se encontrar em

Jerusalém foi obrigatoriamente construído pouco antes,

durante ou pouco depois do período de vida de Jesus.

Foi nessa estreita faixa de tempo que os corpos

começaram a ser envolvidos em mortalhas de linho ou de

lã e inseridos em caves no enterro primário. Mais

tarde, depois da completa decomposição dos corpos, iam-

se buscar os ossos e eles eram depositados em ossários

de família entretanto construídos. Esse era o enterro

secundário e definitivo.”

Arkan assentiu, satisfeito com a resposta.

“Mas quantos judeus usavam os ossários como prática

funerária?”,

perguntou,

sabendo

perfeitamente

a

resposta.

“Todos?”

“Oh, não. Só uma minoria. A maior parte dos judeus

continuou a enterrar os seus mortos na terra, como