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Eu era o Senhor da Manhã, murmurou Lews Therin. Eu sou o Príncipe da Aurora.

Rand manteve a expressão serena.

— Não lhes darei as boas-vindas, pois esta é a sua terra, é o palácio da sua rainha. Ainda assim, fico feliz por terem aceitado meu convite.

Claro que não mencionou o fato de só terem vindo depois de cinco dias e ainda por cima só tendo avisado com algumas poucas horas de antecedência. Apenas se levantou, deitou o Cetro do Dragão no trono e desceu do tablado. Com um sorriso contido — Nunca pareça hostil, a menos que seja realmente necessário, dissera Moiraine. Mas, acima de tudo, não pareça amistoso demais. Não pereça ávido. —, Rand apontou para cinco poltronas com encostos almofadados dispostas em círculo entre as colunas.

— Vamos nos sentar — convidou. — Vamos conversar e beber um pouco de vinho gelado.

E os quatro foram, claro, examinando Rand e os Aiel com a mesma curiosidade — e talvez o mesmo nível de animosidade, tudo muito mal disfarçado. Depois que todos se acomodaram, os gai’shain se aproximaram em silêncio, usando as túnicas brancas com capuz. Alguns traziam vinho em cálices dourados já úmidos pela condensação, outros se postaram atrás de cada poltrona com um leque de plumas, abanando o ar. Todas as poltronas, menos a de Rand. E os quatro perceberam isso, notaram a ausência de suor em seu rosto. Mas os gai’shain também não transpiravam, mesmo com as túnicas, e nem os outros Aiel. Rand examinou os rostos dos quatro nobres por sobre o próprio cálice de vinho.

Os andorianos se orgulhavam de serem mais objetivos e sempre se vangloriavam de que o Jogo das Casas era muito mais intrincado em outras terras do que na deles, mas ainda assim se julgavam capazes de jogar Daes Dae’mar, quando preciso. E eram mesmo, de certa forma, mas os cairhienos — e até mesmo os tairenos — consideravam suas táticas muito simplórias para os movimentos e contramovimentos tão sutis do Grande Jogo. Os quatro nobres ali presentes conseguiam manter a compostura boa parte do tempo, mas, para um aluno de Moiraine cuja força fora posta à prova em Tear e Cairhien, eles revelavam demais a cada mexida dos olhos, a cada levíssima mudança de expressão.

Primeiro, os nobres repararam que não havia cadeira para Bashere. Eles trocaram olhares rápidos, um tanto mais animados, ainda por cima depois de ver que o próprio Bashere estava saindo a passos largos da sala do trono. Os quatro até se permitiram acompanhá-lo com o olhar e o mais sutil sorriso de satisfação. Estava claro que eles desprezavam a presença do exército saldaeano em Andor com a mesma intensidade com que Naean e aquele bando. Seus pensamentos eram óbvios: talvez a influência do estrangeiro fosse menor do que temiam. Ora, Bashere fora tratado como nada mais do que um serviçal com um cargo mais elevado.

Dyelin arregalou os olhos bem de leve no mesmo instante que Luan, apenas um segundo antes dos outros dois. Durante breves momentos, os quatro encararam Rand com tanta atenção que ficou óbvio que evitavam olhar uns para os outros. Bashere era forasteiro, mas também era o Marechal-General de Saldaea, três vezes lorde, tio da Rainha Tenobia. Se Rand o usava como serviçal…

— Um vinho excelente — comentou Luan, encarando o cálice, e hesitou um momento antes de acrescentar: — Milorde Dragão. — O título parecia ter sido arrancado à força.

— É do sul — acrescentou Ellorien, depois de um golinho. — Safra das Colinas de Tunaighan. Acho espantoso o senhor conseguir gelo em Caemlyn, este ano. Ouvi dizer que o povo já começou a chamar este de “o ano sem inverno”.

— Acha mesmo que eu gastaria tempo e esforço para encontrar gelo com tantos problemas assolando o mundo? — retrucou Rand.

