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— Ainda acho melhor ficarmos aqui. Pelo menos até o Salão decidir alguma coisa. Então, se o pior acontecer, pelo menos teremos fatos para contar a Rand, e não suposições.

— E como é que vamos descobrir o que elas decidirem? Não dá para esperar que eu vá encontrar duas vezes a janela certa para espiar. Se esperarmos algum anúncio, pode ser que já tenham começado a nos vigiar. Ou a mim, pelo menos. Não tem uma só Aes Sedai que não saiba que eu e Rand somos de Campo de Emond.

— Siuan vai nos contar antes de qualquer anúncio — retrucou a garota tola, com toda a calma. — Você não acha que ela e Leane vão voltar mansinhas para Elaida, acha?

Havia esse detalhe. Elaida ia mandar arrancar a cabeça de Siuan e de Leane antes que elas pudessem sequer fazer uma mesura.

— Mas isso ainda não leva em conta o problema de Jaril e Seve — insistiu Nynaeve.

— Vamos pensar em alguma coisa. Não é como se fossem as primeiras crianças refugiadas cuidadas por alguém que não é parente. — Elayne decerto estava achando que o sorriso de covinhas que deu era reconfortante. — Só precisamos nos concentrar em arranjar uma solução. E temos no mínimo que esperar Thom voltar de Amadícia. Não posso deixá-lo para trás.

Nynaeve jogou as mãos para cima, frustrada. Se a aparência das pessoas refletisse a personalidade, Elayne seria uma mula esculpida em pedra. A garota tinha tomado Thom Merrilin como substituto do pai, que morrera quando ela ainda era pequena. E às vezes parecia pensar que o homem não conseguiria nem encontrar o caminho até a mesa de jantar se ela não o tomasse pela mão.

O único aviso foi a sensação de alguém abraçando saidar ali perto, então um fluxo de Ar fez a porta se abrir, e Tarna Feir adentrou o quarto. Nynaeve e Elayne se levantaram de um salto. Uma Aes Sedai era uma Aes Sedai, e em alguns casos bastara a palavra de Tarna para que a pessoa se juntasse aos demais ofensores enterrando lixo nas horas vagas.

A loura encarou as duas Aceitas com uma expressão arrogante no rosto que parecia feito de mármore branco.

— Pois bem. A Rainha de Andor e a bravia incapaz.

— Ainda não sou rainha, Aes Sedai — respondeu Elayne, com uma polidez fria. — Só quando for coroada no Grande Salão. E só se minha mãe estiver morta.

Tarna abriu um sorriso mais gélido do que uma tempestade de neve.

— É claro. Tentaram manter sua presença aqui em segredo, mas sempre há boatos e sussurros. — Ela olhou as camas estreitas e o banquinho bambo, as roupas penduradas nos grampos presos às paredes de gesso rachado. — Imaginei que teriam alojamento melhor, considerando todos os milagres por que são responsáveis. Se estivessem na Torre, onde é o seu lugar, não seria surpresa se as duas já estivessem prestes a ser testadas para o xale.

— Obrigada — respondeu Nynaeve, querendo mostrar que podia ser tão educada quanto Elayne. Tarna a encarou. Aqueles olhos azuis quase faziam sua expressão parecer calorosa. Então acrescentou, mais do que depressa: — Aes Sedai.

Tarna virou-se de volta para Elayne.

— Você tem um lugar especial no coração da Amyrlin, assim como Andor. Você não conseguiria nem acreditar na enormidade de recursos empregados nas buscas pelo seu paradeiro. Sei que ela ficaria muito feliz se você retornasse comigo a Tar Valon.

— Meu lugar é aqui, Aes Sedai. — A voz de Elayne ainda era agradável, mas a jovem mantinha o queixo erguido, em uma postura tão arrogante que competia com a de Tarna. — Retornarei à Torre junto com as outras irmãs.

— Entendo — respondeu a Vermelha, impassível. — Muito bem. Agora nos dê licença. Quero conversar a sós com a bravia.

Nynaeve e Elayne se entreolharam, mas não havia nada que a Filha-herdeira pudesse fazer além de se curvar em uma mesura e se retirar.

Quando a porta se fechou, a mudança na postura de Tarna foi surpreendente. A mulher se sentou na cama de Elayne e pôs as pernas para cima, cruzou os pés, recostou-se contra a cabeceira lascada e cruzou as mãos sobre a barriga. Seu rosto relaxou, e ela até sorriu.

— Você parece tensa. Não fique. Eu não mordo.

