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— Pelo menos você não deixou Egwene perceber o quanto estava cansado — disse, para a imagem no espelho.

Era um dos conselhos mais sucintos que recebera de Moiraine: Nunca demonstre fraqueza. Só precisava se acostumar a pensar que Egwene agora também era uma das pessoas sobre quem Moiraine lhe avisara.

Sulin estava muito tranquila, acocorada no jardim logo abaixo dos aposentos de Rand al’Thor, aparentemente entretida com uma pequena brincadeira de girar a faca e acertar a ponta da lâmina no chão de terra. Um pio de coruja soou de uma das janelas, e Sulin se levantou de um pulo, praguejando, guardando a faca no cinto. Rand al’Thor saíra do quarto outra vez. Aquele tipo de vigília não adiantaria de nada. Se Enaila ou Somara estivessem ali, mandaria as duas segui-lo, mas em geral tentava protegê-lo desse tipo de bobagens, como protegeria um irmão-primeiro.

Sulin foi a passos rápidos até a saída mais próxima para se juntar às outras três Donzelas lá em cima e, fingindo caminhar a esmo, começou a explorar o labirinto de corredores em busca de Rand. Não importava o que o Car’a’carn quisesse: não podiam deixar que nada acontecesse ao único filho de uma Donzela que já havia voltado para elas.

CAPÍTULO 19

Questões de toh

Rand achou que conseguiria dormir bem aquela noite. Estava tão cansado que quase podia ignorar Alanna, e — mais importante — Aviendha estava nas tendas com as Sábias, e não se despindo para dormir sem nem se importar com sua presença, ou atrapalhando seu descanso com o som de sua respiração. Ainda assim, outra coisa o fez se revirar na cama: sonhos. Sempre blindava seus sonhos, querendo impedir a entrada dos Abandonados — e das Sábias —, mas a blindagem não podia impedir o que já estava lá dentro. Logo vieram os sonhos: gigantescas criaturas aladas planavam pelo céu — pareciam asas de pássaros gigantes, mas sem os pássaros —; grandes cidades com construções impossivelmente altas, as paredes reluzindo sob o sol; estranhos objetos em forma de besouro e de gotas d’água horizontais disparavam por entre as ruas. Já tinha visto tudo aquilo antes, nas visões do imenso ter’angreal de Rhuidean, onde ganhara as marcas dos Dragões nos braços. Sabia que se tratavam de coisas da Era das Lendas, mas aquele sonho era completamente diferente. Tudo parecia distorcido, as cores estavam… erradas, como se seus olhos não estivessem funcionando direito. As asas sho começaram a falhar e cair, cada uma causando centenas de mortes. As construções altas se despedaçavam, as paredes se estilhaçando feito vidro; incêndios engoliam as cidades; e a terra se movia em ondas, feito um mar revolto. E ele não parava de se ver frente a frente com uma bela mulher loura, notando enquanto o amor virava horror em seu rosto. Parte dele a conhecia. Parte dele queria salvá-la… salvá-la do Tenebroso, de algum mal, do que ele próprio estava prestes a fazer. Mas tinha tantas partes, a mente cindida em tantos fragmentos cintilantes, e todos aos berros.

Rand acordou no escuro, suando e tremendo. Sonhos de Lews Therin. Aquilo nunca tinha acontecido, ele nunca sonhara os sonhos do outro homem em sua mente. Ficou ali, deitado, esperando as horas passarem até o dia nascer, encarando o nada, com medo de fechar os olhos. Agarrou-se a saidin como se pudesse usá-lo para enfrentar aquele homem morto, mas Lews Therin continuou em silêncio.

Quando enfim viu uma luz fraca despontar nas janelas, um gai’shain adentrou o quarto em silêncio, trazendo uma bandeja de prata coberta com um pano. Quando viu Rand acordado, o homem não disse palavra, apenas fez uma mesura e saiu, tão silencioso quanto entrou. Sentiu cheiro de chá de groselha gelado, pão morno, manteiga, mel e o mingau quente que os Aiel comiam toda manhã — usando o Poder, conseguia sentir os cheiros tão bem como se o nariz estivesse colado na bandeja. Soltando a Fonte Verdadeira, Rand se vestiu e afivelou a espada. Nem tocou no pano que cobria a comida — não estava com fome. Metendo o Cetro do Dragão preso na dobra do cotovelo, ele saiu de seus aposentos.

Sulin, acompanhada por outras Donzelas, já estava de volta ao largo corredor, assim como Urien e seus Escudos Vermelhos, mas não eram os únicos. Uma aglomeração de pessoas lotava o corredor, um pouco atrás da escolta Aiel, e também havia gente mais para dentro do perímetro demarcado por sua guarda particular. Aviendha estava no meio de uma delegação de Sábias, com Amys, Bair e Melaine — e Sorilea, naturalmente —, além de Chaelin, uma Miágoma Fumaça Líquida, com mechas grisalhas nos cabelos de um tom escuro de vermelho, e Edarra, uma Shiande Neder que não parecia muito mais velha do que ele próprio, embora os olhos azuis já exibissem aquela calma inabalável e ela tivesse uma presença altiva o suficiente para fazer frente às outras Sábias. Berelain também estava com as mulheres, mas não se via Rhuarc ou qualquer outro chefe de clã — Rand já dissera aos homens o que tinha a dizer, e os Aiel não gostavam de prolongar debates. Mas por que as Sábias estavam ali? E Berelain? A Primeira de Mayene usava um vestido verde e branco cujo decote exibia uma bela extensão do colo pálido.

