O burburinho se intensificou, e a multidão foi se dispersando aos poucos enquanto Romanda descia da carroça. O rosto de Siuan poderia ter sido esculpido em pedra, tamanho estoicismo, os lábios comprimidos e pálidos. Elayne tinha algumas perguntas, mas Nynaeve saltou da pedra onde estivera e forçou caminho em direção à estalagem. Elayne se apressou em segui-la. Na noite anterior, a amiga estivera prestes a revelar o que tinham descoberto sem nem pensar. Se quisessem usar a informação para influenciar o Salão, precisavam expor o que sabiam com cuidado. E de fato parecia que precisavam dessa influência. O pronunciamento de Romanda fora uma carroça e meia de nada e claramente irritara Siuan.
Espremendo-se por entre dois grandalhões de olhos cravados nas costas de Nynaeve, que pisara em vários pés para passar, Elayne se virou para trás e flagrou Siuan de olho nela e em Nynaeve. Mas só durou um instante: assim que percebeu que havia sido vista, fingiu ter encontrado algum conhecido na multidão e pulou para o chão, como se estivesse indo atrás da pessoa. Franzindo o cenho, Elayne apressou o passo. Siuan estava ou não irritada? E quanto daquela irritação e ignorância do que se passava era fingimento? A ideia de Nynaeve de fugir para Caemlyn — que Elayne ainda não tinha certeza se já fora descartada — era mais que estúpida, mas até ela estava ansiosa para ir a Ebou Dar e fazer algo realmente útil. Todos aqueles segredos e suspeitas eram como uma comichão que não conseguia alcançar para coçar. Bastava que Nynaeve não estragasse tudo…
Elayne alcançou a amiga no exato instante em que Nynaeve chegava a Sheriam, parada perto da carroça da qual Romanda fizera o pronunciamento. Morvrin também estava lá, junto com Carlinya, e as três usavam os xales. Naquela manhã, todas as Aes Sedai estavam de xale. O cabelo cacheado de Carlinya, agora muito mais curto, era o único sinal do quase desastre em Tel’aran’rhiod.
— Precisamos falar com você a sós — declarou Nynaeve, para Sheriam. — Em particular.
Elayne suspirou. Não era o melhor dos começos, mas também não era um dos piores.
Sheriam encarou as duas por um momento e então olhou para Morvrin e Carlinya.
— Muito bem. Lá dentro — ordenou.
Quando se viraram, deram de cara com Romanda entre elas e a porta. A Amarela, de olhos escuros e com uma beleza masculina, estava parada, envolta no xale de babados amarelos cheio de flores e vinhas e com a Chama de Tar Valon bem no topo, entre os ombros. Ignorando Nynaeve, ela abriu um sorriso caloroso para Elayne — o tipo de sorriso que ela já se acostumara a esperar e a temer, vindo de uma Aes Sedai. Para Sheriam, Carlinya e Morvrin, a expressão foi bem diferente. Romanda as encarou, apática e de cabeça erguida, até as três se abaixarem em reverências tímidas e murmurarem “Com sua licença, Votante”. Só então Romanda se afastou para o lado, mas mesmo assim fungou alto.
O povo não notou, claro, mas Elayne já entreouvira trechos de conversas das Aes Sedai a respeito de Sheriam e seu pequeno conselho. Algumas achavam que elas só cuidavam de aspectos do cotidiano de Salidar, liberando o Salão para tratar questões mais importantes. Outros sabiam que elas tinham influência junto ao Salão — mas o tamanho dessa influência variava de acordo com quem opinava. Romanda era uma das que acreditavam que era influência demais. Pior ainda: havia duas Azuis e nenhuma Amarela no grupinho. Elayne sentiu o olhar da Votante mais velha cravado em suas costas enquanto acompanhava as outras porta adentro.
Sheriam as conduziu a uma das salas privativas junto à antiga área comum, com painéis carcomidos por insetos e uma mesa cheia de papéis encostada a uma das paredes. Ela ergueu as sobrancelhas quando Nynaeve pediu que tomassem precauções para evitar que alguém entreouvisse, mas teceu a barreira ao redor do aposento sem nenhum comentário. Lembrando-se das aventuras passadas de Nynaeve, Elayne tomou o cuidado de verificar se todas as janelas estavam bem fechadas.
— Não espero menos do que notícias de que Rand al’Thor está a caminho — avisou Morvrin, seca.
