Rand achava a cautela dos Aiel ridícula. O largo corredor do lado de fora era a única forma de acesso ao aposento, e ele era constantemente guardado por cerca de trinta Aiel Far Aldazar Din, Irmãos da Águia, e quase vinte dos homens de Berelain, a Primeira de Mayene, todos com placas peitorais pintadas de vermelho e capacetes arredondados cujas abas, atrás, desciam quase até a nuca. Se havia um lugar no mundo onde Rand tinha certeza de que não precisava da escolta de Donzelas, era em Cairhien — e mais até do que em Tear.
Quando Rand saiu, viu um Irmão da Águia já no fim do corredor, indo anunciar sua chegada. Um mayenense ia atrás do Aiel mais alto, agarrado desajeitado à lança e à espada curta — ou melhor, um pequeno batalhão marchava atrás do Far Aldazar Din: serviçais nos mais variados uniformes; um Defensor da Pedra taireno metido em uma reluzente placa peitoral e um casaco preto e dourado; um soldado cairhieno com a frente da cabeça raspada e a placa peitoral bem mais surrada que a do taireno; duas jovens Aiel em saias pesadas e blusas brancas soltas, que Rand achou que reconhecia das aprendizes de Sábias. As notícias de sua chegada correriam depressa. Era sempre assim.
Pelo menos Alanna estava longe. Verin também, mas principalmente Alanna. Mesmo àquela distância, ainda tinha a vaga sensação de que a Verde estava em algum lugar a oeste. Era como sentir que havia alguém com a mão estendida parada a apenas um fio de cabelo de distância de sua nuca. Será que havia alguma forma de se livrar daquela mulher? Agarrou saidin outra vez, por um instante, mas não fez diferença.
Você nunca escapa das armadilhas em que se mete. O murmúrio de Lews Therin parecia confuso. Para destruir uma força, só uma força ainda maior, mas então você acaba preso outra vez. Preso para sempre, sem poder morrer.
Rand estremeceu. Às vezes parecia que a voz estava mesmo falando com ele. Se o que ela dizia ao menos fizesse sentido, vez ou outra, seria mais fácil tê-la dentro da mente.
— Vejo você, Car’a’carn — cumprimentou um dos Irmãos da Águia. O homem tinha olhos cinza na mesma altura dos de Rand e uma cicatriz branca cortava seu nariz, em forte contraste com o rosto bronzeado de sol. — Eu sou Corman, dos Mosaada Goshien. Que o dia lhe traga sombra.
Rand não teve chance de dar a resposta apropriada, pois o oficial de Mayene, um sujeito de bochechas rosadas, veio logo se enfiando entre os dois, empurrando o Aiel com um tranco dos ombros. Bem, não exatamente se enfiando: o sujeito era esguio demais para conseguir dar um tranco em alguém uma cabeça mais alto e com quase o dobro de largura no corpo, ainda mais se tratando de um Aiel — mas o mayenense talvez fosse jovem o suficiente para achar que podia. Ainda assim, ele se meteu na frente de Rand, ao lado de Corman, o capacete carmesim com uma única pluma vermelha enfiado debaixo do braço, duas asas trabalhadas nas laterais da redoma de metal.
— Milorde Dragão, sou Havien Nurelle, Lorde Tenente dos Guardas Alados, a serviço de Berelain sur Paendrag Paeron, Primeira de Mayene, e também a serviço do senhor.
Corman olhou de esguelha para o homem, contendo um sorrisinho.
— Vejo você, Havien Nurelle — respondeu Rand, solene, e o garoto piscou, surpreso. Garoto? Pensando bem, o tenente talvez não fosse muito mais novo que Rand, o que era um choque. — Se você e Corman puderem…
Ele de repente reparou que Aviendha tinha ido embora. Quase se matara tentando evitar aquela mulher, e, na primeira vez em que concordava em tê-la por perto, ela escapava de fininho assim que ele dava as costas!
