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O rosto de Berelain assumiu uma expressão teimosa, e ela agarrou as saias com os punhos cerrados.

— É normal os jovens lutarem, isso sempre acontece — retrucou ela, com um tom tão condescendente que dava para esquecer que ela também era jovem. — Mas, desde que isso começou, mais nenhum morreu em duelo. Nenhum. Só isso já basta para deixá-los seguirem com essas ideias. Além do mais, já confrontei pais e mães e alguns poderosos que exigiam que suas filhas fossem mandadas de volta para casa. Não vou negar a essas jovens o que já lhes prometi.

— Pode ficar com elas. Deixe que aprendam a arte da espada, se é o que elas querem. Mas precisam parar de dizer que estão seguindo o ji’e’toh. Precisam parar com essa história de usarem roupas brancas e alegarem ser gai’shain. O que elas fazem é uma ofensa — respondeu Rhuarc, os frios olhos azuis fixos em Berelain. Mas os olhos grandes e escuros da Primeira de Mayene permaneceram cravados em Rand.

Rand hesitou apenas por um instante. Podia entender por que os cairhienos mais jovens estavam impressionados com o ji’e’toh — depois de serem derrotados duas vezes pelos Aiel em menos de trinta anos, eles decerto deveriam se perguntar se aquele seria o segredo da vitória, ou talvez achassem que as derrotas simplesmente fossem prova de que o estilo de vida Aiel era melhor. Era evidente que os Aiel estavam incomodados com aquele comportamento que viam como um escárnio de suas crenças, mas a verdade era que algumas das situações que levavam os Aiel a se tornarem gai’shain também eram bastante peculiares. Por exemplo, reclamar com um homem sobre seu sogro ou com uma mulher sobre sua sogra — que, na nomenclatura Aiel, eram chamados de segundo-pai ou segunda-mãe — era considerado ofensa o bastante para justificar desembainhar armas, a não ser que a nora ou o genro é que tivesse começado a reclamar do parente em questão. Se, em vez de iniciar um duelo, a parte ofendida tocasse a outra, seria como se ela tivesse tocado um inimigo armado sem o ferir — o que tocava ganhava muito ji e incorria em muito toh para seu oponente, que, por sua vez, podia exigir tornar-se gai’shain para atenuar o ganho de honra de quem o tocara e diminuir a própria obrigação. De acordo com o ji’e’toh, era obrigatório honrar qualquer exigência de se tornar gai’shain, então a pessoa poderia acabar trabalhando em servidão durante um ano e um dia apenas por ter falado da sogra de alguém. O que parecia tão tolo quanto o que os cairhienos estavam fazendo. No fim das contas, seria muito fácil de resolver: deixara Berelain no comando, então tinha que apoiá-la. Simples assim.

— Rhuarc, os cairhienos já ofendem os Aiel simplesmente por serem cairhienos. Deixe estar. Quem sabe eles não acabem aprendendo o suficiente para que vocês parem de odiá-los.

Rhuarc resmungou, amargo, e Berelain sorriu. Por um momento, a jovem pareceu prestes a dar a língua para o Aiel. Claro que fora apenas sua imaginação — Berelain era apenas alguns anos mais velha do que ele, mas já governava Mayene quando ele ainda pastoreava ovelhas em Dois Rios.

Rand mandou Corman e Havien de volta à guarda e continuou seu caminho com Rhuarc e Berelain de cada lado e o restante da comitiva logo atrás. Era praticamente um desfile, só faltavam os tambores e trompetes.

Mais atrás, o clangor das espadas de treinamento recomeçou. Era mais uma mudança, por menor que fosse. Nem mesmo Moiraine, que passara tanto tempo estudando as Profecias do Dragão, sabia se a nova Ruptura marcaria o começo de uma nova Era, mas não havia dúvidas de que Rand estava trazendo mudanças. Tantas por acidente, ao que parecia, quanto de propósito.

Quando chegaram à porta do gabinete que Berelain e Rhuarc dividiam — uma sala com paredes cobertas de painéis de madeira com entalhes de sóis nascentes, o que indicava que era usada pela realeza —, Rand parou e virou-se para Sulin e Urien. Se não conseguisse dispensá-los ali, com todos aqueles guardas, não ficaria livre em nenhum outro lugar.

