— E você consegue pensar em alguma razão para romper os lacres?
Herid ergueu as sobrancelhas.
— Romper os lacres? Romper os lacres?! Por que alguém iria querer fazer isso? Só se fosse louco. Será que é possível romper os lacres, para começo de conversa? Acho que me lembro de ter lido em algum lugar que isso seria impossível, mas não me lembro de ter visto um motivo. O que o fez pensar em uma coisa dessas?
— Não sei.
Rand suspirou. No fundo da mente, Lews Therin entoava: Rompa os lacres. Rompa os lacres e acabe com tudo. Me deixe morrer para sempre.
Abanando-se distraidamente com a borda do xale, Egwene espiou os dois lados do corredor que cruzava, torcendo para não ter se perdido outra vez. Estava quase certa de que tinha e não ficaria nada satisfeita se fosse mesmo o caso. O Palácio do Sol tinha milhas de corredores, nenhum muito mais fresco do que lá fora, e ela não passara tempo suficiente ali para conhecer o caminho.
Havia Donzelas por toda parte, em grupos de duas e três — muito mais do que a comitiva que acompanhava Rand, e decerto muito mais do que o normal, quando ele não estava ali. Pareciam estar só passeando, mas havia algo de… furtivo nelas. Várias a conheciam de vista, e Egwene teria esperado algum cumprimento amigável, já que as Donzelas pareciam ter concluído que ser pupila das Sábias era muito mais importante do que ser Aes Sedai — como acreditavam que ela fosse —, tanto que Egwene já não era mais considerada Aes Sedai, e sim pupila. Ainda assim, elas pareciam tão surpresas em vê-la quanto um Aiel poderia parecer surpreso. As cabeças se balançando em cumprimento vinham um segundo depois, e elas seguiam seu caminho, apressadas, sem dizer uma palavra. Desse jeito, Egwene não tinha como pedir informações.
Em vez de perturbar as Donzelas, Egwene optou por franzir o cenho para um serviçal suado com listras azuis e douradas nos punhos das mangas, ponderando se o sujeito saberia ou não como chegar aonde ela queria ir — a dificuldade, claro, era que não sabia muito bem aonde queria ir. Pena que o sujeito estivesse tão visivelmente tenso, com tantos Aiel por perto. O criado, decerto cheio de caraminholas sobre as Donzelas na cabeça, disparou para longe assim que viu “uma Aiel” encará-lo de cenho franzido — ninguém nunca notava os olhos escuros de Egwene, característica que não era encontrada entre o povo do Deserto.
Ela bufou, irritada. Bem, não precisava de informação, afinal. Cedo ou tarde acabaria encontrando um corredor conhecido. Não havia por que voltar por onde viera, mas por qual dos outros três corredores devia seguir? Acabou se decidindo por um e seguiu adiante a passos firmes — tão firmes que até algumas Donzelas abriram caminho.
A verdade era que estava um pouco irritada. Teria sido ótimo ver Aviendha, depois de tanto tempo, mas a ruiva simplesmente a cumprimentara com um aceno de cabeça e se enfiara em uma reunião com Amys. Só com Amys, como Egwene logo descobriu, ao tentar ir atrás das duas.
Você não foi convocada, dissera a Sábia, com rispidez, enquanto Aviendha se sentava de pernas cruzadas sobre uma almofada, parecendo infeliz enquanto encarava as camadas de tapete no chão. Vá dar uma volta. E trate de comer. Você quer ser uma mulher ou um caniço?
Bair e Melaine tinham chegado depressa, convocadas por algum gai’shain, e Egwene foi excluída. Ver a fileira de Sábias sendo dispensadas ajudou a apaziguar o incômodo, mas só um pouco. Ela era amiga de Aviendha, afinal. Se a ruiva estava com algum problema, Egwene queria ajudar.
— O que você está fazendo aqui? — inquiriu Sorilea, atrás dela.
Egwene estava muito orgulhosa de si mesma. Virou-se, muito calma, para encarar a Sábia da Fortaleza Shende. Sorilea era uma Jarra Chareen de cabelos brancos e finos e rosto coberto de pele curtida e muito repuxada. Era uma mulher ossuda e forte que podia canalizar, apesar de ter menos força com o Poder do que a maioria das noviças que Egwene conhecera. Se ela estivesse na Torre, teria sido dispensada sem nem chegar a ser Aceita. Claro que a canalização não fazia muita diferença entre as Sábias — fossem quais fossem as misteriosas leis que as regiam, a liderança das Sábias sempre recaía para Sorilea quando a mulher estava por perto. Egwene achava que Sorilea conquistara essa posição apenas com a força de vontade.
