Выбрать главу

Naquele momento, Egwene não teria se importado se todos os Aiel de Cairhien passassem a usar o robe branco dos gai’shain. Se as Sábias sequer suspeitassem do que ela andara aprontando… Preferiria examinar centenas de montes de areia, e faria isso de boa vontade, já que achava que não teria tanta sorte. Sua punição seria bem mais severa. Certa vez, Amys dissera que o Mundo dos Sonhos era extremamente perigoso e, se ela não fizesse exatamente o que mandassem, não a ensinaria mais. As outras com certeza concordariam. E aquela era a punição que Egwene mais temia. Preferia encarar milhares de montes de areia sob o sol escaldante.

— Não precisa ficar tão nervosa — brincou Bair, rindo. — Amys não está com raiva de todos os aguacentos, e com certeza não está zangada com você, que é como uma filha das nossas tendas. É com aquela sua irmã Aes Sedai. Uma mulher chamada Carlinya insinuou que estaríamos prendendo você contra vontade.

— Insinuou? — Amys ergueu as sobrancelhas claras quase até a raiz dos cabelos. — A mulher afirmou com todas as letras!

— Mas ela aprendeu a controlar a língua — retrucou Bair, dando uma risada que a fez se balançar na almofada escarlate. — Ah, aposto que aprendeu. Quando saímos, a Aes Sedai ainda estava aos berros, tentando tirar os lagartos-escarlates do vestido. Para os olhos fracos de uma aguacenta, um lagarto-escarlate é igualzinho a uma víbora-vermelha, mas eles não são venenosos. Só que não param de se contorcer quando ficam confinados.

Amys fungou.

— E os lagartos-escarlates teriam sumido se ela os visualizasse sumindo. Aquela mulher não aprende nada. Os Aes Sedai a quem servimos na Era das Lendas não deviam ser tão tolos. — Apesar das palavras duras, ela parecia mais calma.

Melaine gargalhava com vontade, e Egwene também acabou soltando uma risadinha. Havia aspectos inexplicáveis no humor Aiel, mas não tinha dificuldade em ver a graça naquela situação. Só encontrara Carlinya três vezes, mas só de imaginar aquela mulher presunçosa, sisuda e fria se sacudindo sem parar enquanto tentava arrancar cobras de dentro do vestido… Egwene mal conseguia conter uma gargalhada.

— Pelo menos seu humor anda bem — comentou Melaine. — As dores de cabeça voltaram?

— Minha cabeça está bem — mentiu Egwene, e Bair aquiesceu.

— Ótimo. Aquela dor persistente nos deixou preocupadas. Basta você continuar sem entrar em sonhos por mais um tempo que elas não devem voltar. Não precisa ficar com medo de qualquer efeito negativo depois de ter entrado nos sonhos. A dor é só uma forma de o corpo nos mandar descansar.

Aquilo quase fez Egwene rir de novo, mas não por ter achado graça. Os Aiel muitas vezes ignoravam ferimentos graves e ossos quebrados só porque achavam que tinham mais o que fazer.

— Por mais quanto tempo vou precisar esperar? — indagou. Detestava mentir para as Sábias, mas ficar sem fazer nada era ainda pior. Já tinha sido bem ruim durante os primeiros dez dias depois de Lanfear a acertar com aquilo, fosse o que fosse. Naqueles primeiros dias ela não conseguia nem pensar sem sentir que a cabeça ia explodir. Assim que melhorou, a “coceira do tédio”, como sua mãe chamava, a fizera ir a Tel’aran’rhiod escondida das Sábias. Ninguém aprendia descansando, afinal. — Então é para eu ir na próxima reunião?

— Talvez — respondeu Melaine, dando de ombros. — Veremos. Mas você precisa comer. Se estiver sem apetite é porque tem alguma coisa errada que não sabemos.

— Ah, eu consigo comer. — Inclusive, o mingau cozinhando lá fora cheirava bem. — Acho que só estava com preguiça. — Foi complicado se levantar sem vacilar; a cabeça ainda não queria ser movida. — Pensei em mais perguntas ontem à noite.

Melaine revirou os olhos, divertida.

— Desde que você se machucou, faz cinco perguntas para cada questionamento de antes.

Porque estava tentando decifrar as coisas sozinha. Mas claro que não podia dizer isso, então apenas pegou uma roupa de baixo limpa de um dos pequenos baús alinhados junto à parede da tenda e trocou-a pela camisola suada que estava usando.

— Perguntar é bom — interveio Bair. — Pergunte.

Egwene escolheu as palavras com cuidado, continuando a trocar a roupa com uma naturalidade medida, metendo-se na mesma blusa branca de algode e na saia volumosa de lã das Sábias.

— É possível alguém ser puxado para dentro de um sonho contra a vontade?

— Claro que não — respondeu Amys —, a não ser que tenha um toque muito desajeitado.

Mas, logo em seguida, Bair respondeu:

— A não ser que haja emoções muito fortes envolvidas. Se tentar ver o sonho de alguém que a ama ou odeia, você pode acabar sendo puxada para dentro. Ou se amar ou odiar a pessoa. É por isso, inclusive, que nem nos atrevemos a olhar os sonhos de Sevanna ou sequer falar com as Sábias Shaido em seus próprios sonhos.

Egwene achava muito surpreendente que aquelas mulheres — e todas as outras Sábias, na verdade — ainda se encontrassem e conversassem com as Sábias dos Shaido. Segundo os costumes, a união entre as Sábias estava acima de rixas e batalhas, mas Egwene achava que se opor ao Car’a’carn e jurar matá-lo deixava os Shaido muito além de um conflito comum.

— Sair do sonho de alguém que a odeia ou a ama é como tentar escalar para sair de um buraco bem fundo e de paredes lisas — concluiu Bair.

— Bem isso. — Amys pareceu recobrar o humor, olhando de soslaio para Melaine. — Por isso que nenhuma Andarilha dos Sonhos comete o erro de tentar ver os sonhos do marido. — Melaine parecia cada vez mais séria, os olhos fixos à frente. — Bem, pelo menos não comete esse erro duas vezes.

Bair abriu um sorriso enorme que aprofundou os vincos de seu rosto, tudo isso enquanto claramente evitava olhar para Melaine.

— Pode ser um tremendo choque, ainda mais se o marido estiver irritado com a esposa Andarilha. Como, em um exemplo que acabei de inventar, caso o marido tivesse que ficar longe da esposa por causa do ji’e’toh, e ela, revoltada feito uma criança tola, fosse boba o bastante para dizer que ele não iria se a amasse de verdade.

— Isso já está fugindo demais da pergunta — advertiu Melaine, com o rosto muito vermelho e a voz muito contida.

Bair riu.

Egwene conteve a curiosidade e o divertimento. Forçou a voz a soar ainda mais casuaclass="underline"

— Mas e se a pessoa não estiver tentando olhar?

Melaine olhou para ela, agradecida, e Egwene sentiu uma pontada de culpa. Claro que não o suficiente para deixar de tentar descobrir a história inteira mais tarde. Só podia ser hilária, para Melaine corar daquele jeito.

— Já ouvi um caso assim — comentou Bair. — Quando eu era jovem e estava começando a aprender, fui treinada por Mora, a Sábia do Forte Colrada. Ela dizia que, se o sentimento fosse muito intenso, como um amor ou um ódio imensos e que não deixassem espaço para mais nada, a Andarilha poderia ser puxada para dentro do sonho só de ficar sabendo que ele existia.

— Nunca ouvi falar de nada parecido — afirmou Melaine.

Amys apenas pareceu incerta.