em qualquer coisa.
"E contou-te mais alguma coisa sobre a nossa conversa?"
"Bom, falou-me sobre as questões do petróleo e da energia, mas o essencial da sua mensagem era isso. O petróleo não-OPEP vai entrar em declínio e o mundo ficará nas mãos do petróleo da OPEP."
"Ele não te falou nos documentos técnicos da Aramco, pois não?"
"Os documentos de quem?"
"Da Aramco. A companhia petrolífera saudita."
Tomás torceu a boca.
"Não, não me falou nisso." Olhou para o amigo. "Porquê? Devia ter falado?"
Pararam diante de um semáforo para peões, aceso no vermelho. Os automóveis fluíam diante deles, jorrando por Park Street, enquanto os transeuntes aguardavam a sua vez de passarem para o quarteirão seguinte de Pitt.
"No quadro do meu trabalho para o grupo criado depois de Quioto, cabia-me, como já te contei, estudar o problema da energia", disse, ignorando a pergunta de Tomás. "Andei a inspeccionar os principais campos existentes no planeta. Fui ao Texas, à Rússia, ao Cazaquistão, ao mar do Norte, ao golfo do México, ao Alasca...
enfim, onde houvesse grandes poços de petróleo era onde eu ia. Ora, como é evidente, também tive de visitar os países da OPEP. O problema é que aí o acesso à informação foi consideravelmente mais complicado."
"Pois, são ditaduras."
"Não é esse o problema. Os países da OPEP há muito tempo que são governados por regimes autoritários, mas sempre forneceram informação adequada sobre as suas reservas e a produção petrolífera. Desde 1950 que disponibilizavam dados detalhados quanto ao que se passava em cada um dos seus campos." Fitou Tomás. "Estás a perceber? Os tipos não se limitavam a fornecer informações sobre a situação geral. Eles davam pormenores específicos sobre a produção em cada campo petrolífero."
"E deixaram de dar?"
Filipe assentiu com a cabeça.
"Foi em 1982 que os países da OPEP fecharam a torneira da informação. De um momento para o outro, tudo o que se relacionava com as suas reservas e a produção de petróleo tornou-se segredo de Estado. A pouca informação que passaram a disponibilizar era demasiado escassa e absolutamente inverificável. O
mercado passou então a regular-se por estimativas e os dados da OPEP tornaram-se tão pouco credíveis que até o secretariado da organização, em Viena, começou a 225
assentar as informações sobre a produção da OPEP, não nos dados oficiais fornecidos pelos seus próprios membros, mas nessas estimativas."
"A sério?"
"E incrível, não é? Nem a OPEP acredita nos dados fornecidos pelos seus próprios membros."
"Mas por que razão adoptaram eles toda essa política de segredo?"
Filipe cravou os olhos no amigo.
"Essa é a grande pergunta, não é? O que levou a OPEP a cessar o fornecimento de informações sobre a sua produção petrolífera? Ou, fazendo a pergunta de outra maneira: o que tem a OPEP a esconder?"
A luz dos peões passou a verde e a multidão que se aglomerara nos dois passeios avançou e cruzou-se a meio da rua, pareciam dois enxames a convergir, a fundir-se e depois a afastar-se.
"Então diz lá", insistiu Tomás, evitando colidir com dois australianos de calções caqui que atravessavam a rua em sentido contrário. "Por que razão fechou a OPEP a torneira da informação?"
"A resposta oficial é que o petróleo tem uma importância geoestratégica de tal modo grande que os membros da OPEP, para se protegerem das maquinações do Ocidente, têm de manter a informação reservada."
"Mas tu não acreditas nessa explicação..."
"Não", confirmou Filipe. "Não acredito."
"Porquê?"
"Porque é simplória. Porque não bate certo. Porque é um indício de que a OPEP está a ocultar alguma coisa."
"Mas o quê? O que estão eles a ocultar?"
