Claro que aquilo causou uma pequena comoção. Carlinya engasgou, Morvrin resmungou baixinho e Sheriam ficou literalmente boquiaberta. Nynaeve também ficou surpresa, mas apenas por um instante. Elayne teve certeza de que a amiga conseguira disfarçar antes que as outras notassem — estavam estupefatas demais para ver muita coisa, afinal. A questão, pura e simples, era que se tratava de uma mentira. O segredo era ser simples. Em tese, os grandes feitos da Era das Lendas tinham sido alcançados por homens e mulheres canalizando em conjunto, provavelmente em união. Era muito provável que existissem alguns ter’angreal que precisassem da canalização conjunta de um homem para funcionar. Em todo caso, se Elayne não conseguisse fazer aquela vasilha funcionar, ninguém mais em Salidar conseguiria — exceto talvez Nynaeve. Caso o funcionamento dependesse da participação de Rand, o Salão de Salidar não poderia simplesmente desperdiçar a chance de tomar alguma providência a respeito do clima e teriam que se aliar a ele. Quando Elayne “descobrisse” que um círculo de mulheres daria conta da vasilha, as Aes Sedai de Salidar já estariam muito atreladas a Rand para poderem se libertar.
— Tudo isso faz muito sentido — afirmou Sheriam, por fim —, mas não muda o fato de que vocês são apenas Aceitas. Vamos enviar uma carta para Merilille. Tem havido muita conversa sobre vocês duas…
— Conversa! — irrompeu Nynaeve. — Vocês só fazem isso, vocês e o Salão! Só conversam! Elayne e eu podemos encontrar esse ter’angreal, mas vocês preferem ficar cacarejando feito galinhas chocadeiras! — As palavras iam se atropelando ao sair. Nynaeve puxava a trança com tanta intensidade que Elayne não se surpreenderia se acabasse se soltando da cabeça, pendurada em suas mãos. — Vocês só ficam aqui, sentadas, torcendo para que Thom, Juilin e os outros voltem dizendo que os Mantos-brancos não vão desabar feito uma casa velha em cima da gente, sendo que eles podem muito bem voltar com os Mantos-brancos em seu encalço. Ficam sentadas só pensando no que fazer com Elaida, em vez de fazer o que disseram que fariam, e se atrapalham todas para resolver como lidar com Rand. Por acaso já sabem como vão se posicionar a respeito dele? Sabem, apesar de a missão diplomática já estar a caminho de Caemlyn? E querem saber por que só ficam sentadas conversando? Pois eu sei! Vocês têm medo. Medo de ver a Torre cindida, medo de Rand, dos Abandonados, da Ajah Negra… Ontem à noite, Anaiya deixou escapar que vocês tinham um plano pronto para o caso de um dos Abandonados atacar. Todos aqueles círculos, e tudo por uma bolha de mal… Será que finalmente acreditam que elas existem? E os círculos estavam todos desordenados, a maioria deles com mais noviças do que Aes Sedai, porque só algumas Aes Sedai sabiam de antemão o que fazer. Acham que a Ajah Negra está aqui em Salidar, e estavam com medo de que o plano pudesse chegar a Sammael ou algum dos outros. Não confiam nem umas nas outras! Não confiam em ninguém! E é por isso que não vão nos mandar para Ebou Dar? Acham que nós somos da Ajah Negra, ou que vamos fugir para Rand, ou… ou…! — A voz foi fraquejando, e Nynaeve começou a ofegar e a gaguejar. Mal parara para respirar durante aquele rompante.
O primeiro instinto de Elayne foi tentar colocar panos quentes, mas não conseguia nem começar a pensar em como fazer isso. Seria tão fácil quanto suavizar o relevo de uma cordilheira. Foram as Aes Sedai que a fizeram esquecer a preocupação por Nynaeve talvez ter conseguido estragar tudo. Os rostos inexpressivos, com olhos capazes de ver através de rochas, não deveriam ter transmitido nenhuma emoção — mas, para ela, transmitiam. E não era aquela raiva fria que deveria ser direcionada a qualquer um tolo o bastante para vociferar contra uma Aes Sedai. O que ela viu foi um escudo, e a única coisa a ser escondida era a verdade. Uma verdade que elas mesmas não queriam admitir: estavam realmente com medo.
— Acabou? — indagou Carlinya, com uma voz capaz de congelar o sol.