O rosto magro de Abelle empalideceu, e ele pareceu se forçar a tomar mais um gole do vinho. Luan, por outro lado, fez questão de esvaziar o cálice e em seguida o estendeu para um gai’shain, indicando que queria mais. Os olhos verdes do Aiel de robe branco exibiram um lampejo de fúria, um contraste com a suavidade calculada do rosto bronzeado de sol. Servir aguacentos era coisa de serviçal, e os Aiel desprezavam o conceito de serviçais. Claro que Rand nunca conseguira entender como esse desprezo se encaixava em toda a ideia de ser gai’shain, mas as coisas eram assim.

Dyelin apoiou a taça bem firme entre os joelhos e passou a ignorá-la. De perto, dava para ver alguns fios grisalhos em seus cabelos louros. Ela era linda, embora apenas os cabelos lembrassem Morgase e Elayne. Dyelin, a seguinte na sucessão ao trono, era no mínimo prima próxima da Filha-herdeira. A mulher, encarando-o com uma leve carranca, parecia prestes a balançar a cabeça em reprovação, mas apenas disse:

— Estamos preocupados com os problemas do mundo, mas ainda mais com os que afetam Andor. O senhor nos trouxe aqui para encontrar uma cura?

— Se os senhores souberem de alguma — respondeu Rand, simplesmente. — Se não, acho que devo procurar em outro lugar. Muitos julgam conhecer a cura apropriada e, se eu não encontrar a que quero, terei que me contentar com a segunda opção. — Aquilo fez os nobres contraírem a boca. No caminho até lá, Bashere os conduzira por um pátio onde Arymilla, Lir e as outras tinham sido deixadas. Era uma espécie de fila de espera, mas, para olhares estranhos, pareciam estar relaxando no Palácio. — Achei que os senhores iam querer ajudar a recuperar a integridade de Andor. Ouviram minha proclamação? — Não precisou dizer qual. Naquele contexto, só poderia haver uma.

— Há uma recompensa por notícias de Elayne — respondeu Ellorien, inexpressiva, o rosto ainda mais contido —, que será feita rainha, agora que Morgase morreu.

Dyelin assentiu.

— Para mim, está bom.

— Mas para mim, não! — vociferou Ellorien. — Morgase traiu os amigos e desprezou os partidários mais antigos. É hora de acabar com o poder da Casa Trakand sobre o Trono do Leão. — Ela, assim como todos os outros, parecia ter se esquecido de Rand.

— Dyelin é a próxima na sucessão — declarou Luan, sem rodeios. A mulher balançou a cabeça, como se já tivesse ouvido aquilo, mas Luan prosseguiu mesmo assim: — Eu apoio Dyelin.

— Elayne é a Filha-herdeira — retrucou Dyelin com firmeza. — Eu apoio Elayne.

— Que diferença faz quem cada um de nós apoia? — inquiriu Abelle. — Se ele matou Morgase, não vai… — Ele se calou de repente, fazendo careta, então olhou para Rand. Seu olhar não era exatamente rebelde, mas estabelecia um claro desafio para que ele respondesse ao comentário. Parecia esperar que ele reagisse mal.

— É isso que vocês acham? — Rand olhou com pesar para o Trono do Leão em seu pedestal. — Por que, sob a Luz, eu mataria Morgase, se fosse entregar o controle a Elayne?

— Pouca gente sabe em que acreditar — respondeu Ellorien, rígida, as bochechas bem vermelhas. — O povo fala de tudo, a maioria é pura asneira.

— Como, por exemplo? — A pergunta era para Ellorien, mas foi Dyelin quem respondeu, encarando-o bem nos olhos.

— Dizem que o senhor vai lutar a Última Batalha e matar o Tenebroso. Dizem que o senhor é um falso Dragão, uma marionete das Aes Sedai, ou ambos. Dizem que o senhor é o filho bastardo de Morgase, um Grão-lorde taireno, um Aiel… — Ela franziu o cenho, mas logo prosseguiu. — Dizem que o senhor é filho de uma Aes Sedai com o próprio Tenebroso. Que o senhor é o Tenebroso, ou que é até mesmo o Criador em um corpo humano. Dizem que o senhor vai destruir o mundo, depois vai salvá-lo, então vai subjugá-lo e dar início a uma nova Era. Há tantos boatos quanto há bocas. A maioria afirma que o senhor matou Morgase. Muitos acrescentam Elayne à história. Dizem que essa proclamação é um disfarce para encobrir seus crimes.