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— Eu também nunca ouvi isso de ninguém, só de Mora — confirmou Bair. — Mas Mora era incrível. Diziam que tinha quase trezentos anos quando morreu com uma picada de cobra-sangue, mas parecia tão jovem quanto qualquer uma de vocês. Eu não passava de uma garota, mas me lembro bem de Mora. Ela entendia de muitas coisas, e não só era capaz de canalizar como era bem forte. Vinham Sábias de todos os clãs para aprender com ela. Acho que é muito raro haver um amor ou um ódio tão grandes, mas Mora dizia que já tinha acontecido duas vezes com ela. Uma com o primeiro homem com quem se casou, outra com um rival que disputava o interesse de seu terceiro marido.

— Trezentos?! — exclamou Egwene, parando de amarrar a bota macia que ia até os joelhos. Achava que nem Aes Sedai viviam tanto.

— Como falei, era o que se dizia — retrucou Bair, sorrindo. — Algumas mulheres envelhecem mais devagar, como Amys aqui. E, quando se trata de uma mulher como Mora, sempre surgem histórias. Um dia conto a história de como Mora moveu uma montanha. Quer dizer, é o que dizem.

— Um dia? — indagou Melaine, em um tom um tanto delicado demais. Dava para ver que ela ainda se ressentia do que acontecera no sonho de Bael, fosse o que fosse, e de todas as outras saberem do acontecido. — Já ouvi todas as histórias de Mora quando era criança. Acho até que sei todas de cor. No dia em que Egwene terminar de se vestir, temos que a fazer comer alguma coisa. — Um brilho em seus olhos verdes indicava que ela pretendia conferir que cada mordida fosse engolida. Suas suspeitas quanto à saúde de Egwene com certeza não tinham cessado. — E responder às outras perguntas.

Egwene, desesperada, se atrapalhou na formulação da pergunta seguinte. Em geral, sempre acordava com um monte de perguntas, mas, depois dos acontecimentos da noite anterior, acabara só com aquela dúvida. Se deixasse por aquilo mesmo, as Sábias poderiam começar a suspeitar se a indagação não surgira por ela ter ido escondida espionar algum sonho. Mais uma pergunta. E não sobre os próprios sonhos, tão estranhos. Um ou outro até poderiam ter algum significado, se ela conseguisse decifrá-lo. Anaiya afirmava que Egwene era uma Sonhadora, alguém capaz de predizer o curso de acontecimentos futuros, e aquelas três Sábias concordavam que podia ser o caso, mas diziam que Egwene deveria aprender que a interpretação dos sonhos vinha de dentro. Além disso, não sabia ao certo se queria discutir seus sonhos, não importava com quem. Aquelas mulheres já sabiam mais do que se passava em sua cabeça do que Egwene gostaria que soubessem.

— Ah… e as Andarilhas dos Sonhos que não são Sábias? Vocês por acaso encontram outras mulheres em Tel’aran’rhiod?

— Às vezes — respondeu Amys —, mas não é comum. Sem um guia com quem aprender, a mulher pode nunca sequer perceber que caminhar no Mundo dos Sonhos é mais do que ter sonhos vívidos.

— E, ignorante dos arredores, pode muito bem acabar morrendo, vítima do sonho, antes de aprender… — completou Bair.

Já mais segura por ter se afastado daquele assunto arriscado, Egwene relaxou. Conseguira mais respostas do que poderia esperar. Sabia que amava Gawyn — Então você sabia, é? sussurrou uma voz. E estava disposta a admitir? —, e os sonhos dele eram um claro indicativo de que esse amor era correspondido. Porém, pensando bem, se os homens eram capazes de dizer coisas que não sentiam quando acordados, era muito provável que pudessem sonhá-las. Bem, com as Sábias confirmando que ele a amava com tanta intensidade que passava por cima de tudo, Egwene…

Não. Pensaria nisso depois. Não fazia ideia de em que parte do mundo estava Gawyn. O importante era que sabia do perigo. Da próxima vez, conseguiria reconhecer e evitar os sonhos de Gawyn. Se é isso que você realmente quer, sussurrou aquela vozinha. Egwene torceu para que as Sábias encarassem suas bochechas coradas como um fulgor saudável. Queria poder interpretar o significado dos próprios sonhos. Isso se tivessem algum significado.

