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As duas se entreolharam. Parecia improvável encontrar um ter’angreal ali, mas já tinham ido longe demais para parar. Tinham que ir atrás do que precisavam.

Tudo mudou.

Nynaeve espirrou antes de conseguir abrir os olhos, então espirrou outra vez assim que os abriu. Cada vez que mexia os pés, subia uma nuvem de poeira. O depósito não era nada parecido com o da Torre. Um pequeno aposento lotado de baús, barris e engradados, empilhados de todas as maneiras possíveis, quase sem deixar espaço entre si, e tudo sob uma grossa camada de poeira. Nynaeve deu um espirro tão forte que achou que seus sapatos iam sair dos pés… e a poeira desapareceu. Toda. Elayne abriu um sorrisinho presunçoso. Nynaeve não disse uma palavra, apenas visualizou o recinto na cabeça, mas sem poeira. Devia ter pensado nisso.

Ela encarou o amontoado de tralhas e soltou um suspiro. O lugar não era maior que o quartinho onde seus corpos dormiam, em Salidar, mas vasculhar aquilo tudo…

— Vai levar semanas.

— Podemos tentar mais uma vez. Talvez isso nos mostre as coisas que precisamos examinar. — Elayne soava tão descrente quanto Nynaeve se sentia, mas era uma boa sugestão.

Nynaeve fechou os olhos, e mais uma vez… tudo mudou.

Quando ela abriu os olhos de novo, estava parada no fim da fileira de tralhas mais afastada da porta, encarando um alto baú quadrado de madeira que ia até sua cintura. As alças estavam enferrujadas, e o próprio baú parecia ter passado os últimos vinte anos sob golpes de martelos. Nynaeve não conseguia imaginar um local mais improvável para armazenar qualquer coisa de útil, ainda mais um ter’angreal. Mas viu Elayne ali, parada bem a seu lado, encarando o mesmo baú.

Nynaeve pôs a mão na tampa — aquelas dobradiças iam abrir sem que ela precisasse forçá-las — e a empurrou para cima. Não houve sequer um rangido. Lá dentro, duas espadas extremamente enferrujadas e uma placa peitoral com um buraco no meio e no mesmo tom amarronzado jaziam sobre o restante do conteúdo: um emaranhado de pacotes embrulhados em tecidos que pareciam ter sido reaproveitados a partir de roupas velhas e dos resquícios de alguma cozinha.

Elayne remexeu em um pequeno caldeirão com a alça quebrada.

— Não sei se levaríamos semanas, mas pelo menos o resto da noite.

— Quer tentar outra vez? — sugeriu Nynaeve. — Mal é que não faria.

Elayne deu de ombros. Olhos fechados. O que precisavam.

Nynaeve estendeu a mão e tocou um objeto redondo e rígido, enrolado em trapos podres. Quando abriu os olhos, viu a mão de Elayne próxima à sua. A Filha-herdeira sorria de orelha a orelha.

Não foi fácil tirar o embrulho do baú. Não era pequeno, e tiveram que revirar casacos esfarrapados, panelas amassadas e embrulhos que se desintegravam revelando estatuetas, animais entalhados e todo tipo de bobagem. Quando enfim desenterraram o embrulho, tiveram que erguê-lo juntas. Era um disco largo e achatado envolto em tecido velho. Quando afastaram os trapos que o cobriam, o objeto revelou-se uma tigela rasa de cristal espesso com mais de dois pés de diâmetro, o interior coberto de entalhes profundos que pareciam nuvens formando redemoinhos.

— Nynaeve — começou Elayne, hesitante —, acho que isso aqui é…

Nynaeve levou um susto e quase largou a tigela, que de repente assumiu um tom azul bem claro, e as nuvens entalhadas começaram a se mover devagar. Uma fração de segundo depois, o cristal estava transparente outra vez, e as nuvens entalhadas, paradas. Mas Nynaeve tinha certeza de que não eram as mesmas nuvens de antes.

— É, sim! — exclamou Elayne. — É um ter’angreal. E aposto o que você quiser que tem alguma relação com o clima. Mas não sou forte o suficiente para usá-lo sozinha.

