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— Que mensagem? — perguntou Rand.

A boca do illianense se contorceu, como se ele tentasse resistir. O som que saiu não parecia nem de longe com a voz de antes: era mais profunda, mais confiante e com um sotaque diferente.

— Eu e você estaremos de lados diferentes quando chegar o Dia do Retorno do Grande Senhor, mas qual é o sentido de nos matarmos agora e deixarmos Demandred e Graendal disputarem o mundo sobre nossos cadáveres? — Rand reconheceu aquela voz de um dos fragmentos da memória de Lews Therin que tinham se fixado em sua mente. Era a voz de Sammael. Lews Therin rosnou, uma raiva sem palavras. — Você já tem bastante para digerir, para que pegar ainda mais? — prosseguiu Sammael, através do illianense. — E são bocados bem difíceis de mastigar, mesmo sem Semirhage ou Asmodean tentando lhe apunhalar pelas costas enquanto você está distraído. Eu proponho uma trégua, uma trégua que vai durar até o Dia do Retorno. Se você não agir contra mim, não agirei contra você. Eu me comprometo a não estender meus domínios a leste para além das Planícies de Maredo ou ao norte para além de Lugard e Jehannah, a noroeste. E que fique claro que estou deixando a maior parte do terreno para você. Não posso falar em nome dos outros Escolhidos, mas você pode ter certeza de que não tem o que temer de mim ou das terras sob meu domínio. Eu também me comprometo a não ajudar os outros em nada do que armem contra você, muito menos a se defenderem. Você tem feito um bom trabalho, retirando os Escolhidos do jogo. Não tenho dúvidas de que continuará muito bem, melhor até do que antes, agora que sabe que seu flanco sul está a salvo e que os outros lutam sem minha ajuda. Suspeito de que, no Dia do Retorno, restaremos apenas nós dois, como deve ser. Como está destinado a ser.

O illianense cerrou os dentes com um estalido, ainda se escondendo por trás daquele sorriso congelado. O brilho em seus olhos beirava a loucura.

Rand encarou o sujeito. Uma trégua com Sammael? Mesmo que pudesse confiar que o Abandonado fosse honrar a proposta, mesmo que isso significasse um perigo a menos até que desse conta dos outros… também significava que Sammael teria milhares de pessoas à sua mercê, e o Abandonado jamais se mostrara misericordioso. Rand sentiu a ira deslizando pela superfície do Vazio e só então percebeu que agarrara saidin. Aquela torrente abrasadora de doçura fétida e congelante parecia ecoar sua raiva. Lews Therin. Não era de se surpreender que aquela personalidade insana perdesse a cabeça. O eco da ira de Lews Therin ressoou na fúria de Rand, até que não dava mais para distinguir uma da outra.

— Leve esta mensagem de volta a Sammael — começou, a voz fria. — Vou cobrar o preço de cada morte que ele causou desde que despertou, é uma dívida. Vou cobrar o preço de cada assassinato que ele cometeu ou provocou, é uma dívida. Sammael escapou da justiça em Rorn M’doi, em Nol Caimaine e em Sohadra. — Eram lembranças de Lews Therin, mas a dor do que acontecera e a agonia que os olhos de Lews Therin tinham testemunhado queimavam no Vazio, como se fossem do próprio Rand. — Agora verei a justiça ser feita. Diga a Sammael que não há trégua com os Abandonados. Não há trégua com a Sombra.

O mensageiro ergueu a mão trêmula, secando o suor do rosto — não, não era suor: a mão ficou vermelha. Gotículas escarlate escapavam dos poros, e o homem tremia dos pés à cabeça. Hamad deu um passo atrás, surpreso, e não foi o único. Bashere cofiou o bigode, desconfortável, apertando-o bem entre os dedos, fazendo uma careta de dor em solidariedade. Até os Aiel encararam o sujeito. O illianense desabou, convulsionado, uma massa coberta de vermelho, o sangue formando uma poça escura e viscosa que se espalhava conforme o homem se debatia.

Recolhido à profundidade do Vazio, Rand apenas assistiu ao homem morrer, sem sentir nada. O Vazio isolava as emoções, e, além disso, não havia o que ele pudesse fazer. Mesmo que soubesse algo de Cura, não teria conseguido impedir aquilo.

— Eu acho — começou Bashere, hesitante — que Sammael saberá a resposta ao ver que o sujeito não vai retornar. Sei que há quem mate mensageiros que trazem más notícias, mas nunca ouvi falar de alguém que matasse os mensageiros para transmitir a má notícia.