Nynaeve teria acreditado mais se os olhos da Aes Sedai também tivessem mudado junto com a postura. O sorriso não chegava aos olhos — pelo contrário, os olhos pareciam dez vezes mais duros, cem vezes mais gélidos, por causa do contraste. Nynaeve sentiu calafrios.

— Eu não estou tensa — retrucou, rígida, plantando os pés no chão para não os remexer.

— Ah. Então está ofendida? Por quê? Foi porque a chamei de “bravia”? Eu também sou bravia, sabe. Foi a própria Galina Casban que desfez meu bloqueio, com uma boa surra. Ela já sabia qual seria a minha Ajah muito antes que eu mesma soubesse e manifestou seu interesse por mim. Galina sempre faz isso com as que ela acredita que escolherão a Ajah Vermelha. — Tarna balançou a cabeça, rindo, os olhos ainda frios e cortantes. — Ah, as horas que passei gritando e chorando antes de conseguir encontrar saidar sem estar com os olhos bem fechados… não dá para urdir tramas sem enxergar os fluxos. Fiquei sabendo que Theodrin está usando métodos mais delicados com você.

Nynaeve remexeu os pés involuntariamente. Theodrin não tentaria uma coisa dessas! Tinha certeza disso. Retesar os joelhos não diminuía as reviravoltas em seu estômago. Então não deveria se sentir ofendida? Era para ignorar o “incapaz” também?

— Sobre o que queria falar comigo, Aes Sedai?

— A Amyrlin quer ver Elayne em segurança, mas, sob muitos aspectos, você é igualmente importante. Talvez até mais. O que você guarda na cabeça sobre Rand al’Thor pode ser inestimável. Isso e o que tem na cabeça de Egwene al’Vere. Sabe onde ela está?

Nynaeve queria secar o suor da testa, mas manteve as mãos firmes ao lado do corpo.

— Faz muito tempo que não vejo Egwene, Aes Sedai. — Fazia meses desde o último encontro das duas, em Tel’aran’rhiod. — Se me permite a pergunta, quais são as intenções da… — Ninguém ali em Salidar chamava Elaida de Amyrlin, mas ela supostamente devia respeito àquela Vermelha à sua frente. — … da Amyrlin em relação a Rand?

— Intenções, criança? Ele é o Dragão Renascido. A Amyrlin sabe disso e pretende dar a ele todas as honras merecidas. — A voz de Tarna ganhou um toque de intensidade. — Pense, criança. Este grupo daqui vai voltar assim que as irmãs perceberem as consequências de seus atos, mas cada dia que se passa pode fazer a diferença. Já faz três mil anos que a Torre Branca orienta os governantes — sem as Aes Sedai, teria havido mais guerras, e muito mais sangrentas. O mundo corre o risco de cair em desgraça se al’Thor não receber essa orientação. Só que, assim como não dá para urdir a trama sem ver os fluxos, não se pode orientar um completo desconhecido. O melhor para al’Thor seria que você voltasse comigo e repassasse tudo o que sabe sobre ele à Amyrlin. E que voltasse logo agora, não daqui a semanas ou meses. Isso também seria o melhor para você. Não dá para ser elevada a Aes Sedai aqui: o Bastão dos Juramentos está na Torre. A testagem só pode ser feita em Tar Valon.

O suor escorria, fazendo arder os olhos de Nynaeve, mas ela se recusava a piscar. Aquela mulher achava que podia suborná-la?

— A verdade é que nunca passei muito tempo com ele. Eu morava na aldeia, sabe, e ele morava numa fazenda mais afastada na Floresta do Oeste. Só me lembro de um garoto que se recusava a ouvir a voz da razão. Ele precisava ser obrigado a cumprir com suas obrigações, às vezes até arrastado. Isso quando garoto, é claro. Ele pode muito bem ter mudado. Claro que quase todos os homens não passam de garotos crescidos, mas ele pode ter mudado.

Tarna apenas a encarou por um longo instante — longo demais, sob aquela mirada gélida.

— Bom — disse a Vermelha, enfim, e levantou-se tão depressa que Nynaeve quase deu um passo para trás, mas não havia para onde recuar naquele quartinho minúsculo. O sorriso inquietante permanecia. — Foi um grupo estranho o que se reuniu aqui. Não vi nenhuma das duas, mas ouvi dizer que Siuan Sanche e Leane Sharif estão abrilhantando a cidade com sua presença. Não é o tipo de gente a quem uma mulher sábia gostaria de se associar. E talvez os outros também não sejam. Seria muito melhor para você se viesse comigo. Partirei pela manhã. Quero que me avise ainda hoje à noite se devo ou não esperar por você na estrada.