Elayne soltou um espirro tão forte que bateu a cabeça na lateral do caldeirão virado. O cheiro de sopa queimada enchia seu nariz. O sol do meio da manhã esquentara o interior escuro do panelão até parecer que ele ainda estava no fogo. O suor pingava de seu rosto — ou melhor, escorria. Ela largou a pedra-pomes áspera e engatinhou de costas para fora do caldeirão, então olhou para a mulher a seu lado — ou melhor, para a metade exposta da mulher, enfiada em um caldeirão um pouco menor, também deitado de lado. Ela cutucou a cintura de Nynaeve e abriu um sorriso satisfeito quando o cutucão a fez bater a cabeça no ferro, resultando em um gemido de dor. Nynaeve saiu de dentro do panelão com um olhar ameaçador — o brilho perigoso em seus olhos sequer foi amenizado pelo bocejo que ela escondeu por trás da mão encardida. Elayne não lhe deu nem chance de falar.
— Você tinha que explodir, não tinha? Não consegue controlar esse gênio nem por cinco minutos. Já tínhamos tudo nas mãos, mas você teve que ir lá e dar um pontapé bem no nosso tornozelo.
— Elas não teriam deixado a gente ir para Ebou Dar, de qualquer jeito — resmungou Nynaeve. — E não chutei nada sozinha. — Ela empinou o queixo em um gesto afetado, erguendo tanto a cabeça que teve que olhar bem para baixo para ver Elayne. — “Aes Sedai controlam o próprio medo” — entoou, em um tom que poderia ter servido para repreender um vagabundo bêbado e cambaleante que tivesse se metido na frente de seu cavalo. — “E não permitem que o medo as controle. Liderem, e seguiremos com prazer. Mas vocês precisam liderar, não se curvar na esperança de que alguma coisa faça os problemas desaparecerem.”
Elayne sentiu as bochechas esquentarem. Não se comportava daquele jeito. E com certeza não tinha falado naquele tom.
— Bem, talvez nós duas tenhamos perdido a calma, mas… — Ela ouviu passos, então parou de falar.
— Ah, então quer dizer que as crianças de ouro das Aes Sedai decidiram descansar um pouco, é? — O sorriso de Faolain era tão pouco amigável quanto um sorriso poderia ser. — Não estou aqui pelo prazer, entendem? Queria passar o dia trabalhando em algum projeto meu, algo não terrivelmente inferior ao que as duas crianças de ouro têm feito. Em vez disso, tenho que vigiar duas Aceitas esfregando panelas para expiar seus pecados. Vigiar para que não saiam de fininho feito as duas noviças inferiores que deveriam ser. Agora voltem ao trabalho. Só posso ir embora quando vocês terminarem, e não pretendo passar o dia inteiro aqui.
A mulher de cabelo escuro e cacheado era como Theodrin: acima de uma Aceita, mas abaixo de uma Aes Sedai. O que Elayne e Nynaeve teriam sido, caso Nynaeve não tivesse se comportado como uma gata que levou um pisão. Nynaeve e ela, corrigiu-se Elayne, relutante. Sheriam dissera exatamente isso enquanto anunciava quanto tempo das horas “livres” as duas passariam trabalhando nas cozinhas, dando conta do pior trabalho que as cozinheiras pudessem encontrar. Mas nada de Ebou Dar, de um jeito ou de outro. Isso também fora deixado bem claro. Uma carta estaria a caminho de Merilille ao meio-dia — isso se já não tivesse sido enviada.
— Eu… sinto muito — disse Nynaeve.
Elayne piscou para ela. Ouvir a amiga pedindo desculpas era como ver neve em pleno verão.
— Também sinto muito, Nynaeve.
— Ah, se sentem — retrucou Faolain. — Nunca vi ninguém sentir tanto. Agora voltem ao trabalho, antes que eu encontre um motivo para mandar as duas para Tiana assim que terminarem.
Elayne lançou um olhar pesaroso para Nynaeve, rastejou de volta para dentro do caldeirão e atacou a sopa queimada com a pedra-pomes como se atacasse Faolain. Voaram pedaços pretos de legumes carbonizados e pó de pedra. Não, Faolain não: as Aes Sedai, que ficavam sentadas quando deveriam estar agindo. Ah, mas ela ia para Ebou Dar, ia encontrar aquele ter’angreal e ia usá-lo para amarrar Sheriam e todas as outras a Rand. E de joelhos! Deu um espirro tão forte que os sapatos quase saíram voando dos pés.