— Receio que não…
— Pense a respeito, criança. Essa pode ser a decisão mais importante da sua vida. Pense bem. — A máscara de cordialidade esvaneceu, e Tarna saiu do quarto.
Os joelhos de Nynaeve cederam, e ela despencou na cama. A mulher despertara tantas emoções que ela não fazia ideia de como lidar com tudo aquilo. Sentia a raiva e a inquietude se revolvendo dentro de si em um frenesi. Queria que a Vermelha tivesse algum meio de se comunicar com as Aes Sedai da Torre que estavam atrás de Rand. Ah, queria ser uma mosquinha para ouvir quando tentassem usar o que ela dissera a respeito dele. Aquelas mulheres tentavam suborná-la. Tentavam deixá-la com medo — e tinham sucesso, precisava admitir. Tarna tinha tanta certeza de que as Aes Sedai ali acabariam se ajoelhando aos pés de Elaida… A Vermelha decidira que a rendição era inevitável, era apenas uma questão de tempo. E será que a parte final havia sido uma alusão a Logain? Nynaeve suspeitava de que Tarna soubesse mais de Salidar do que o Salão ou Sheriam imaginavam. Talvez Elaida realmente tivesse defensoras ali na cidade.
Ficou esperando Elayne voltar, mas, depois de quase meia hora sem nem sinal da Filha-herdeira, saiu atrás da garota. A princípio apenas andou pelas ruas de terra batida, depois apertou o passo, parando aqui e ali para espiar a multidão de cabeças de cima de um carroção, escalando um barril virado para baixo ou uma plataforma de pedra. O sol já estava bem baixo, quase na linha das árvores, quando ela voltou para o quarto, resmungando sozinha. E deu de cara com Elayne, que também acabava de chegar.
— Onde você se meteu? Achei que Tarna tinha lhe amarrado em algum canto!
— Estava pegando isto aqui com Siuan.
Elayne abriu a mão. Na palma havia dois dos anéis de pedra retorcidos.
— Algum deles é o verdadeiro? Foi uma boa ir atrás deles, mas você deveria ter tentado pegar o verdadeiro.
— Nada me fez mudar de opinião, Nynaeve. Ainda acho melhor ficarmos.
— Mas Tarna…
— Só aumentou minhas certezas. Se formos embora, Sheriam e o Salão definitivamente vão escolher a Torre em vez de Rand. Sei disso. — Ela pôs as mãos nos ombros de Nynaeve, que se deixou conduzir até sentar-se na cama. Elayne ocupou a cama em frente e se inclinou para mais perto, enfatizando o que dizia: — Você se lembra do que me disse sobre usar a necessidade como guia para encontrar alguma coisa em Tel’aran’rhiod? A gente precisa é de um jeito de convencer o Salão a não ir até Elaida.
— Como? Que jeito? Se a história de Logain não basta…
— A gente vai saber quando encontrar — respondeu Elayne, com firmeza.
Nynaeve, absorta, passou os dedos pela trança grossa.
— E você vai aceitar ir embora se não encontrarmos nada? Não gosto da ideia de ficar aqui, sentada, até elas decidirem começar a nos vigiar.
— Vou aceitar ir embora, mas só se você concordar em ficar se encontrarmos alguma coisa útil. Nynaeve, por mais que eu queira vê-lo, somos mais úteis aqui.
Nynaeve hesitou, então concordou com um murmúrio. Parecia um acordo seguro. Como não tinham ideia do que procurar, ela achava que não havia a menor chance de encontrarem qualquer coisa de útil.
