Rand soltou um grunhido. A rebelião de Darlin em Tear não era a única. A Casa Riatin e a Casa Damodred, as duas últimas a ocuparem o Trono do Sol, já estavam em uma rivalidade feroz antes de ele chegar, e era bem provável que voltassem à inimizade de antes assim que ele fosse embora. Ambas tinham deixado a rivalidade de lado, ao menos nas aparências — os cairhienos podiam ser completamente diferentes sob a superfície. Agora, seguindo o exemplo de Darlin, Toram e Caraline queriam reunir suas tropas em algum lugar que julgassem seguro — para tanto, tinham escolhido o interior mais distante possível da cidade: o sopé das montanhas da Espinha do Mundo. Juntas, as duas casas tinham reunido a mesma mistura que compunha as forças de Darlin, nobres quase sempre medianos, camponeses desalojados, alguns mercenários ultrajados com a situação e uns poucos milicianos. E aquilo talvez tivesse dedo de Niall, como no caso de Darlin.
Os sopés das montanhas não eram nem de longe tão impenetráveis quanto Haddon Mirk, mas Rand estava decidido a conter seus esforços: tinha vários inimigos, em muitos locais. Se parasse para matar a mosca-amarela de Rhuarc, um leopardo furtivo poderia lhe dar um bote. Queria acabar primeiro com os leopardos — se conseguisse descobrir onde estavam todos.
— E os Shaido? — perguntou, apoiando o Cetro do Dragão sobre a mesa, em cima de um mapa meio desenrolado do norte de Cairhien, com as montanhas que chamavam de Adaga do Fratricida. Os Shaido não eram um leopardo tão perigoso quanto Sammael, mas ainda eram um pouco maiores que o Grão-lorde Darlin ou que Lady Caraline. Berelain lhe entregou um cálice de vinho, que ele aceitou e agradeceu. — As Sábias já disseram alguma coisa sobre Sevanna e suas pretensões?
Achava que pelo menos uma ou duas poderiam investigar um pouco quando iam resolver suas questões de Sábias na Adaga do Fratricida — as Sábias dos Shaido com certeza faziam isso quando desciam para esses lados do Rio Gaelin. Mas não disse nada, claro. Os Shaido podiam ter abandonado o ji’e’toh, mas Rhuarc era muito tradicional em suas opiniões sobre espionagem. Claro que as Sábias tinham suas próprias opiniões, embora fosse impossível saber que opiniões eram essas, exatamente.
— Disseram que os Shaido estão construindo fortalezas. — Rhuarc fez uma pausa, pinçando um carvão em brasa do fornilho de latão cheio de areia e o levando até o cachimbo. Depois de acender o fumo, prosseguiu: — Elas não acham que os Shaido tenham qualquer pretensão de voltar à Terra da Trindade. Eu concordo.
Rand passou a mão livre pelo cabelo. Caraline e Toram infestando o interior, e os Shaido se assentando deste lado da Muralha do Dragão — uma mistura bem mais perigosa do que os problemas com Darlin. E a mão invisível de Alanna parecia sempre prestes a tocar sua nuca.
— Tem mais notícias boas?
— Temos conflitos em Shamara — respondeu Rhuarc, o cachimbo na boca.
— Onde?
— Shamara… Ou Shara. Esse povo dá vários nomes para a própria terra: Co’dansin, Tomaka, Kigali, vários outros. E qualquer um pode ser verdadeiro. Ou nenhum. É um povo que mente sem nem pensar. Se não tomar o cuidado de abrir cada rolo de seda que comprar, você corre o risco de descobrir que só a parte de fora é seda. E, quando encontrar o vendedor de novo, ele vai dizer que não o conhece ou que é a primeira vez que faz negócios na área. Se você insistir muito, os outros acabam matando o vendedor só para lhe tranquilizar, depois dizem que o sujeito era o único que podia tomar alguma providência em relação à seda e ainda tentam vender água como se fosse vinho.
— E por que os conflitos em Shara são boa notícia? — murmurou Rand.
Ele não estava realmente interessado na resposta, mas Berelain escutava com atenção. Só os Aiel e o Povo do Mar conheciam mais sobre as terras além do Deserto do que o marfim e a seda provenientes da região — as outras informações vinham das histórias em As Jornadas de Jain, o Viajante, fantasiosas demais para serem verdade. Mas, pensando bem, Rand se lembrava de alguma menção às mentiras do povo e aos vários nomes que davam àquela terra, mas, até onde lembrava, nenhum dos exemplos do livro coincidia com os de Rhuarc.
