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Um pensamento súbito a atingiu, golpeando-a feito uma marreta. “Marigan” continuava cuidando deles, ainda que de má vontade, sempre se certificando de que estivessem alimentados e de banho tomado, mas, agora que os meninos tinham voltado a falar, poderiam revelar que a mulher não era mãe deles. Talvez já até o tivessem feito. O que até poderia não suscitar perguntas, mas havia o risco — e perguntas poderiam fazer desabar o castelo de cartas que tinham erguido acima de suas cabeças. Nynaeve sentiu a bola de gelo ressurgir no fundo do estômago. Por que não tinha pensado nisso antes?

Levou um susto quando sentiu Birgitte tocar seu braço.

— Qual é o problema, Nynaeve? Você está com uma cara.. parece que sua melhor amiga acabou de morrer e ainda a amaldiçoou com seu último suspiro.

Areina se afastava a passos largos, empertigada, e deu uma olhada para as duas por cima do ombro. Ela nem se abalava ao ver Birgitte beber e flertar com os homens, e até tentava imitá-la, mas ficava toda encrespada sempre que Birgitte queria ficar a sós com Elayne ou Nynaeve. No mundo de Areina, os homens não representavam ameaça e só mulheres podiam ser consideradas amigas, mas apenas ela podia ser amiga de Birgitte. Parecia achar estranha a ideia de ter duas amigas. Bem, não havia por que perder tempo pensando nela.

— Você conseguiria arrumar cavalos para nós? — Nynaeve tentou manter a voz firme. Não era isso o que tinha ido pedir, mas Seve e Jaril fizeram com que aquela pergunta parecesse excelente. — Quanto tempo levaria?

Birgitte a puxou do meio da rua até a entrada de uma viela estreita entre duas casas castigadas pelo clima, dando uma olhada cautelosa em volta antes de responder. Não havia ninguém por perto para ouvir, nem ninguém prestava atenção nelas.

— Um ou dois dias. Uno acabou de me contar…

— Uno não! Quero deixar ele fora disso. Só você, eu, Elayne e Marigan. A não ser que Thom e Juilin voltem a tempo. E Areina, se você insistir.

— Areina é mesmo muito tonta em alguns aspectos — respondeu Birgitte, hesitante —, mas a vida logo acaba com esse comportamento… ou acaba com ela. Você sabe que eu não vou insistir se você e Elayne não quiserem a presença dela.

Nynaeve ficou quieta. Birgitte estava se comportando como se ela é que estivesse com ciúmes! Ora, não se importava se aquela mulher quisesse uma companhia tão volúvel como Areina.

Esfregando as juntas dos dedos sobre os lábios, Birgitte franziu o cenho.

— Thom e Juilin são bons homens, mas o melhor para evitar confusão é garantir que ninguém esteja disposto a criar confusão com você. Dez ou mais shienaranos, com armaduras ou sem, seriam de grande ajuda. Não entendo você e Uno. Ele é durão e seguiria você e Elayne até o Poço da Perdição. — Um súbito sorriso se abriu em seu rosto. — Além do mais, ele até que é bem constituído…

— Não precisamos de ninguém segurando nossa mão pelo caminho — retrucou Nynaeve, rígida. Bem constituído? Teve um lampejo daquele tapa-olho pintado, junto com as cicatrizes. Birgitte tinha um gosto estranhíssimo para homens. — Podemos muito bem dar conta de qualquer coisa que cruze nosso caminho. E acho que já provamos isso, se é que você precisa de provas.

— Eu sei que podemos, Nynaeve, mas vamos acabar atraindo problemas feito uma pilha de esterco atrai moscas. Altara está cozinhando em fogo brando, a cada dia chegam mais rumores sobre os Devotos do Dragão. E aposto meu melhor vestido de seda contra uma das suas camisolas velhas que metade daquele bando é de bandidos, bem do tipo que vai achar que quatro mulheres sozinhas são presa fácil. Aí vamos ter que provar o contrário a cada dois dias. E ouvi dizer que a situação em Murandy é ainda pior, cheia como está de Devotos do Dragão, bandidos e os refugiados de Cairhien, apavorados achando que o Dragão Renascido vai atrás deles a qualquer momento. Imagino que você não esteja pensando em fazer a travessia por Amadícia, e sim por Caemlyn. — A trança intrincada balançou de leve quando ela inclinou a cabeça e ergueu uma sobrancelha, com uma expressão interrogativa. — E Elayne concorda com você nessa questão do Uno?

