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Theodrin Curou o machucado antes de a aula acabar, que era até onde iam suas habilidades naquele Dom. Logo depois, Nynaeve retribuiu a Cura. O olho de Theodrin assumira um tom de roxo brilhante, e odiava não poder deixá-lo de lembrança para que a mulher tivesse um pouco mais de cuidado ao planejar as aulas seguintes. Mas a retribuição era apenas justa, e os arquejos e arrepios de Theodrin quando os fluxos de Espírito, Ar e Água percorreram seu corpo foram como uma retribuição pelos arquejos da própria Nynaeve, quando aquele balde foi jogado em cima dela. Claro que também estremecera na hora de ser Curada, mas não se podia ter tudo.

Lá fora, o sol já estava a meio caminho do horizonte a oeste. Na rua, uma onda de mesuras e reverências percorreu a multidão, que abria caminho para Tarna Feir. A representante da Torre ia deslizando com a elegância de uma rainha ao caminhar por um chiqueiro, o xale de franjas vermelhas enrolado nos braços, tão chamativo quanto um estandarte. Mesmo a cinquenta passadas de distância, a atitude era clara na maneira como mantinha a cabeça erguida e levantava as saias para não sujá-las de terra, ignorando até os que a cumprimentavam com mesuras quando ela passava. Houvera muito menos reverências e bem mais alvoroço e insultos no primeiro dia, mas uma Aes Sedai era uma Aes Sedai — ao menos para as irmãs em Salidar, que reforçaram essa lição com duras punições: duas Aceitas, cinco noviças e quase dez serviçais, homens e mulheres, passavam as horas de folga arrastando lixo da cozinha e dejetos de penico até as florestas, para serem enterrados.

Enquanto Nynaeve tentava escapulir antes que Tarna pudesse vê-la, seu estômago roncou tão alto que rendeu um olhar assustado de um sujeito carregando um cesto de nabos nas costas. Tinha perdido o café da manhã com as tentativas de Elayne de romper o selo de proteção e o almoço com os exercícios de Theodrin — e as aulas daquele dia ainda não tinham acabado: recebera instruções de Theodrin para que não dormisse à noite. O choque falhara, mas talvez a exaustão funcionasse. Qualquer bloqueio pode ser quebrado, dissera Theodrin, em um tom confiante e implacável, e eu vou quebrar o seu. Só precisa acontecer uma vez. Uma vez canalizando sem raiva, e saidar será sua.

Naquele momento, Nynaeve só queria comida. Os ajudantes já estavam quase terminando a limpeza das cozinhas, claro, mas o aroma de cozido de carneiro e porco assado aguçou seu nariz — ainda assim, Nynaeve teve que se contentar com duas maçãs horrorosas, um pedaço de queijo de cabra e um naco de pão. O dia não estava melhorando.

De volta ao quarto, encontrou Elayne esparramada na cama. A Filha-herdeira olhou-a sem nem erguer a cabeça, então voltou a encarar o teto rachado.

— Meu dia foi péssimo, Nynaeve — comentou, com um suspiro. — Escaralde insiste em aprender a fazer um ter’angreal, sendo que não tem força para isso. E Varilin fez alguma coisa… não sei o quê… e a pedra em que ela estava trabalhando virou uma bola de… bem, não era exatamente fogo… e bem nas mãos dela! Acho que teria morrido se Dagdara não estivesse conosco… Ninguém mais ali conseguiria Curá-la, e acho que não teria dado tempo de buscar outra pessoa. Daí fiquei pensando em Marigan… Mesmo que a gente não consiga aprender a detectar um homem canalizando, talvez dê para detectar o que ele já fez… Acho que me lembro de Moiraine insinuando que era possível. Acho que me lembro… de todo modo, eu estava distraída pensando nela quando alguém encostou no meu ombro, aí eu dei um berro, como se tivesse levado uma picada de agulha. Era só o coitado de um carroceiro querendo me perguntar sobre algum boato idiota, mas assustei tanto o homem que ele quase saiu correndo.

