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Rand soltou um suspiro. Alguns daqueles boatos eram os piores que ele já ouvira.

— Não vou perguntar em quais vocês acreditam.

Por que Dyelin insistia em franzir o cenho quando ele falava? E não era a única. Luan fazia o mesmo, enquanto Abelle e Ellorien lhe lançavam o tipo de olhar que Rand aprendera a esperar receber do pessoal de Arymilla, quando achavam que ele não estava olhando. Olhando. Sempre olhando, murmurou Lews Therin, em um sussurro rouco, dando uma risadinha. Eu estou sempre olhando você. Mas quem olha para mim?

— Em vez disso, prefiro perguntar se vão me ajudar a unificar Andor outra vez. Não quero que Andor acabe virando outra Cairhien, ou pior, uma terra como Tarabon ou como Arad Doman.

— Eu conheço um pouco do Ciclo de Karaethon. Acredito que o senhor seja o Dragão Renascido — comentou Abelle. — Ainda assim, nada nas profecias menciona o senhor governando, apenas falam da luta contra o Tenebroso em Tarmon Gai’don.

Rand apertou o cálice com tanta força que a superfície escura do vinho oscilou. Seria tão mais fácil se aqueles quatro fossem como quase todos os Grão-lordes tairenos ou cairhienos. O problema era que nenhum deles queria um ínfimo de poder a mais do que já possuíam. Por mais gelado que estivesse o vinho, duvidava de que o Poder Único fosse intimidar aquele bando. Tenho certeza de que, se eu tentasse, os quatro apenas me mandariam matá-los de uma vez, e a Luz que me queimasse!

A Luz que me queime, ecoou Lews Therin, irritado.

— Quantas vezes vou ter que dizer que não quero governar Andor? Vou embora assim que Elayne se sentar no Trono do Leão. E, se depender de mim, jamais voltarei.

— Se o trono pertence a alguém — retrucou Ellorien, sem se abalar —, é a Dyelin. Se está sendo sincero, então ponha a coroa na cabeça dela e vá embora. Andor estará recuperada, e não duvido de que nossos soldados vão segui-lo até a Última Batalha, se necessário.

— Ainda assim, eu recuso — interveio Dyelin, a voz firme, então voltou-se para Rand. — Quero esperar e considerar as possibilidades, milorde Dragão. Quando vir Elayne viva e coroada e depois que o senhor for embora, mandarei os meus homens o seguirem, não importa se mais ninguém em Andor fizer isso. Mas, se o tempo passar e o senhor ainda estiver reinando aqui, ou se esses seus Aiel selvagens fizerem com esta terra o que ouvi que fizeram em Cairhien e Tear… — Ela olhou com desprezo para as Donzelas e os Escudos Vermelhos e até assim como para os gai’shain, como se estivessem saqueando e incendiando a cidade naquele exato momento. — Ou se o senhor mandar para cá aqueles… homens que reuniu depois dessa sua anistia, então me voltarei contra o senhor, mesmo que nenhum outro cidadão de Andor faça isso.

— E eu estarei ao lado dela — declarou Luan, com firmeza.

— E eu também — completou Ellorien, logo seguida por Abelle.

Rand jogou a cabeça para trás e riu, sem conseguir se conter, parte por divertimento, parte por frustração. Luz! E eu achando que uma oposição direta seria melhor do que tê-los tramando pelas minhas costas ou lambendo minhas botas!

Os quatro o encararam, inquietos, sem dúvida achando que aquilo já era a loucura em curso. E talvez fosse, mesmo. Nem ele tinha mais certeza de nada.

— Podem considerar a situação pelo tempo que for necessário — retrucou, levantando-se para encerrar a audiência. — O que estou falando é verdade. Mas peço que também considerem isto: Tarmon Gai’don está cada dia mais perto. Não sei mais quanto tempo os senhores poderão gastar com reflexões.

Os quatro se despediram com um movimento calculado da cabeça, como se estivessem entre iguais — era mais do que quando chegaram —, mas, quando se viraram para sair, Rand segurou Dyelin pela manga.