— Vai concordar — resmungou Nynaeve.

— Entendi. Bem, quando tiver a palavra dela vou providenciar todos os cavalos de que precisarmos. Mas primeiro quero que ela me explique por que não levar Uno.

O tom inflexível deixou Nynaeve ardendo de raiva. Se pedisse a Elayne, mesmo que com toda a delicadeza, para explicar a Birgitte que Uno deveria ficar, podiam muito bem acabar encontrando o sujeito na estrada, à espera delas. E Birgitte ia parecer toda surpresa, sem entender como ele sabia que estavam partindo — e por qual caminho. A mulher podia até ser Guardiã de Elayne, mas Nynaeve às vezes se perguntava qual das duas estava no comando. Quando encontrasse Lan — quando, não se! —, ia fazer o homem jurar por tudo o que é mais sagrado que acataria suas decisões.

Respirou fundo algumas vezes, tentando se acalmar. Não fazia sentido discutir com uma parede. Era melhor ir direto ao assunto que a levara a procurar Birgitte.

Com a maior naturalidade possível, deu um passo mais para dentro da estreita viela, forçando a outra mulher a segui-la. O chão estava coberto de tocos e galhos marrons, restos dos arbustos que tinham sido removidos para abrir caminho. Examinou a multidão na rua, tentando manter um ar despreocupado. Ninguém prestava atenção nelas, mas baixou a voz mesmo assim.

— Precisamos descobrir que mensagem Tarna trouxe para o Salão e o que estão respondendo. Elayne e eu tentamos, mas as reuniões são protegidas por um selo, não dá para espionar a conversa. Mas só se a pessoa tentar ouvir alguma coisa com o Poder. Ficaram tão preocupadas com essa possibilidade que se esqueceram do velho método de encostar a orelha atrás da porta. Bastaria que alguém…

— Não — interrompeu Birgitte, em um tom indiferente.

— Pelo menos considere o pedido. É dez vezes mais provável que eu ou Elayne sejamos descobertas do que você.

Nynaeve até pensou em acrescentar que Elayne era bem esperta e conseguiria dar conta, mas a mulher bufou, interrompendo-a.

— Eu já disse que não! Você já demonstrou ser muitas coisas desde que a conheci, Nynaeve, mas nunca me pareceu tola. Luz, daqui a um ou dois dias vão anunciar as decisões para todo mundo.

— Temos que saber agora — insistiu Nynaeve, sussurrando e engolindo em seco. — Ah, sua tonta com cérebro de homem.

Tonta? Claro que nunca parecera tonta! Ah, não podia ficar irritada. Se conseguisse convencer Elayne a ir embora, talvez não estivessem mais em Salidar dali a um ou dois dias. Melhor não abrir aquele saco de serpentes outra vez.

Com um arrepio — que Nynaeve achou um tanto exagerado, aliás —, Birgitte se apoiou no arco e voltou a falar:

— Uma vez me pegaram espionando as Aes Sedai. Me largaram três dias depois, e saí de Shaemal assim que consegui arrumar um cavalo. Não vou passar por isso de novo só para você ganhar um ou dois dias, ainda mais sem necessidade.

Nynaeve manteve a calma. Fez um esforço para conservar a expressão serena, para não ranger os dentes nem puxar a trança. Estava calma.

— Nunca ouvi história nenhuma sobre você espionando as Aes Sedai.

Ela se arrependeu das palavras assim que saíram de sua boca. Aquele era o cerne do segredo de Birgitte: ela era a Birgitte das histórias. Não deveriam jamais mencionar nada que pudesse levar alguém a pensar nisso.

A mulher permaneceu impassível por um instante, encobrindo tudo o que poderia estar remoendo em seu interior. Aquilo foi o bastante para Nynaeve estremecer: aquele era um segredo permeado de muita dor. Seu rosto de pedra por fim voltou a ser de carne, e Birgitte suspirou.

— O tempo transforma as coisas. Eu mesma mal reconheço metade dessas histórias, e a outra metade ainda menos. Não vamos mais falar disso. — Ficou bem óbvio que não era uma sugestão.