— Mas você realmente fala umas bobagens, de vez em quando — resmungou Egwene. Era surpreendente, mas a falta de tempo para pensar ajudava na concentração. Ajeitando o xale com muito cuidado, ela se postou diante de Rand. — Sei que você gostaria de mais notícias de Elayne… — Por que ele assumira uma expressão tão triste, mas ao mesmo tempo gélida feito o inverno? Devia ser porque já fazia um bom tempo que não ouvia notícias da Filha-herdeira. — Duvido de que Sheriam esteja passando recados dela para você, quando se encontra com as Sábias. — Não houvera nenhuma mensagem, até onde ela sabia, embora fosse raro Rand aparecer em Cairhien em busca de recados. — É em mim que Elayne confia esse tipo de missiva. Posso trazer notícias dela para você, se convencer Amys de que eu estou forte o bastante para… para retomar meus estudos.
Desejou não ter hesitado, mas Rand já sabia demais a respeito de caminhar pelos sonhos, quiçá até de Tel’aran’rhiod. Quase tudo sobre aquele talento era segredo das Sábias, sobretudo das Andarilhas. Egwene não tinha o direito de revelar aqueles segredos.
— Vai me dizer onde está Elayne? — perguntou ele, com toda a naturalidade, como se pedisse uma xícara de chá.
Egwene hesitou, mas fizera um acordo com Elayne e Nynaeve — Luz, quanto tempo fazia? Mas o acordo ainda valia, afinal. Rand já não era o garoto com quem ela crescera — tinha virado um homem cheio de si, e, qualquer que fosse o tom que empregava àquela pergunta, seus olhos firmes exigiam resposta. Aes Sedai e Sábias juntas já eram uma mistura que gerava faíscas, mas botar Rand de frente com as Aes Sedai acabaria em um incêndio. Era preciso haver algum intermediário entre eles, e só elas três estavam disponíveis. Era inevitável, mas Egwene esperava que não acabassem chamuscadas no processo.
— Não posso lhe dizer isso, Rand. Não tenho o direito. Não é um segredo meu para contar. — E estava dizendo a verdade. Aliás, não era como se pudesse contar onde ficava essa Salidar, se tudo o que sabia era que as amigas estavam em uma cidadezinha depois de Altara, em algum ponto ao longo do Rio Eldar.
Rand se inclinou para a frente, determinado.
— Eu sei que ela está com as Aes Sedai. E você já disse que são Aes Sedai que me apoiam, ou que poderiam apoiar. Mas essas mulheres têm medo de mim? Dou minha palavra de que manterei distância, se o problema for o medo. Egwene, pretendo entregar o Trono do Leão e o Trono do Sol a Elayne. Ela tem direito aos dois, e Cairhien vai aceitá-la tão fácil quanto Andor. Eu preciso dela, Egwene.
A jovem abriu a boca… então percebeu que estava prestes a contar tudo o que sabia sobre Salidar. Cerrou os dentes na mesma hora, com tanta força que machucou a mandíbula, então se abriu para saidar. A doce sensação de vida, tão forte que sobrepujava tudo o mais, pareceu ajudar, e a vontade de falar foi se atenuando aos poucos.
Rand se sentou, com um suspiro, e Egwene o encarou de olhos arregalados. Uma coisa era saber que ele era o ta’veren mais forte desde Artur Asa-de-gavião, outra era ela própria se ver envolvida naquilo. Teve que fazer muito esforço para se impedir de envolver o tronco com os braços e estremecer.
— Você não vai me contar — declarou Rand. Não era uma pergunta. Ele esfregou os antebraços por cima das mangas da camisa, lembrando a Egwene que ainda estava abraçada a saidar. Ele estava tão perto que devia ter sentido um leve arrepio. — Acha que eu ia arrancar a resposta de você à força? — vociferou ele, irritado. — Eu sou algum monstro, para você ter que usar o Poder para se proteger?
— Eu não preciso de nada para me proteger de você — retrucou Egwene, com toda a calma que conseguiu reunir.
