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— Seria de se pensar que ela era… era… — Cobrindo a boca com a mão, Nynaeve deu um enorme bocejo.

— Ah, sangue e cinzas! — murmurou Elayne.

Ou tentou murmurar, pois só o que saiu depois do “ah” foi um resmungo abafado pela mão cobrindo seu próprio bocejo. Lini sempre dizia que aquele tipo de comentário vulgar era indicativo de uma mente lerda e de inteligência limitada — e isso sempre vinha logo antes de uma ordem para que Elayne lavasse a boca, claro. Mas, algumas vezes, não havia expressão melhor para expressar tantos sentimentos em tão poucas palavras. E ela teria dito mais, porém não conseguiu.

— Por que não fazem logo uma procissão? — vociferou Nynaeve. — Não entendo para que tanto alvoroço por causa dessa mulher — completou. E bocejou de novo. De novo!

— É porque essa mulher é Aes Sedai, dorminhoca — respondeu Siuan, juntando-se a elas. — Duas dorminhocas — completou, olhando para Elayne. — Vão acabar com o casco coberto de cracas, se continuarem nessa leseira. — Elayne tratou de fechar a boca e encarar Siuan com seu olhar mais gélido. Como de costume, o efeito foi como chuva deslizando por um telhado laqueado. — Tarna é Aes Sedai, meninas — prosseguiu Siuan, encarando os cavalos parados à espera. Ou talvez estivesse olhando para a carroça vazia que tinham puxado até a entrada da estalagem de pedra. — E uma Aes Sedai é uma Aes Sedai, não há como mudar isso.

Nynaeve olhou feio para Siuan, que nem reparou.

Elayne agradeceu por Nynaeve ter se controlado. Sabia que a resposta pronta na ponta da língua da amiga teria sido bem venenosa.

— Qual foi o prejuízo de ontem à noite?

Siuan respondeu sem nem desviar o olhar da porta da estalagem, por onde Tarna sairia.

— Sete mortos só aqui na aldeia. Quase cem soldados nos acampamentos, com todas aquelas espadas, machados e outras armas jogadas pelos cantos, mas sem ninguém para ajudar com o Poder. Algumas irmãs estão Curando os sobreviventes agora.

— E Lorde Gareth? — perguntou a Filha-herdeira, um pouco ansiosa.

O homem podia estar agindo com frieza com ela, mas Elayne já vira seus sorrisos calorosos quando era criança, e ele sempre tinha balas no bolso para ela.

Siuan bufou tão alto que algumas pessoas se viraram para olhar.

— Aquele lá… Até um peixe-leão quebraria os dentes, se tentasse morder o homem — resmungou.

— Você parece de bom humor — observou Nynaeve. — Finalmente descobriu qual é a mensagem da Torre? Gareth Bryne a pediu em casamento? Alguém morreu e deixou uma herança…?

Elayne tentou não olhar para a amiga — até o som do bocejo dela fazia sua mandíbula ranger.

Siuan encarou Nynaeve com indiferença, e ela devolveu na mesma moeda, ainda que com olhos um tanto úmidos.

— Por favor, conte se tiver descoberto alguma coisa — interrompeu Elayne, antes que os olhares assassinos que as duas trocavam acabassem matando de verdade.

— Todo mundo sabe que uma mulher que se diz Aes Sedai quando não é está se metendo num caldeirão fervente com água até o pescoço, mas se a mulher ainda por cima alegar fazer parte de uma Ajah específica, essa Ajah tem prioridade na escolha da punição… — murmurou Siuan, como se estivesse pensando em voz alta. — Myrelle já contou sobre a vez em que encontrou uma mulher em Chachin que dizia ser uma Verde? Era uma antiga noviça que não passou no teste para Aceita. Vocês deviam perguntar, quando ela tiver algumas horas livres. Vai levar um bom tempo para contar a história toda. A coitada deve ter desejado ter sido simplesmente estancada muito antes de Myrelle acabar. Estancada e decapitada.

Inexplicavelmente, a ameaça não surtiu mais efeito do que o olhar feio de antes tivera em Nynaeve. As duas sequer estremeceram. Talvez estivessem cansadas demais.

