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Cove, símbolos de poder que afirmavam a pujança da cidade; mas a jóia da coroa, a pedra mais preciosa daquele elegante diadema, brilhava do outro lado da enseada, beijando o mar, era a estrutura vanguardista da Opera House, com as suas múltiplas conchas brancas encavalitadas umas nas outras, voltadas em todas as direcções, como se exibissem, com orgulho, o encontro da genialidade humana com a simplicidade da natureza.

Sydney resplandecia na Primavera austral.

Durante vinte minutos, o visitante abandonou-se ao plácido espectáculo da arquitectura a fundir-se com o mar e a terra, como se aquela cidade tivesse sido construída, não por presos e forçados, a ralé da espécie humana, mas por artistas e iluminados, gente de saber e talento. Tomás tinha tempo para gastar e não via melhor modo de o fazer do que sentir Sydney respirar o dia.

Foi então que reparou nele.

Era um homem de fato escuro e gravata cinzenta, óculos de marca a esconder-lhe os olhos, que se sentara no banco ao lado. O desconhecido tinha um jornal nas mãos, o Sydney Morning Herald, mas parecia mais preocupado em observar Tomás do que em ler as notícias. A sensação de que estava a ser observado fez Tomás sentir-se desconfortável, primeiro, inquieto depois. Sempre que olhava para o homem ele parecia embrenhado na leitura do jornal. Mas, por três vezes, enquanto contemplava o edifício da Opera, do outro lado de Sydney Cove, voltou-se depressa e surpreendeu o desconhecido a espreitá-lo.

"O cabrão está a espiar-me", murmurou Tomás entre dentes.

Ergueu-se do banco e calcorreou o Circular Quay em direcção aos arranha-218

céus, mas sempre pelo Writer's Walk, o passeio calcetado junto à água. Caminhou dois minutos e só então virou a cabeça, como se estivesse a apreciar a fachada art déco do Museu de Arte Contemporânea. Pelo canto do olho apercebeu-se do vulto escuro do homem; vinha uns cem metros atrás dele com o jornal debaixo do braço.

Seria coincidência? A possibilidade de estar a ser vigiado afigurava-se-lhe como algo absolutamente incrível, coisa de filmes, até porque não comunicara a ninguém o seu destino. Orlov transferira-lhe o dinheiro para a conta e quem comprara o bilhete do avião fora ele, e só em cash, quando chegara ao aeroporto de Frankfurt. Talvez tudo aquilo não passasse de coincidência, admitiu. Decidiu testar esta hipótese e abandonou o Writer's Walk; apanhou Argyle Street e virou logo a seguir para a movimentada George Street. Palmilhou um quarteirão e espreitou pelo reflexo do vidro de uma loja, para saber o que se passava atrás. Como uma sombra que não desgrudava, lá vinha o homem do fato escuro e óculos de marca, o jornal sempre debaixo do braço.

Não havia dúvidas, concluiu, aterrado. Estava mesmo a ser seguido. Agora que a evidência se encontrava estabelecida com firmeza, o problema seguinte, no qual até aí evitara pensar, impôs-se-lhe com brutalidade. Quem seria aquele homem?

Quem o enviara? E, sobretudo, o que lhe queria ele? As perguntas eram arrepiantes, dado que as respostas o remetiam inexoravelmente para a Sibéria, para os desconhecidos que haviam invadido o acampamento yurt a meio da noite e os tinham perseguido por Olkhon até à Shamanka, e depois para além dela, pelo Baikal até à fatídica clareira da taiga onde Nadezhda fora executada. Se aquele homem estava no seu encalço, raciocinou Tomás, é porque se encontrava a mando de alguém, e esse alguém era evidentemente aquele que mandara eliminar os cientistas incómodos.

Os interesses do petróleo.