Engolindo em seco, Nynaeve tentou fazer o coração parar de palpitar.

— Pare com isso! Você ainda não entendeu que pode acabar se estancando se mexer com um ter’angreal sem saber o que ele faz?

A tola teve a ousadia de parecer surpresa.

— Mas é isso o que viemos procurar, Nynaeve. Você acha que existe alguém que saiba mais sobre os ter’angreal do que eu?

Nynaeve fungou. Não era só porque Elayne estava certa que não merecera a advertência.

— Não estou dizendo que não seria maravilhoso se isso fizer alguma coisa com o clima, porque é. Só não vejo como isso pode ser o que a gente precisa. Esse negócio não vai fazer o Salão mudar de opinião em relação a Rand.

— O que você precisa nem sempre é o que você quer — respondeu Elayne. — Era o que Lini costumava dizer quando me proibia de cavalgar ou de subir em árvores, mas talvez também se aplique aqui.

Nynaeve fungou com desdém outra vez. Talvez até se aplicasse, mas naquele momento ela queria ter o que queria. Era pedir demais?

A tigela sumiu de suas mãos, e foi a vez de Elayne levar um susto, resmungando sobre nunca se acostumar com aquilo. O baú também se fechou.

— Nynaeve, quando eu canalizei dentro da tigela, senti… Olha, esse não é o único ter’angreal aqui. Acho que também tem algum angreal, talvez até um sa’angreal.

— Aqui? — perguntou Nynaeve, incrédula, encarando o quartinho atulhado. Mas, se havia um, por que não dois? Ou dez? Ou cem? — Luz, não canalize de novo! E se você sem querer fizer algum deles se manifestar? Você poderia acabar estanca…

— Eu sei o que estou fazendo, Nynaeve. De verdade, sei mesmo. Agora, o que nós temos que fazer é descobrir exatamente onde fica este quarto.

O que não foi tarefa fácil. Embora as dobradiças parecessem massas de ferrugem maciça, a porta não era um obstáculo — não em Tel’aran’rhiod. Os problemas vieram logo depois. O corredor estreito e escuro lá fora possuía apenas uma janela, na outra extremidade. Através dela, não se via nada além da parede branca caiada descascada do outro lado da rua. E também não adiantou descer os estreitos lances de escada de pedra. A rua lá fora poderia ter sido a primeira que tinham visto naquela área da cidade, fosse lá onde fosse — as construções eram todas tão parecidas que não serviam para se localizarem. As pequeninas lojinhas ao longo da rua não tinham placas, e só o que indicava as estalagens eram as portas pintadas de azul — o vermelho parecia indicar as tavernas.

Nynaeve avançou à procura de algum marco, qualquer coisa que pudesse indicar sua localização. Algo que informasse qual era aquela cidade. Cada rua onde entrava era igual à anterior, mas ela não demorou a encontrar uma ponte que, ao contrário das outras, era de pedra lisa e não tinha estátuas. Subindo até o centro da plataforma arqueada, viu apenas o canal, que nos dois sentidos se encontrava com outros, além de mais pontes e mais construções de massa branca flocada.

De súbito, ela percebeu que estava sozinha.

— Elayne — chamou.

Silêncio, exceto pelo eco de sua própria voz.

— Elayne? Elayne!

A loura apareceu de volta em um canto, perto da base da ponte.

— Aí está você! — exclamou a jovem. — Nossa, este lugar faz uma toca de coelho parecer bem planejada. Desviei os olhos por um segundo, e você sumiu. Encontrou alguma coisa?

— Nada. — Nynaeve olhou outra vez para o canal, antes de se juntar à amiga. — Nada útil.

— Pelo menos dá para ter certeza de onde estamos. Ebou Dar. Só pode ser. — O casaco curto e as calças largas de Elayne se transformaram em um vestido de seda verde com renda saindo pelas mangas, gola alta com bordados elaborados e um decote estreito, porém bastante profundo e revelador. — Não consigo pensar em nenhuma outra cidade com tantos canais além de Illian, e isso aqui com certeza não é Illian.