As duas outras se entreolharam. Elayne conteve a indignação. Aquelas mulheres realmente acreditavam que ela e Nynaeve estavam escondendo segredos sobre Rand al’Thor. Elas e aqueles segredos!
— Não é nada disso — respondeu Nynaeve —, mas é igualmente importante. Apenas diferente.
As duas contaram de sua viagem a Ebou Dar e da descoberta da vasilha ter’angreal. Não na ordem certa e sem mencionar a Torre, mas com todos os pontos essenciais.
— E vocês têm certeza de que essa vasilha é um ter’angreal? — indagou Sheriam, quando Nynaeve terminou. — Ela pode controlar o clima?
— Pode, Aes Sedai — confirmou Elayne, simplesmente. O melhor era ser simples, para começar.
Morvrin grunhiu. A mulher duvidava de tudo.
Mexendo no xale, Sheriam assentiu.
— Então vocês fizeram bem. Vamos mandar uma carta para Merilille. — Merilille Ceandevin, a irmã Cinza enviada para Ebou Dar a fim de convencer a rainha a apoiar Salidar. — Precisaremos de todos os detalhes.
— Ela não vai conseguir encontrar — interveio Nynaeve, antes que Elayne pudesse abrir a boca. — Mas eu e Elayne conseguiremos.
Os olhos das Aes Sedai gelaram.
— Provavelmente seria impossível para ela — acrescentou Elayne, mais do que depressa. — Nós vimos onde está a vasilha, mas mesmo assim vai ser difícil. Mas pelo menos sabemos o que vimos. Descrevê-la numa carta nunca seria igual.
— Ebou Dar não é lugar para Aceitas — afirmou Carlinya, com frieza.
O tom de voz de Morvrin foi um pouco mais gentil, ainda que rude:
— Todas precisamos fazer o melhor que pudermos, criança. Acham que Edesina, Afara e Guisin queriam ir para Tarabon? O que elas poderiam fazer para trazer ordem àquela terra agitada? Mas temos que tentar, então elas foram. Neste exato momento, Kiruna e Bera devem estar na Espinha do Mundo, em sua jornada atrás de Rand al’Thor no Deserto Aiel, porque, quando enviamos as duas, achamos, e era só um palpite, que ele pudesse estar lá. A jornada delas não é menos fútil porque estávamos certas, agora que ele já saiu do Deserto. Todas fazemos o que podemos, o que devemos. Vocês são Aceitas. Aceitas não saem correndo para Ebou Dar ou outro lugar qualquer. O que vocês duas podem e devem fazer é ficar aqui, estudando. Mesmo se vocês fossem irmãs completas, eu diria para ficarem. Há mais de cem anos ninguém faz o tipo de descoberta que vocês fizeram, tantas em tão pouco tempo.
Nynaeve, sendo quem era, ignorou o que não queria ouvir e se concentrou em Carlinya.
— Temos nos saído muito bem sozinhas, obrigada. Duvido que Ebou Dar seja tão ruim quanto Tanchico.
Elayne achava que Nynaeve não sabia nem que estava agarrando a trança, puxando a ponto de quase arrancar. Será que ela nunca aprenderia que às vezes bastava um pouco de civilidade para conquistar o que a honestidade poria a perder?
— Entendo as suas preocupações, Aes Sedai — ponderou Elayne —, mas, mesmo podendo parecer falta de modéstia, a verdade é que estou mais qualificada para localizar um ter’angreal do que qualquer pessoa em Salidar. E Nynaeve e eu sabemos mais sobre onde procurar do que conseguiríamos transmitir em uma carta. Se nos mandarem para Merilille Sedai, tenho certeza de que, sob a orientação dela, conseguiríamos localizar a tigela bem rápido. Seriam apenas alguns dias de barco até Ebou Dar e mais os poucos dias da volta, além de alguns dias sob a tutela de Merilille Sedai. — Foi difícil não respirar fundo. — Enquanto isso, vocês poderiam mandar uma mensagem para um dos olhos-e-ouvidos de Siuan em Caemlyn. para que a pessoa já esteja lá quando Merana Sedai chegar com a missão diplomática.
— E por que, sob a Luz, deveríamos fazer isso? — contestou Morvrin.
— Achei que Nynaeve tivesse dito, Aes Sedai. Não tenho certeza, mas acredito que a vasilha também precise da canalização de um homem para funcionar.