— Ah, trate de me contar o que sabe — ameaçou Elayne, baixinho —, senão vou ensinar você a se sentar direito, na próxima vez em que estivermos sozinhas. E pode sair chorando atrás de Sheriam, se quiser.

Siuan estreitou os olhos. De repente, Elayne soltou um gritinho de dor e levou a mão à cintura.

Siuan nem tentou disfarçar enquanto recolhia a mão que dera o beliscão.

— Não sou muito chegada a ameaças, garota. Você sabe o que Elaida disse tão bem quanto eu. E viu antes de todo mundo aqui.

— Para voltarem, que está tudo perdoado? — indagou Nynaeve, incrédula.

— Mais ou menos. Tem uma boa dose de tempero para disfarçar o peixe azedo, uma conversa de que, mais do que nunca, a Torre precisar se unir. Sem falar na isca de que ninguém precisar ter medo, só quem “de fato decidiu se rebelar”. Só a Luz sabe o que isso quer dizer. Eu não sei.

— E por que estão mantendo tudo em segredo? — protestou Elayne. — Não é possível que elas achem que alguém vai voltar para Elaida. Basta mostrar Logain!

Siuan não respondeu, apenas franziu a testa para os Guardiões à espera na frente da estalagem.

— Ainda não entendo por que elas estão pedindo mais tempo — resmungou Nynaeve. — Elas sabem o que deve ser feito. — Siuan continuou quieta. Depois de alguns segundos, Nynaeve ergueu as sobrancelhas. — Você não sabe o que elas responderam.

— Agora eu sei — retrucou Siuan, irritada, para então murmurar sozinha, algo que saiu como sobre “tolas fracas de joelhos bambos”.

Elayne concordou, mas segurou a língua.

A porta da antiga estalagem se abriu de repente, e algumas Votantes — uma de cada Ajah — saíram, usando os xales cheios de babados, seguidas de Tarna. As outras Votantes fechavam a procissão. Se a multidão ali reunida estava esperando alguma cerimônia, devia ter ficado desapontada. Com uma expressão indecifrável, Tarna montou no cavalo, correu os olhos pelas Votantes, encarou brevemente a multidão e esporou o capão, colocando-o em movimento. A escolta de Guardiões foi junto. Um burburinho preocupado se elevou da multidão, ansiosa como abelhas agitadas, à medida que as pessoas iam abrindo passagem.

Os murmúrios se prolongaram até Tarna sumir de vista, já fora da aldeia, e Romanda subir na carroça e, com toda a delicadeza, endireitar o xale de babados amarelos. Seguiu-se um silêncio mortal. Segundo a tradição, os pronunciamentos do Salão eram feitos pela Votante mais antiga. Claro que Romanda não se movia como uma idosa, e seu rosto tinha a idade tão indefinida quanto qualquer outro, mas mechas de cabelo grisalho sempre eram um indicativo da idade numa Aes Sedai, e o coque preso à nuca da Amarela era de um grisalho claro, sem o menor sinal de qualquer mecha escura. Elayne se perguntava quantos anos a mulher devia ter, mas perguntar a idade de uma Aes Sedai era considerado extremamente rude.

Romanda teceu fluxos de Ar para aumentar o alcance da voz aguda de soprano, que chegou a Elayne como se estivesse cara a cara com a Amarela.

— Muitos de vocês andam preocupados, mas não há necessidade. Se Tarna Sedai não tivesse vindo até nós, teríamos enviado missivas para a Torre Branca. Afinal, não dá para dizer que a localização do nosso esconderijo é um segredo. — Romanda fez uma pausa, como se quisesse dar tempo para a multidão rir, mas todos mantiveram os olhos fixos na mulher, que arrumou o xale. — Nosso propósito aqui não mudou. Estamos em busca da verdade e da justiça, de fazer o que é certo…

— Certo para quem? — murmurou Nynaeve.

— … e não vamos hesitar ou fracassar. Cuidem de suas tarefas como têm cuidado, certos de que continuam abrigados sob nossas mãos, agora e depois de retornarmos a nossos devidos lugares na Torre Branca. Que a Luz brilhe sobre todos vocês. Que a Luz brilhe sobre todos nós.