Como a maioria das Aiel, Sorilea era uma boa cabeça mais alta que Egwene. A Sábia a encarou com seus olhos verdes e firmes, um olhar capaz de desestabilizar um touro. Egwene se sentiu aliviada, pois aquele era o jeito normal de Sorilea encarar a todos. Se a mulher quisesse ralhar com ela, as paredes já teriam desabado com a força de seu olhar, e as tapeçarias estariam em chamas, ou praticamente isso.
— Vim ver Rand — respondeu Egwene. — E a caminhada das tendas até aqui me pareceu um bom exercício.
Sem dúvida era um exercício melhor do que dar cinco ou seis voltas correndo ao redor das muralhas da cidade, o que os Aiel consideravam um exercício leve. Esperava que Sorilea não lhe perguntasse por que queria falar com Rand. Não gostava de mentir para as Sábias.
Sorilea a encarou por um instante, como se tivesse farejado um segredo oculto, então ajeitou o xale sobre os ombros estreitos e disse:
— Rand não está aqui, foi visitar a escola. Berelain Paeron achou que não seria sensato ir atrás dele, e eu concordo.
Egwene teve que se esforçar para manter a expressão tranquila. Nunca imaginara que as Sábias fossem gostar de Berelain, mas as Aiel a tratavam como uma mulher sensata e respeitável — o que não fazia o menor sentido para Egwene —, e não era porque Rand lhe conferira autoridade, já que os Aiel não davam a mínima para a autoridade de nenhum aguacento. Aquilo era ridículo. A Primeira de Mayene se exibia em trajes escandalosos e flertava sem o menor pudor — isso quando não fazia mais do que flertar, como Egwene acreditava. Não era nem de longe o tipo de mulher para quem Amys abriria um sorriso como se se tratasse de sua filha preferida. Muito menos Sorilea.
Sua mente, incontrolável, a fez pensar em Gawyn. Tinha sido apenas um sonho — e um sonho dele, aliás. Nada como o que Berelain fazia.
— Quando uma mulher cora sem qualquer motivo aparente, em geral é por causa de um homem — comentou Sorilea. — Quem atraiu seu interesse? Será que logo vamos vê-la pousar uma coroa nupcial aos pés dele?
— Aes Sedai quase nunca se casam — respondeu Egwene, em um tom frio.
A mulher de rosto curtido deu uma risada irônica, um som que lembrou tecido rasgando. As Donzelas e as Sábias — na verdade, todas as Aiel — podiam até considerar que Egwene não era Aes Sedai enquanto estudava com Amys e as outras, mas Sorilea ia ainda mais longe. A mulher parecia achar que Egwene de fato se tornara Aiel. Somado a isso, não havia nenhum assunto em que Sorilea julgasse não ter o direito de meter o bedelho.
— Mas você vai se casar, garota. Não é do tipo que vira essas Far Dareis Mai, que acham que a vida com os homens é, quando muito, um esporte feito a caça. Essas suas ancas foram feitas para ter bebês, e bebês você terá.
— Você sabe me dizer onde posso esperar por Rand? — perguntou Egwene, com a voz mais fraca do que gostaria.
Sorilea não era Andarilha dos Sonhos nem podia interpretá-los, e certamente não tinha o dom da Previsão, mas falava de um jeito tão decisivo que o que dizia parecia inevitável. Bebês de Gawyn. Luz, como teria bebês com Gawyn? As Aes Sedai nunca se casavam. Era raro um homem querer se casar com uma mulher que o deixaria tão vulnerável, se quisesse usar o Poder contra ele.
— Venha por aqui — apontou a Sábia. — É Sanduin, aquele Sangue Verdadeiro todo musculoso que eu vi perto da tenda de Amys, ontem? A cicatriz deixa o resto do rosto dele tão mais bonito…
Sorilea não parou de sugerir nomes enquanto conduzia Egwene pelo palácio, sempre espiando de rabo do olho para ver sua reação. A mulher também se esforçava ao máximo para listar os atributos de cada homem, e com certeza viu seu alvo corar várias vezes, já que essa lista incluía uma descrição dos corpos por baixo das roupas — coisa que sabia porque homens e mulheres Aiel compartilhavam as tendas de vapor.