— Pretendo retornar a Caemlyn amanhã, uma ou duas horas depois do nascer do sol. Até lá, visitem as tendas, vejam seus amigos e tentem não começar nenhuma rixa de sangue. Se fizerem muita questão, destaquem um de cada grupo para ficar comigo e me proteger dos ratos, mas duvido que haja qualquer coisa maior que isso disposta a me atacar, aqui.

Urien abriu um leve sorriso e assentiu, apesar de ter apontado para um cairhieno próximo, murmurando:

— Tem uns ratos grandes por aqui.

A princípio, Rand achou que Sulin fosse discutir, mas a mulher só sustentou aquele olhar inexpressivo por alguns momentos, antes de assentir — apesar da boca contraída. Ele com certeza ouviria bastante assim que se visse a sós com as Donzelas.

Era sua segunda vez no gabinete, mas Rand ainda ficava admirado com os contrastes do grande aposento. No teto alto de gesso trabalhado, linhas retas e ângulos marcantes formavam padronagens elaboradas, que desciam pelas paredes e marcavam o entorno de uma enorme lareira revestida de mármore azul-escuro. Uma mesa imponente coberta de papéis e mapas estava posicionada no centro do recinto, servindo como uma espécie de fronteira. As duas janelas altas e estreitas de um dos lados da lareira abrigavam vasos de barro em tamboretes baixos, com plantinhas cheias de botões diminutos vermelhos e brancos. Diante delas, do lado de lá da mesa, uma comprida tapeçaria exibia navios no mar, com homens puxando redes cheias de enchovas-pretas — a fonte da riqueza de Mayene. Um bordado ainda no aro, a agulha presa a um fio de linha vermelha pendendo do trabalho inacabado, jazia em uma poltrona alta e larga o bastante para Berelain se deitar, caso desejasse. No chão havia um único tapete, com desenho floral em vermelho e azul, e uma mesinha ao lado da cadeira sustentava uma bandeja de prata com uma jarra e cálices. Logo ao lado da bandeja, uma tirinha de couro trabalhada em ouro marcava um livro fino de encadernação vermelha, indicando o ponto onde Berelain parara de ler.

O chão do outro lado da mesa era coberto por camadas de tapetes menores de cores vivas e almofadas adornadas com borlas vermelhas, azuis e verdes. Uma bolsa de tabaco, um cachimbo de cano curto e um par de pinças jaziam ao lado de uma tigela de latão fechada, tudo sobre um pequeno baú com tiras de metal. Um baú maior, envolto por uma alça de ferro, apoiava uma escultura de marfim de algum animal desajeitado que Rand duvidava de que existisse. Cerca de vinte livros de todos os tamanhos possíveis, de edições de bolso a tomos tão grandes que até mesmo Rhuarc precisaria de ambas as mãos para sustentá-los, estavam alinhados no chão, ocupando toda a extensão da parede. Os Aiel fabricavam tudo de que precisavam no Deserto, exceto livros. Muitos mascates tinham feito fortunas negociando apenas livros com os Aiel.

— Pois bem — disse Rand, depois de ver a porta fechada, já a sós com Rhuarc e Berelain —, e como é que estão as coisas, de verdade?

— Estão como eu já disse — respondeu Berelain —, tão bem quanto se pode esperar. Cresceu o falatório sobre Caraline Damodred e Toram Riatin, mas o povo anda cansado demais para querer outra guerra tão cedo.

— Há boatos de que dez mil andorianos se juntaram a eles. — Rhuarc começou a encher o cachimbo, prensando o tabaco com o polegar. — Qualquer boato sempre multiplica as coisas por dez, quando não por vinte, mas mesmo assim é preocupante, se for verdade. Nossos vigias relataram que os números não são tão grandes, mas, se os deixarmos crescer, podem se tornar mais que um aborrecimento. A mosca-amarela é quase imperceptível, mas, se ela põe um ovo na sua pele, você acaba perdendo um braço ou uma perna antes mesmo de o ovo acabar de chocar… e isso se não morrer.