— Porque nunca há conflitos em Shara, Rand al’Thor. Dizem que as Guerras dos Trollocs chegaram até lá, mas, se houve alguma batalha desde então, não chegaram notícias aos pátios de troca. — Os Trollocs também tinham adentrado o Deserto Aiel durante aquela guerra. Desde então, as criaturas chamavam aquela região de Solo da Morte. Rhuarc continuou: — Na verdade, aqui fora não chegam notícias de nada daquelas terras. O povo diz que sempre foi uma só terra, e não muitas, como aqui, e que sempre houve paz. Quando você saiu de Rhuidean como Car’a’carn, a notícia se espalhou. E também havia menções do seu título entre os aguacentos daqui, “Dragão Renascido”. A notícia se espalhou dos pátios de troca, atravessando todo o Grande Fosso e os Penhascos da Aurora. — Os olhos de Rhuarc se mantiveram firmes e calmos; aquilo não o perturbava. — E as notícias agora voltam pela Terra da Trindade. Há conflitos em Shara, e os sharamanos nos pátios de troca perguntam quando é que o Dragão Renascido vai Romper o Mundo.
De repente, o vinho ficou amargo. Mais um lugar que, a exemplo de Tarabon e Arad Doman, mergulhara no caos só com o rumor de sua existência. Até onde ia sua influência? Será que, por causa dele, guerras das quais jamais saberia estavam se desenrolando em terras das quais ele jamais ouviria falar?
A morte se apoia em meus ombros, murmurou Lews Therin. A morte caminha em minhas pegadas. Eu sou a morte.
Rand estremeceu e pousou o cálice na mesa. Que preço aquelas Profecias cobravam, em todos aqueles versos grandiloquentes e insinuações tortuosas? Será que deveria acrescentar Shara — ou qualquer que fosse o verdadeiro nome daquela terra — à lista, junto com Cairhien e as outras? Será que devia contabilizar o mundo inteiro? Mas como, se nem ao menos conseguia ocupar Tear inteira, ou mesmo Cairhien? Aquilo levaria mais tempo do que uma vida inteira. E Andor… Ainda que estivesse destinado a destruir todas as nações, romper o mundo inteiro, preservaria Andor. Por Elayne. Daria um jeito.
— Shara, ou seja lá qual for o nome desse lugar, fica muito longe daqui. Daremos um passo de cada vez. E Sammael é nosso primeiro passo.
— Sammael — concordou Rhuarc.
Berelain estremeceu e esvaziou o cálice.
Passaram um tempo conversando sobre os Aiel a caminho do sul. Rand queria que o exército que estavam reunindo em Tear fosse grande o bastante para aniquilar de um só golpe o que quer que Sammael pusesse em seu caminho. Rhuarc parecia satisfeito, mas Berelain protestou, alegando que precisavam de mais gente em Cairhien — isso até Rhuarc mandá-la ficar quieta. A Primeira resmungou alguma coisa sobre o Aiel ser excessivamente teimoso, mas passou para o tópico seguinte, os esforços de reassentar os fazendeiros. Segundo seus cálculos, no ano seguinte não haveria mais necessidade de receberem grãos de Tear. Isso se a seca desse alguma trégua — se não desse, Tear não conseguiria suprir nem as próprias necessidades de grãos, muito menos exportar. E estavam começando a surgir os primeiros sinais da volta do comércio: mercadores chegavam de Andor, Tear e Murandy, descendo pelas Terras da Fronteira. Por falar no comércio, um navio do Povo do Mar ancorara naquela mesma manhã — Berelain achou estranho vê-los tão longe do mar, mas ainda assim eram bem-vindos.
A Primeira de Mayene ficou séria e concentrada, passando a falar mais depressa e dar voltas na mesa para alcançar uma ou outra pilha de papéis e enumerar o que Cairhien precisava comprar e o que podia pagar; o que tinha para vender agora e o que teria dali a seis meses ou um ano. O futuro dependia do clima, claro, mas ela não se demorou nos comentários sobre a seca, agindo como se não fosse uma questão tão premente — ainda assim, encarou Rand com um olhar firme que dava a entender que ele era o Dragão Renascido e que, se havia como refrear aquele calor, cabia a ele descobrir. Rand já a vira lânguida e sedutora, e também já lidara com Berelain assustada, desafiadora e arrogante, mas nunca a vira daquele jeito. Parecia outra mulher. Rhuarc, sentado em uma de suas almofadas, baforando o cachimbo, parecia se divertir com a cena.