Também havia alguns cairhienos, todos fora do perímetro da guarda Aiel. Colavaere, cujo rosto de traços fortes não tivera a beleza diminuída pela meia-idade, havia prendido os cabelos escuros em uma elaborada torre de cachos e usava um vestido colorido por listras horizontais que iam da gola alta bordada em ouro até a bainha, abaixo dos tornozelos — mais listras do que qualquer um dos cairhienos presentes. Dobraine, o rosto duro e quadrado, usava a frente da cabeça raspada à moda militar local, seu casaco surrado nos pontos em que ficavam as alças de uma placa peitoral. Maringil, todo empertigado, não só não usava a cabeça raspada como seus cabelos brancos iam até os ombros, e seu sobretudo de seda escura, com quase tantas listras quanto o de Dobraine, ia até os joelhos e era tão elegante que poderia ser usado em um baile. Vinte ou mais nobres se apinhavam atrás deles, quase todos rapazes e moças mais jovens, mas poucos ostentavam uma quantidade de listras horizontais que sequer chegava à cintura.

— Que a graça ilumine o Lorde Dragão — murmuraram, levando a mão ao coração ou fazendo mesuras. — A graça nos honra com a presença do Lorde Dragão.

Os tairenos também estavam presentes. Grão-lordes e Ladies, sem os nobres menores — uns de chapéu de veludo pontudo e casaco de seda com mangas bufantes de cetim listrado; outros com uma espécie de beca de cores fortes adornada com um grande rufo de renda e barrete bem-ajustado cravejado de pérolas ou pedras preciosas. Todos prestando respeito ao Dragão Renascido e saudando-o com “Que a Luz ilumine o Dragão da Luz”. Meilan estava mais à frente, claro, um sujeito esguio, rígido e inexpressivo, com a barba grisalha e pontuda. Logo atrás estava Fionnda, muito séria e com olhos de aço, mas que não reduziam nem um pouco sua beleza, ao contrário dos sorrisos tímidos e afetados da graciosa Anaiyella, que de alguma forma a deixavam menos bonita. Não se via nenhum sorriso no rosto de Maraconn, com seus olhos azuis raros para um taireno, nem de Aracome, que parecia duas vezes mais esguio ao lado de toda a corpulência do careca Gueyam, ainda que fosse igualmente forte. Esses últimos três, assim como Meilan, tinham sido muito próximos de Hearne e Simaan. Rand não mencionara aqueles dois ou sua traição na noite anterior, mas tinha certeza de que era fato conhecido — assim como estava certo de que seu silêncio já produzia o efeito apropriado à consciência de cada um daqueles homens. Os tairenos já estavam acostumados com o que seu silêncio dizia desde que chegaram em Cairhien, mas, naquela manhã, encaravam Rand como se ele fosse ordenar a prisão de qualquer um deles a qualquer momento.

Na verdade, quase todo mundo parecia de olho em alguma outra pessoa. Uns tantos encaravam os Aiel com ansiedade, alguns menos ou mais bem-sucedidos em esconder a raiva. Outros observavam Berelain quase com a mesma atenção — Rand ficou surpreso em ver que, até nos homens que a encaravam —, mesmo os tairenos —, a suspeita vencia o desejo em seus olhos. A maioria, claro, olhava para ele — Rand era quem era, o que era. Colavaere alternava o olhar frio entre ele e Aviendha, mas encarar a outra mulher sempre fazia seus olhos se aquecerem de raiva — Colavaere guardava bastante mágoa, embora Aviendha parecesse ter se esquecido disso. Bem, Colavaere com certeza jamais esqueceria a surra que recebera da ruiva depois de ser encontrada nos aposentos de Rand, muito menos perdoaria o fato de aquilo ter se tornado de conhecimento geral. Meilan e Maringil evitavam cruzar olhares, deixando bem claro quanto estavam cientes da presença um do outro — ambos almejavam o trono de Cairhien e consideravam o outro seu principal rival. Dobraine estava atento a Meilan e Maringil, mas ninguém sabia o motivo. Melaine encarava Rand com os olhos de Sorilea pregados nela, e Aviendha encarava o chão, franzindo o cenho. Uma jovem cairhiena de olhos grandes usava o cabelo solto, cortado na altura dos ombros, em vez de armado em cachos elaborados, e portava uma espada presa em um cinturão sobre o vestido escuro de montaria, com apenas seis listras coloridas. Muitos dos outros não se davam ao trabalho de disfarçar os sorrisos de desprezo quando olhavam para ela, mas a moça sequer pareceu notar, enquanto alternava olhares de extrema admiração às Donzelas e de extremo medo do Dragão. Rand se lembrava dela: Selande, integrante do grupo de beldades que Colavaere achava que conseguiriam capturar o Dragão Renascido em suas tramoias, tendo persistido até Rand convencê-la de que não daria certo — com a ajuda não requisitada de Aviendha, infelizmente. Esperava que Colavaere agora o temesse o bastante para esquecer a vingança contra Aviendha, mas desejava poder convencer Selande de que ela não tinha nada a temer dele. Você não pode agradar a todos, dissera Moiraine. Não pode apaziguar todos os ânimos. Moiraine era uma mulher dura.