— Levem-me a Berelain e Rhuarc — ordenou, com rispidez. — Se os dois não estiverem juntos, levem-me ao que estiver mais perto e vão atrás do outro.
Aviendha só podia ter corrido para as Sábias para relatar o que ele estava fazendo. Ah, mas dessa vez ele ia deixá-la para trás quando voltasse a Caemlyn.
Você quer o que não pode ter. E o que não pode ter é o que quer. Ao dizer isso, Lews Therin soltou uma risada maníaca. Sua presença já não incomodava Rand como antes. Não tanto. O fardo inevitável sempre pode ser carregado.
Corman e Havien deixaram seus homens para trás, conversando sobre quem estaria mais próximo, porém Rand ainda assim foi seguido por uma grande comitiva. As Donzelas e os Escudos Vermelhos o acompanhavam de perto, lotando o corredor com teto quadrado e abobadado. O ambiente parecia escuro, apesar dos lampiões de chão espalhados. Quase não havia cor, exceto em uma ou outra tapeçaria, e os cairhienos tentavam compensar a invasão de cores com muita rigidez nos bordados, fossem de flores, pássaros, cervos, leopardos caçando ou uma batalha de nobres. Os uniformes indicadores dos serviçais cairhienos, que saíam depressa do caminho, consistiam em listras coloridas nos punhos das mangas e a insígnia da casa a que serviam bordada no peitoral, no máximo uma gola ou as mangas nas cores da Casa e, muito raramente, um vestido ou casaco inteiro de um tom mais vívido. Claro que apenas os serviçais superiores usavam mais cores. Os cairhienos gostavam de ordem e desprezavam exageros. Poucas prateleiras espalhadas abrigavam ornamentos, uma vasilha dourada ou um vaso do Povo do Mar, mas tudo muito austero e trabalhado em linhas retas, sempre tentando disfarçar as curvas, caso houvesse alguma. Quando o corredor se abria para uma colonata de colunas retas, dava para ver, nos poucos jardins do andar de baixo, caminhos de sebe em ângulos precisos, cada canteiro do mesmo tamanho, cada arbusto e pequena árvore podados à perfeição e com o mesmo espaçamento. Se a seca e o calor tivessem permitido flores, Rand tinha certeza de que cada botão teria nascido em fileiras perfeitas.
Rand desejou que Dyelin pudesse ver aquelas vasilhas e vasos espalhados por ali. Os Shaido tinham levado tudo o que eram capazes de carregar no caminho do Deserto até Cairhien, então queimaram o que sobrara — um comportamento que violava o ji’e’toh. Os Aiel que seguiam Rand, os que tinham salvado a cidade, também pegaram algumas coisas, pois, pelas regras do povo do Deserto, a conquista de um lugar em batalha lhes dava a permissão de levarem um quinto de todas as riquezas e recursos — e nem uma colher a mais. Bael até concordara, relutante, em abster-se do quinto em Andor, mas Rand achou que ninguém poderia pensar que qualquer coisa tivesse sido tirada dali, não sem uma listagem.
Apesar de toda a discussão, Corman e Havien não conseguiram encontrar nem Rhuarc nem Berelain antes de os dois decidirem aparecer.
Os dois se aproximaram sozinhos por entre as colonatas, sem qualquer comitiva — o que só fez Rand se sentir como se estivesse liderando uma espécie de desfile alegórico. Rhuarc, em seu cadin’sor, com o cabelo ruivo escuro pontilhado de mechas grisalhas, avultava-se sobre Berelain, uma bela jovem de pele clara metida em um vestido azul e branco. O decote era tão baixo que Rand pigarreou e desviou os olhos quando ela se abaixou para uma mesura. Rhuarc, de shoufa enrolada no pescoço, não portava nenhuma arma além de uma pesada faca Aiel, enquanto Berelain usava o Diadema da Primeira de Mayene, um gavião dourado em pleno voo preso aos cabelos negros e brilhantes, que caíam em ondas por sobre os ombros nus.