O estômago ainda se revirava um pouco. Aquele era Rand, um homem capaz de canalizar. Parte dela queria simplesmente cair no choro e sair contando tudo. Aquele ímpeto a deixava envergonhada, mas a vergonha não eliminava a vontade. Deixou saidar de lado, triste por sentir aquela pontinha de relutância em fazer isso. Mas de fato não importava: se chegassem a lutar, teria que ser rápida o bastante para blindá-lo, ou Rand a venceria tão fácil como em uma queda de braço.
— Rand, sinto muito por não poder ajudar, mas realmente não posso. E, mesmo assim, tenho que pedir outra vez sua ajuda. Mas você sabe que isso também o beneficiaria.
A raiva dele foi engolida por um sorriso enorme e inquietante. Era assustadora a rapidez com que ele mudava de humor.
— “Por um prato, um gato; por um gato, um prato” — citou Rand.
Mas por nada, nada, completou Egwene, em pensamento. Ouvia o ditado de Barca de Taren, desde menina.
— Então quebre esse seu prato na cabeça e depois enfie o gato nas calças, Rand al’Thor — retrucou, com frieza.
Conseguiu não bater a porta na hora de sair, mas foi por pouco.
Enquanto se afastava a passos largos, foi pensando no que faria. Precisava dar um jeito de convencer as Sábias de que estava pronta para voltar a Tel’aran’rhiod — oficialmente, por assim dizer. Cedo ou tarde, Rand encontraria as Aes Sedai de Salidar, mas seria de muita ajuda se conseguisse falar com Elayne ou Nynaeve antes disso. Estava um pouco surpresa em ver que Salidar ainda não tentara uma aproximação com Rand. O que estaria impedindo Sheriam e as outras? Bem, não podia fazer nada a respeito, e suas amigas decerto sabiam mais sobre o que estava acontecendo.
Mas havia uma coisa que estava ansiosa para contar a Elayne: Rand precisava dela. O apelo dele parecera mais sincero do que qualquer coisa que ele já dissera na vida. Isso deveria apaziguar as preocupações de Elayne a respeito de seu amor. Homem nenhum diria que precisava de uma mulher que não amasse, não com tamanha intensidade.
Rand permaneceu alguns instantes sentado, encarando a porta que se fechara atrás de Egwene. Ela estava tão diferente da garota com quem crescera. Naqueles trajes Aiel, Egwene conseguia fazer uma bela imitação de Sábia — exceto pela altura, talvez, mas era uma Sábia baixa e com grandes olhos escuros. Bem, Egwene sempre se dedicara a tudo de corpo e alma. Lembrou-se de que ela o encarara com a calma e frieza de uma Aes Sedai, agarrando saidar quando achou que estava sendo ameaçada. E era isso o que precisava manter em mente: não importava a roupa, o que Egwene queria ser era Aes Sedai. E ela guardaria os segredos das Aes Sedai, mesmo depois de Rand ter deixado bem claro quanto precisava de Elayne para garantir a paz de duas nações. Tinha que passar a pensar nela como Aes Sedai. Era um pensamento triste.
Cansado, Rand se levantou e botou o casaco de volta. Ainda tinha que ver os nobres cairhienos — Colavaere, Maringil, Dobraine e os outros. E os tairenos também — Meilan, Aracome e seu bando entrariam em desespero se ele passasse um instante a mais com os cairhienos do que com eles. E as Sábias também iam querer sua vez, assim como Timolan e os outros chefes de clã que estavam por ali e que ele ainda não encontrara naquele dia. Por que decidira sair de Caemlyn, mesmo? Bem, fora bom falar com Herid. As dúvidas que o homem levantou não tinham sido muito agradáveis de se pensar, mas era bom conversar com alguém que não parecia fixado no fato de que ele era o Dragão Renascido. E tivera um tempinho sem a comitiva permanente de Aiel. Precisava fugir mais.
Viu seu reflexo em um espelho com moldura dourada.