Ela enfim fez uma pausa para tomar fôlego, e Nynaeve abandonou a ideia de atirar o resto da última maçã em sua cabeça e aproveitou o silêncio para perguntar:

— Cadê a Marigan?

— Ela demorou bastante na arrumação, mas como já tinha terminado, eu a mandei voltar para o quarto. E ainda estou usando o bracelete. Está vendo? — Ela sacudiu o braço, depois o largou de volta no colchão, mas a torrente de palavras não desacelerou. — Ela não parava de choramingar daquele jeito horroroso sobre como deveríamos fugir para Caemlyn, e eu simplesmente não conseguia aguentar nem mais um minuto, não depois do dia que tive. A aula com as noviças foi um desastre. Sabe a Keatlin, aquela mulher terrível, a nariguda? Ela não parava de resmungar que se estivesse em casa não deixaria uma garota dar as ordens. Daí Faolain chegou batendo o pé, exigindo saber por que Nicola estava na aula. Como é que eu ia saber que Nicola devia estar cuidando de umas tarefas para ela? Depois Ibrella decidiu tentar fazer a maior chama que poderia e quase tocou fogo na sala inteira, e Faolain me passou um sermão na frente de todo mundo por não conseguir controlar a turma. E Nicola disse que ela

Nynaeve desistiu de tentar encontrar uma brecha para falar — talvez devesse ter atirado a maçã —, então simplesmente gritou:

— Eu concordo com a Moghedien!

O nome calou a boca de Elayne, que se sentou na cama, surpresa. Mesmo sabendo que estava dentro do quarto, Nynaeve não pôde deixar de olhar em volta para conferir se alguém a ouvira.

— Mas que tolice, Nynaeve.

Não dava para saber se a Filha-herdeira se referia à sua opinião ou a ela ter falado o nome da Abandonada em voz alta, e Nynaeve não pretendia perguntar. Ela se sentou na própria cama, de frente para Elayne, e ajeitou as saias.

— Não, não é. Qualquer dia desses, Jaril e Seve vão acabar contando que Marigan não é mãe deles, isso se já não tiverem contado. Você está preparada para responder às perguntas que virão depois? Eu, não. Qualquer dia desses, alguma Aes Sedai vai querer entender como é que eu consigo descobrir tanta coisa sem passar raiva do dia até a noite. A cada duas Aes Sedai com quem falo, uma menciona o assunto. E Dagdara anda me olhando de um jeito estranho. Além do mais, elas só vão ficar aqui, sentadas, mais nada. A não ser que decidam voltar para a Torre. Entrei escondida lá e escutei Tarna conversando com Sheriam…

— Você o quê?

— Eu entrei escondida e fiquei ouvindo — respondeu Nynaeve, muito calma. — A mensagem que mandaram para Elaida é de que precisam de mais tempo para considerar a proposta. O que, no mínimo, quer dizer que estão considerando esquecer essa história da Ajah Vermelha com Logain. Não sei como teriam coragem de deixar isso de lado, mas aposto que estão considerando. Se ficarmos por muito mais tempo aqui, podemos acabar entregues de presente a Elaida. Se formos agora, pelo menos poderemos dizer a Rand para ele não contar com o apoio de nenhuma Aes Sedai. Dizer para ele não confiar em nenhuma Aes Sedai.

Franzindo o cenho com toda a elegância, Elayne se sentou de pernas cruzadas.

— Se ainda estão considerando a proposta, então não se decidiram. Acho melhor ficarmos. Talvez a gente possa ajudá-las a tomar a decisão certa. Além do mais, você nunca vai conseguir romper esse seu bloqueio se formos embora. A não ser que pretenda convencer Theodrin a ir junto.

Nynaeve ignorou o comentário. Como se Theodrin tivesse feito muita diferença. Baldes de água. Nada de dormir à noite. O que viria depois? A mulher praticamente dissera que ia tentar o possível e o impossível até descobrir algo que funcionasse. Nynaeve achava que havia coisa demais entre o possível e o impossível.

— Ajudá-las a decidir? Elas não vão nos dar ouvidos. Até mesmo Siuan mal nos dá ouvidos. E isso porque ela tem o rabo preso com a gente, e nós com ela.