— Tenho uma pergunta para a senhora. — Os outros pararam e se viraram, antes de Rand acrescentar: — Uma pergunta pessoal.

Depois de um instante, Dyelin assentiu, e seus companheiros se afastaram um pouco. Os outros três permaneceram na sala do trono, observando com atenção, mas não estavam perto o bastante para entreouvir.

— A senhora me olhou… de um jeito estranho — comentou Rand. A senhora e todos os outros nobres que conheci em Caemlyn. Pelo menos, todos os nobres andorianos. — Por quê?

Dyelin ergueu a cabeça e o encarou, então assentiu de leve, para si mesma.

— Qual é o nome da sua mãe?

Rand piscou.

— Minha mãe?

Sua mãe era Kari al’Thor. Pelo menos, era no que ele acreditava — Kari o criara desde a infância até o dia de sua morte. Mas decidiu dar a verdade crua que descobrira no Deserto.

— Minha mãe se chamava Shaiel. Foi uma Donzela da Lança. Meu pai era Janduin, chefe do clã dos Aiel Taardad. — Dyelin ergueu uma sobrancelha, desconfiada. — Juro pelo que a senhora quiser. O que isso tem a ver com o que eu quero saber? Os dois já morreram há muito tempo.

A mulher pareceu aliviada.

— Então parece ser apenas uma mera semelhança, um acaso, só isso. Não estou sugerindo que o senhor não saiba quem são seus pais, mas é que tem um sotaque do oeste de Andor.

— Semelhança? Eu cresci em Dois Rios, mas meus pais são esses que eu disse. Com quem é que eu pareço, para a senhora ficar me encarando?

A mulher hesitou, então soltou um suspiro e respondeu:

— Acho que não importa. Um dia o senhor precisa me contar como tem pais Aiel, mas foi criado em Andor. Vinte e cinco anos atrás, talvez mais, a Filha-herdeira de Andor desapareceu na calada da noite. Seu nome era Tigraine, e ela deixou para trás um marido, Taringail, e um filho, Galad. Sei que é apenas coincidência, mas vejo Tigraine em seu rosto. Da primeira vez que o vi, fiquei chocada.

O próprio Rand ficou chocado. Um arrepio gelado percorreu seu corpo. Fragmentos da história que ouvira das Sábias rodopiaram em sua mente… uma jovem aguacenta de cabelos louros… um filho que ela amava, um marido que não amava… Shaiel foi o nome que ela adotou. Nunca nos deu outro… você parece um pouco com ela.

— Como foi que Tigraine desapareceu? Sou muito interessado na história de Andor.

— Agradeço se não chamar de história, milorde Dragão. Eu era garota quando isso aconteceu, mas já não era mais criança e vinha muito ao Palácio. Certa manhã, Tigraine simplesmente não estava mais aqui, então nunca mais foi vista. Diziam que tinha o dedo de Taringail naquilo, mas ele parecia louco de aflição. Taringail Damodred queria ver sua filha Rainha de Andor e seu filho Rei de Cairhien mais do que tudo no mundo. Taringail era cairhieno, entende? O casamento supostamente era para acabar com as guerras entre Andor e Cairhien, e de fato conseguiu fazer isso. Mas o desaparecimento de Tigraine levou os cairhienos a pensarem que Andor fosse quebrar o acordo, e isso os levou a conspirar, como bons cairhienos que são. Essa história, claro, acaba com o episódio do Orgulho de Laman. E o senhor sabe aonde isso deu. — Essa última parte veio em um tom mais seco. — Meu pai diz que a culpa na verdade era de Gitara Sedai.

— Gitara? — perguntou Rand, impressionado por não soar tão espantado quanto se sentia. Ouvira aquele nome mais de uma vez.

Gitara Moroso foi uma Aes Sedai com o dom da Previsão, a mulher que anunciou que o Dragão havia Renascido nas encostas do Monte do Dragão e que pusera Moiraine e Siuan em sua longa busca. Gitara Moroso que, anos antes, dissera a “Shaiel” que, caso ela não fugisse para o Deserto sem contar a ninguém e se tornasse Donzela da Lança, a desgraça se abateria sobre Andor e o mundo.