"Foi essa a pergunta que fiz repetidamente a mim próprio. Em busca da resposta, andei alguns meses a voar a caminho das várias capitais do Médio Oriente e comecei a ficar com a sensação de estar a embater em verdadeiras paredes. Depa-rei-me com um manto de sigilo em Teerão, em Bagdade, na Cidade do Kuwait, em Riade. Não imaginas, parecia que estava a falar sozinho."
"Irritavam-se contigo?"
"Não, pelo contrário. Foram sempre muito simpáticos, ofereciam imensas prendas, davam-me excelentes jantares, trata-vam-me com grande cortesia, mas, tudo espremido, não revelavam nada. Daquelas bocas apenas saía a versão oficial de que o Médio Oriente dispõe de tanto petróleo que o pico da OPEP só será alcançado 226
daqui a muitos anos."
"Foi exactamente isso que o Qarim me disse."
"É essa a versão oficial", insistiu Filipe. "Até que, na minha última visita à Arábia Saudita, fui bafejado por um golpe de sorte. Cansado de embater nestes sucessivos muros de silêncio, resolvi tentar visitar o campo de Ghawar, o maior super-campo petrolífero do mundo. Claro que se tratava de uma missão impossível, mas mesmo assim decidi tentar. Para conseguir chegar a Ghawar tive de sair do circuito rotineiro do Ministério do Petróleo, de onde não saía qualquer informação, e fui bater à porta de um departamento de engenharia da Aramco. Marquei uma reunião com o chefe do departamento e, no dia seguinte, compareci à hora marcada na sede da Aramco, um prédio de vidro erguido junto ao deserto, em Dhahran. O
homem recebeu-me com grande cortesia e lá me explicou que não me podia levar a Ghawar, que isso não era matéria da sua competência, que gostaria muito de me ajudar mas era apenas um engenheiro, que eu teria de me dirigir aos circuitos normais."
"O governo?"
"O Ministério do Petróleo. Ora esse circuito já eu conhecia de ginjeira.
Percorria-o há já alguns meses e nunca me levou a sítio nenhum. Como é bom de ver, percebi logo que esta tentativa se encontrava, também ela, condenada ao fra-casso e fiquei muito desanimado." Parou um instante para se orientar na rua e em seguida retomou a conversa. "Acontece que, já perto do fim da reunião, o engenheiro saudita teve uma outra visita e, com uma delicadeza de que só os árabes são capazes, saiu para falar com o recém-chegado e insistiu que eu o aguardasse no seu gabinete." Arqueou as sobrancelhas. "Estás a perceber o que aconteceu?"
"Ficaste sozinho no gabinete."
"Isso mesmo. Quando dei por ela, o homem tinha saído e eu estava sozinho no gabinete. Para queimar tempo, levantei-me do sofá e pus-me a passear os olhos pelos livros e pastas que ele guardava nas estantes." Parou a meio do passeio, como se tivesse chegado a um ponto importante. "Lembra-te de que eu não estava num dos habituais gabinetes de relações públicas do Ministério do Petróleo, em Riade, onde só existem brochuras de propaganda. Dei comigo sozinho no gabinete do chefe de um dos departamentos de engenharia da Aramco, em Dharhan. Tratava-se de um local de trabalho e os documentos nas estantes não eram meras brochuras a cantar loas às imensas reservas petrolíferas da Arábia Saudita, mas verdadeiros documentos técnicos." Retomou a marcha. "Passando os olhos pelas lombadas das pastas, deparou-se-me
uma intitulada Problems in Production Operations, Saudi Fields. Achei o título curioso, de modo que peguei na pasta e pus-me a folheá-la. O que encontrei com uma simples passagem de olhos pelas primeiras páginas deixou-me de tal modo 227
estarrecido que, num impulso, arranquei as folhas todas e escondi-as à pressa na minha mala de mão."
Tomás ficou com um ar embasbacado, algures entre o escandalizado e o admirado.