Se o dia já estava passando devagar antes daquilo, agora parecia se arrastar. As duas foram para a fila de uma das cozinhas pegar os pratos de presunto fatiado, nabos e ervilhas. O sol parecia parado havia horas bem no topo das árvores. Quase todos em Salidar se deitavam logo após o pôr do sol, mas sempre restavam umas poucas luzes saindo das janelas, sobretudo na Pequena Torre, onde o Salão oferecia jantares para Tarna. Uma melodia de harpas volta e meia escapava da antiga estalagem — as Aes Sedai tinham encontrado um harpista razoável entre os soldados, então mandaram o sujeito fazer a barba e se enfiar nas roupas chamativas dos músicos. As pessoas na rua circulavam a passos rápidos diante da estalagem, apenas olhando de soslaio para o interior ou fazendo tanto esforço para ignorar a movimentação lá dentro que chegavam a tremer com a tensão. Gareth Bryne, como sempre, era a exceção. Ele fez sua refeição sentado em um caixote de madeira no meio da rua, em um ponto em que seria visto por qualquer um do Salão que olhasse pela janela. Devagar, muito devagar, o sol foi deslizando por entre as árvores. A escuridão chegou de repente, sem o anúncio do crepúsculo, e as ruas logo ficaram desertas. A melodia do harpista voltou a escapar da estalagem. Gareth Bryne permaneceu sentado no caixote, na beira da luz que saía de uma das janelas do Salão em festa. Nynaeve balançou a cabeça — não sabia se o achava fantástico ou idiota. Um pouco de cada, talvez.
Só depois de estar na cama com o ter’angreal de pedra rajada preso ao cordão em seu pescoço, junto ao pesado anel de ouro de Lan, com a vela apagada, que ela se lembrou das instruções de Theodrin. Bem, tarde demais para aquilo. E, de todo modo, a domanesa não teria como saber se Nynaeve tinha ou não dormido. E onde estava Lan?
A respiração de Elayne foi ficando mais lenta. Nynaeve abraçou o travesseirinho com um breve suspiro, e…
… se viu ao pé da cama vazia, encarando uma Elayne enevoada sob a tênue luz da noite em Tel’aran’rhiod. Ninguém as via ali. Talvez Sheriam ou alguma Aes Sedai de seu círculo estivesse por perto, ou quem sabe Siuan ou Leane. Claro que ela e Elayne tinham o direito de visitar o Mundo dos Sonhos, mas não queriam ter que responder a perguntas sobre o que pretendiam fazer naquela noite. Elayne parecia ver aquilo como uma caçada — conscientemente ou não, se vestira como Birgitte: casaco verde e calças brancas. A jovem piscou para o arco de prata em suas mãos, e ele desapareceu junto com a aljava.
Nynaeve olhou para as próprias vestimentas e suspirou. Um vestido de baile de seda azul com flores douradas bordadas no decote baixo e em linhas trançadas ao longo da saia volumosa. Sentia que calçava sapatilhas de festa de veludo. Não importava muito o que a pessoa vestia em Tel’aran’rhiod, mas o que dera nela para sua mente escolher aquelas roupas?
— Você sabe que isso pode não dar certo, não sabe? — perguntou, mudando as roupas para o vestido de lã simples e os sapatos grossos típicos de Dois Rios. Elayne não tinha o direito de sorrir daquele jeito. Um arco de prata. Rá! — Precisamos ter pelo menos alguma ideia do que estamos procurando, precisamos de pelo menos uma leve noção do que queremos.
— Vai ter que dar certo, Nynaeve. Pelo que você disse, as Sábias ensinaram que quanto mais forte a necessidade, melhor, e precisamos mesmo encontrar alguma coisa, ou a ajuda que prometemos a Rand vai por água abaixo. Vai sobrar só o que Elaida estiver disposta a oferecer. Eu não vou permitir que isso aconteça, Nynaeve. Não vou.
— Abaixe esse nariz empinado. Eu também não vou permitir uma coisa dessas se puder fazer algo a respeito. É melhor a gente andar logo com isso.
Nynaeve deu a mão a Elayne e fechou os olhos. Concentrou-se na necessidade de algo que ajudasse. Esperava que uma parte de si tivesse alguma ideia do que seria isso. Talvez nada acontecesse. Algo que ajudasse. De repente, tudo pareceu derreter à sua volta, e ela sentiu Tel’aran’rhiod inclinar e arremeter.
Abriu os olhos de supetão. Inevitavelmente, cada passo baseado em sua necessidade era dado às cegas e, embora a aproximassem de seu objetivo, qualquer um desses passos poderia jogá-la em um poço de serpentes ou deixá-la cara a cara com um leão em plena caça, pronto para lhe arrancar a perna.