A ideia deixou-o à beira do pânico. Se os assassinos o tinham seguido até Sydney, em breve iriam desencadear o caos. Fosse como fosse, o encontro com Filipe estava comprometido. Se os levasse até ele, o seu amigo seria abatido com a mesma frieza com que Nadezhda fora executada; ela e o americano na Antárctida e o espanhol em Barcelona. Olhou de relance para o espectro que o acompanhava pelas ruas de The Rocks e sentiu os pelos eriçarem-se-lhe de medo. O que fazer agora? Voltar ao hotel e marcar o voo de regresso? Isso representaria perder o rasto de Filipe. Não, vendo bem, havia uma alternativa. Precisava absolutamente de despistar aquela sombra.

No instante em que tomou a decisão apressou o passo e pôs-se a arquitectar um plano. A cabeça a fervilhar de ideias, passou por baixo da movimentada Cahil Expressway, cruzou Bridge Street, permanecendo sempre na grande George Street, até que a abandonou lá mais ao fundo, quando virou à direita e se dirigiu ao Darling Harbour.

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O alcatrão repleto de automóveis foi cortado diante dele pela figura imponente de um veleiro a cruzar Cockle Bay, e por um instante esqueceu o perseguidor e deixou-se maravilhar por aquela visão surpreendente; só numa cidade daquelas o mar podia entrar assim pelas ruas, com as velas de um navio a passarem tranquilamente entre dois prédios, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.

Mas o encantamento depressa se evaporou; havia algo de mais urgente a atormentá-

lo, o perigo inquietava-o mais do que o espanto o maravilhava. Dirigiu-se a um carro estacionado, espreitou para o espelho retrovisor como se fosse ajeitar o cabelo e viu o homem do fato escuro a segui-lo.

Não desgruda, pensou.

O Darling Harbour era um recanto harmonioso rodeado por construções de linhas vanguardistas. O veleiro que vira instantes antes manobrava na Cockle Bay, rodeado pelo cais, onde se viam vários barcos de recreio atracados, e pela Pyrmont Bridge, uma ponte móvel que atravessava a água e era cruzada por um monocarril futurista. Desceu até ao cais e, aproveitando um ponto em que o seu perseguidor deixara de o ver, embrenhou-se subitamente pelo colorido Cockle Bay Wharf, o recinto de entretenimento da marina. Misturou-se com a multidão e abandonou o recinto pelo outro lado, pon-do-se a correr por um caminho abrigado por um renque de árvores.

Olhou para trás e o homem já lá não estava.

Para se assegurar de que despistara o perseguidor, meteu-se pela primeira porta da grande estrutura comercial que encontrou do outro lado do cais, o Harbourside Complex, e refugiou-se lá dentro. Subiu pelas escadas rolantes e foi para a esplanada instalada na varanda que dava para a marina, de onde esquadrinhou a multidão que formigava em Darling Harbour.

Deixou-se ali ficar uma dezena de minutos, procurando assim garantir que o homem lhe perdera o rasto. O coração regressou gradualmente à normalidade e a confiança também; o encontro com Filipe estava salvo. Consultou o relógio e percebeu que o tempo passara mais depressa do que lhe parecera. Só tinha meia hora para chegar ao local.

O ponto de encontro não foi difícil de localizar. Para dizer a verdade, a sua estrutura esguia era visível de toda a cidade e desde que chegara a Sydney que a espreitava amiúde, do quarto do hotel na véspera, do banco de Sydney Cove nessa manhã, da esplanada do Harbourside Complex alguns instantes antes. Na realidade, o local combinado para se juntar a Filipe atraía-o como um íman; parecia um farol plantado em plena baixa da grande urbe, como se gritasse que era aquele o centro do mundo.

A espreitar em todas as direcções, abandonou Darling Harbour a ritmo de passeio e meteu por Market Street na direcção da ponta norte de Hyde Park, sempre 220

com o seu destino em mira. Apesar da inquietação, sentiu o ritmo aprazível da cidade; Sydney laborava com descontracção, as ruas imaculadamente limpas e arranjadas, a população multiétnica cruzando os passeios, era ali o ponto de encontro da Europa com a Ásia e a Oceânia. Alcançou o seu destino uns quarteirões adiante, no bloco entre Pitt Street e Castlereagh Street, e parou junto ao edifício para medir a altura do colossal monumento que Filipe escolhera para se encontrarem.