Dyelin assentiu, um tanto impaciente.
— Gitara era conselheira da Rainha Mordrellen — respondeu, sem rodeios —, mas passava mais tempo com Tigraine e Luc, o irmão dela, do que com a Rainha. Depois que Luc foi para o norte para nunca mais voltar, correram boatos de que Gitara o convencera de que sua fama, ou seu destino, estavam na Praga. Outros diziam que ele encontraria o Dragão Renascido por lá, ou também que a Última Batalha dependia de sua partida. Isso foi cerca de um ano antes de Tigraine desaparecer. Eu, por mim, duvido de que Gitara tenha tido qualquer coisa a ver com isso ou com o sumiço de Luc. Ela continuou conselheira da Rainha até Mordrellen morrer, e dizem que foi uma morte de tristeza pela perda de Tigraine e de Luc. Foi isso que desencadeou a Sucessão, é claro. — Ela deu uma olhada para os outros, que se remexiam, impacientes, lançando olhares desconfiados para os dois. Ainda assim, não resistiu e acrescentou: — Se não tivesse sido dessa forma, o senhor teria encontrado Andor bem diferente. Tigraine seria rainha, Morgase seria apenas Grão-trono da Casa Trakand, e Elayne nem teria nascido. Morgase casou-se com Taringail depois que subiu ao trono, o senhor bem sabe. Quem é que pode dizer o que mais teria sido diferente?
Enquanto a olhava se juntar aos outros e sair, Rand pensou em mais uma coisa que teria sido diferente: ele não estaria ali em Andor — não teria nem nascido. Tudo voltava para o mesmo ponto, em círculos sem fim. Tigraine foi para o Deserto em segredo, o que levou Laman Damodred a derrubar Avendoraldera, um presente dos Aiel, para fazer um trono. Isso, por sua vez, levou os Aiel até a Espinha do Mundo com o único objetivo de matar Laman — apesar disso, as nações chamavam o evento de Guerra dos Aiel. Com os Aiel, veio uma Donzela chamada Shaiel, que morreu no parto. Tantas vidas se alteraram e tantas vidas se perderam para que sua mãe pudesse dar à luz na hora e no local apropriados, para que então morresse naquele momento. Kari al’Thor era a mãe de quem ele se lembrava, ainda que muito pouco, mas Rand desejava ter conhecido Tigraine, Shaiel, ou fosse lá o nome pelo qual ela quisesse ser chamada, mesmo que por pouco tempo. Queria pelo menos ter visto seu rosto.
Devaneios inúteis. Sua mãe estava morta havia muitos anos. Já estava tudo acabado. Então por que aquilo ainda o incomodava tanto?
A Roda do Tempo e a roda da vida de um homem giram igual, sem pena nem misericórdia, murmurou Lews Therin.
Você está mesmo aí?, pensou Rand. Ah, se houver algo aí além de uma voz e umas poucas memórias muito antigas, então responda! Está aí? Silêncio. Como gostaria de receber um dos conselhos de Moiraine — ou de qualquer um.
De súbito, Rand percebeu que encarava a parede de mármore branco do Grande Salão, voltado para noroeste — na direção de Alanna. A Verde estava longe do Sabujo de Culain. Não! Que a Luz a queime! Não trocaria Moiraine por uma mulher capaz de preparar uma armadilha daquelas para ele. Não podia confiar em nenhuma mulher da Torre, exceto três: Elayne, Nynaeve e Egwene. Ou ao menos esperava poder confiar nelas. Mesmo que só um pouquinho.
Rand então se voltou para o grande teto abobadado, cujos vitrais coloridos exibiam batalhas, antigas rainhas e o Leão Branco. Aquelas mulheres, retratadas em uma escala maior que seu tamanho normal, encaravam Rand com olhares desaprovadores, como se estivessem perguntando o que ele estaria fazendo ali. Claro que a reprovação no olhar delas era fruto da sua imaginação, mas… por que pensara aquilo? Por conta da descoberta sobre Tigraine? E aquilo era mesmo apenas sua imaginação, ou já seria a loucura?
— Chegou alguém que acho que o senhor devia ver — anunciou Bashere, aparecendo atrás de Rand de repente.