Aos bocejos, Elayne subiu em uma pedra para ver por cima das cabeças da multidão. Naquele dia, não havia soldados em Salidar, mas o povo enchia as ruas e assistia das janelas, entre sussurros ansiosos, esperando, os olhos fixos na Pequena Torre. Os únicos sons vinham do arrastar de pés ansioso que levantavam poeira e, volta e meia, faziam alguém tossir. Apesar do calor logo no início da manhã, as pessoas mal se moviam, a não ser para abanar algum leque ou chapéu a fim de se refrescar.

Leane estava parada entre duas casas de telhado de palha, nos braços de um homem alto e de rosto muito sério que Elayne nunca vira. E bem nos braços dele. Decerto era algum dos agentes da antiga Curadora das Crônicas. Era mais comum que os olhos-e-ouvidos das Aes Sedai fossem mulheres, mas os de Leane eram quase todos homens. Ela sempre os mantinha fora de vista, mas Elayne já notara alguns tapinhas em bochechas desconhecidas e sorrisos em direção a um par de olhos estranhos. Não fazia ideia de como Leane conseguia. Tinha certeza de que, se tentasse aqueles truques domaneses, o sujeito acabaria achando que ela prometera muito mais do que pretendia dar. Com Leane, os homens ganhavam um tapinha e um sorriso e iam embora tão felizes quanto se tivessem recebido um baú de ouro.

Em outro ponto da multidão, viu Birgitte, que, muito esperta, se mantivera afastada. Daquela vez, não viu aquela horrorosa da Areina em lugar nenhum. A noite tinha sido muito mais que agitada, e Elayne só fora para a cama quando o dia já começava a raiar. Na verdade, nem teria ido se Birgitte não tivesse dito a Ashmanaille que Elayne parecia um pouco tonta. Claro que Birgitte não estava sendo apenas observadora: o elo com um Guardião era uma via de mão dupla. Qual era o problema de estar um pouco cansada? Quando fora mandada para a cama, ainda havia muito trabalho a fazer, e ela conseguiria canalizar com mais força do que metade das Aes Sedai ali em Salidar. Através do elo, sabia que a própria Birgitte ainda não dormira! Ah, tinha sido mandada para a cama feito uma noviça, enquanto Birgitte passava a noite carregando os feridos e limpando destroços!

Quando olhou de novo, viu que Leane já estava sozinha, espremendo-se por entre a multidão em busca de um bom lugar para assistir a tudo. Não havia sinal do homem alto.

Aos bocejos, uma Nynaeve sonolenta e de olhos vermelhos foi para perto de Elayne, fazendo cara feia para um lenhador de colete de couro que tentara chegar antes dela. Resmungando sozinho, o sujeito se enfiou de volta na multidão. Elayne gostaria que Nynaeve não fizesse aquilo — os bocejos, não a cara feia. Antes que pudesse se conter, imitou o movimento. Birgitte até tinha desculpa — não muita —, mas Nynaeve, não. Theodrin não podia ter esperado que ela ficasse acordada depois da noite anterior, e Elayne ouvira Anaiya mandá-la para a cama. Ainda assim, quando Elayne entrou no quarto, deu de cara com Nynaeve sentada no banquinho, que acabara com o pé torto, tentando se manter acordada, a cabeça meneando a cada dois minutos, resmungando que Theodrin ia ver só, todo mundo ia ver só….

Claro que o bracelete do a’dam transmitia medo, mas também tinha um toque do que poderia ser diversão. Moghedien passara a noite escondida debaixo da cama, ilesa — e, como se escondera bem, não recebera ordens de catar um único galho caído. Conseguira até ter uma boa noite de sono assim que a comoção arrefeceu. Ao que parecia, ainda valia o velho ditado sobre a sorte do Tenebroso.

Nynaeve abriu a boca para um novo bocejo, e Elayne desviou os olhos depressa. Ainda assim, precisou botar a mão na frente da boca e segurar firme para não a imitar — o que não deu muito certo. O som de pés arrastando e de tossidelas foi assumindo um ar cada vez mais impaciente.

As Votantes ainda estavam com Tarna na Pequena Torre, mas o cavalo ruão da Vermelha já estava preparado, amarrado bem ali, na rua, diante da antiga estalagem. Ao redor encontrava-se a escolta de honra para as primeiras dez milhas de viagem da Vermelha de volta a Tar Valon: dez Guardiões ao lado de seus cavalos de batalha, segurando bem as rédeas — uma visão difícil, com os mantos furta-cor confundindo o olhar. A multidão não se reunira ali ansiosa, apenas por causa da partida da enviada da Torre, mas a maioria parecia tão esgotada quanto Elayne.