Rand assentiu. Assim como quando descobriu a verdade sobre Tigraine, aquela morte não mudava nada.

— Mande organizarem o enterro. Uma prece não fará mal ao homem, mesmo que não vá adiantar de nada.

Por que as rainhas, nos vitrais coloridos, ainda o encaravam acusadoramente? Elas com certeza já tinham visto coisa pior, talvez até ali, naquela sala do trono. E ainda conseguia apontar na direção exata de Alanna, ainda podia senti-la — o Vazio não o protegia. Será que podia confiar em Egwene? Ela sabia guardar segredo.

— Talvez eu passe a noite em Cairhien.

— Um fim estranho para um homem estranho — comentou Aviendha, contornando o trono. Pequenas portas ocultas ali atrás levavam às salas de vestir, que davam para outros corredores.

Rand fez menção de se colocar entre ela e o corpo sobre os azulejos vermelhos e brancos, mas parou. Depois de uma olhada curiosa, Aviendha apenas ignorou o homem morto no chão. A ruiva tinha sido Donzela da Lança, decerto testemunhara tantas mortes quanto Rand. E, quando Aviendha enfim abriu mão da lança, já devia ter matado tantos homens quanto Rand vira morrer.

Era nele que a jovem estava concentrada, olhando-o de cima a baixo para garantir que não estava ferido. Algumas Donzelas sorriram e abriram caminho, empurrando alguns Escudos Vermelhos para o lado, mas Aviendha ficou parada, ajeitando o xale, só olhando. Rand teve vontade de abraçá-la ali mesmo e ficou feliz por poder se conter. Sabia que, apesar do que as Donzelas achavam, Aviendha só estava ali porque as Sábias a tinham mandado espioná-lo. Era bom saber que ela não o queria. O bracelete de marfim que Aviendha usava no braço, todo de rosas entalhadas entre espinhos, bem como ela, fora presente de Rand. Era a única joia que ela usava além de um colar de prata, uma corrente kandoriana intrincada, forjada em um padrão que chamavam de flocos de neve. Rand não sabia de quem fora aquele presente.

Luz!, pensou, enojado com o próprio comportamento. Queria Aviendha e Elayne, mesmo sabendo que não podia ter nenhuma das duas. Você é pior do que Mat sequer cogitou ser algum dia. Até mesmo Mat teria o bom senso de ficar longe das mulheres a quem poderia fazer mal.

— Também tenho que ir para Cairhien — declarou Aviendha.

Rand fez careta. Uma das vantagens de passar a noite em Cairhien seria dormir sem ela no quarto.

— Não tem nada a ver com… — começou a jovem, irritada, mas se conteve, mordendo o lábio inferior carnudo, um brilho estranho nos olhos verde-azulados. — Preciso falar com as Sábias, com Amys.

— Claro — concordou Rand. — Não vejo por que a impedir.

Além disso, talvez conseguisse deixá-la para trás, por lá.

Bashere chamou sua atenção, tocando seu braço.

— Você ia ver meus cavaleiros marcharem hoje à tarde. — O tom era displicente, mas os olhos oblíquos do general conferiam grande peso às palavras.

Era mesmo importante, mas Rand queria ir para longe de Caemlyn, de Andor.

— Amanhã. Ou depois.

Precisava ir para longe dos olhares daquelas rainhas, todas se perguntando se alguém de seu sangue teria coragem de destruir sua terra, como fizera com tantas outras. Luz, Rand tinha o sangue delas nas veias! E também precisava ficar longe de Alanna, mesmo que só por uma noite. Precisava ficar longe dela.

CAPÍTULO 17

A roda da vida

Com um breve fluxo de Ar, Rand apanhou o cetro e o cinturão ao lado do trono, então abriu o portão ali mesmo, diante da plataforma do trono — a barra de luz giratória foi se ampliando, abrindo-se para uma câmara vazia com paredes cobertas por painéis escuros. O aposento ficava a mais de seiscentas milhas de Caemlyn, no Palácio do Sol, o palácio real de Cairhien. A sala, reservada para que ele usasse justamente daquela maneira, não tinha nenhuma mobília, e tanto o chão de azulejos azul-escuros quanto os painéis de madeira da parede estavam lustrados e brilhantes. Apesar de não ter janelas, o lugar estava bastante iluminado — oito lampiões de chão dourados queimavam dia e noite, e os espelhos no aposento ampliavam o brilho das chamas a óleo. Rand fez uma pausa para afivelar a espada enquanto Sulin e Urien abriam a porta do corredor e conduziam Donzelas e Escudos Vermelhos velados adiante, à frente dele.