Rand se sobressaltou, desviando o olhar das mulheres no teto. Estivera mesmo encarando aquelas antigas rainhas? Bashere vinha acompanhado por um de seus cavaleiros. Um sujeito mais alto — coisa fácil perto de Bashere —, de barba e bigode escuros e olhos verdes oblíquos.
— Não verei ninguém, a não ser que seja Elayne — retrucou Rand, em um tom mais ríspido do que pretendia. — Ou alguém com provas de que o Tenebroso está morto. Vou passar a manhã em Cairhien.
A verdade é que não tivera qualquer intenção de viajar antes de as palavras saírem de sua boca. Mas lá poderia encontrar Egwene — e ficar longe das rainhas no teto.
— Já faz algumas semanas desde que apareci por lá. Se eu não ficar de olho, algum lorde ou lady vai acabar reivindicando o Trono do Sol pelas minhas costas.
Bashere olhou estranho para ele. Rand estava se explicando demais.
— Como quiser, mas acho que vai querer ver este homem primeiro. Ele diz que vem em nome de Lorde Brend, e acho que é verdade.
Os Aiel se levantaram no mesmo instante. Todos sabiam quem usava aquele nome.
Rand apenas encarou Bashere, surpreso. A última coisa que esperava era um emissário de Sammael.
— Traga o homem até mim.
— Hamad — disse Bashere, virando-se para o jovem que o acompanhava, e o saldaeano saiu depressa.
Alguns minutos depois, Hamad voltou trazendo um bando de saldaeanos desconfiados que escoltavam um sujeito. A princípio, nada no homem justificava todo aquele cuidado: ele não portava nenhuma arma visível, e seu estilo correspondia à moda de Illian — um casaco longo e cinza com o colarinho erguido e a barba encaracolada e cheia, mas sem bigode, além de ter um nariz curto e largo e ostentar um largo sorriso. Mas, quando o sujeito se aproximou, Rand notou que o sorriso nunca se alterava — todo o rosto do homem parecia congelado naquela expressão sorridente. Os olhos escuros, em contraste, se projetavam por trás daquela máscara de alegria forçada, e o medo neles era evidente.
Quando o homem estava a dez passadas de distância, Bashere ergueu a mão, e a guarda parou. O illianense, que encarava Rand, só percebeu a ordem de parada quando Hamad ergueu a espada e pressionou a ponta contra seu peito, forçando-o a parar para evitar ser atravessado pela arma. O homem simplesmente encarou a lâmina levemente sinuosa, então voltou os olhos aterrorizados para Rand, o sorriso ainda escancarado, os braços caídos ao lado do corpo. As mãos do sujeito tremiam na mesma intensidade da rigidez da expressão em seu rosto.
Rand começou a se aproximar do homem, mas Sulin e Urien se meteram entre os dois de repente — não bloquearam a passagem, não foi bem isso, apenas se posicionaram de modo que, para avançar mais, Rand teria que os empurrar ligeiramente para fora do caminho.
— O que será que fizeram com ele? — perguntou Sulin, examinando o sujeito. Donzelas e Escudos Vermelhos tinham saído de seus postos entre as colunas e se aproximado mais, alguns até de rosto velado. — Se não for uma Cria da Sombra, no mínimo foi tocado pela Sombra.
— Um sujeito desses deve poder fazer coisas que nem sequer imaginamos — comentou Urien, um dos Escudos Vermelhos que usava a tira de tecido escarlate presa à cabeça. — Talvez possa até matar com apenas um toque. Seria uma bela mensagem para um inimigo.
Nenhum dos dois o encarou, como se não falassem diretamente com Rand, mas ele assentiu. Talvez tivessem razão.
— Qual é o seu nome? — perguntou Rand ao homem.
Quando perceberam que ele ficaria onde estava, Sulin e Urien se afastaram um passo, indo um para cada lado.
— Eu, no caso, venho de… de Sammael — respondeu o sujeito, o sorriso ainda congelado no rosto. — Eu trago uma mensagem para… para o Dragão Renascido. Para o senhor, no caso.
Bem, era bem direto. Será que o sujeito era Amigo das Trevas, ou só mais uma pobre alma que Sammael aprisionara em uma de suas tramas hediondas de que Asmodean lhe falara?