Aviendha ficou olhando com atenção enquanto ele abria o portão de volta para Caemlyn, bem dentro do Grande Salão. Ela sempre ficava muito atenta, mesmo sendo incapaz de ver os fluxos e as tramas. Ela própria já abrira um portão, mas fora em um instante de pânico, e ela não conseguia se lembrar de como fizera. Naquele dia, por alguma razão, o feixe de luz giratório a fez lembrar o que acontecera na ocasião: as bochechas bronzeadas coraram, e ela pareceu se recusar a olhar na sua direção. Tomado pelo Poder, Rand sentiu seu cheiro — o perfume herbáceo do sabão, um toque de um cheiro doce que ele não se lembrava de ter sentido antes. Foi a primeira vez que se sentiu ávido para se livrar de saidin, e foi o primeiro a adentrar o salão do trono vazio. Alanna pareceu desabar sobre ele, uma presença tão palpável como se estivesse diante dele. Reparou que a Verde tinha chorado. Seria porque ele tinha ido embora? Bem, que chorasse. Tinha que encontrar um jeito de se livrar dela.
As Donzelas e os Escudos Vermelhos não ficaram muito felizes por Rand ter ido na frente, naturalmente. Urien apenas grunhiu e balançou a cabeça em desaprovação. Já Sulin ficou muito pálida e ergueu-se nas pontas dos pés para encarar Rand nos olhos.
— O grande e poderoso Car’a’carn entregou sua honra para as Far Dareis Mai carregarem — praticamente sibilou a mulher, em um sussurro baixo. — Se o poderoso Car’a’carn morrer em uma emboscada enquanto estiver sob a proteção das Donzelas, não restará mais honra nenhuma às Far Dareis Mai. Se o conquistador Car’a’carn não se importa com isso, então talvez Enaila tenha razão. Talvez o todo-poderoso Car’a’carn não passe de um garoto mimado que precisa ser levado pela mão para não acabar caindo de um penhasco porque estava de nariz empinado em vez de olhar por onde anda.
Rand fechou a cara. Quando estavam a sós, ele apenas rangia os dentes e ouvia — e no geral ouvia ainda menos! —, em respeito à dívida que tinha com as Donzelas. Mas nem Enaila nem Somara o repreendiam daquele jeito em público. Melaine saíra depressa e já estava na metade do corredor, erguendo as saias, quase correndo — ao que parecia, ela mal podia esperar para restabelecer a influência das Sábias com Bael. Rand não sabia se Urien tinha ouvido a bronca, mas parecia bem concentrado em guiar seus Aethan Dor velados, que vasculhavam as colunas junto com as Donzelas — coisa que não precisavam de orientações ou guia para fazer. Aviendha, por sua vez, estava ali, parada, de braços cruzados, exibindo um misto de irritação e aprovação, e Rand não teve dúvidas de que ela ouvira cada palavra.
— O dia de ontem correu bem. De agora em diante, acho que dois guardas serão mais do que o suficiente — declarou, com a voz firme. Os olhos de Sulin quase saltaram das órbitas, e ela ficou sem palavras. Bem, depois de tirar poder dela, era melhor devolver um pouco, ou a mulher explodiria feito os fogos de artifício de um Iluminador. — Claro que será diferente quando eu sair do Palácio. Essa guarda que você vem me fornecendo será boa nessas ocasiões, mas quando eu estiver aqui, no Palácio do Sol ou na Pedra de Tear, dois na escolta já bastam — concluiu, e deu meia-volta enquanto Sulin ainda abria e fechava a boca, sem resposta.
Aviendha foi para o seu lado enquanto ele circundava o tablado dos tronos rumo às portinhas nos fundos. Tinha ido para lá, em vez de seguir direto para seus aposentos, na esperança de despistá-la. Mesmo sem saidin, sentia o cheiro dela — ou talvez fosse apenas a memória do cheiro. De todo modo, desejou estar com o nariz entupido e resfriado. Aquele perfume era bom demais.
Apertando o xale em volta do corpo, Aviendha mantinha o olhar fixo à frente, parecendo preocupada, e passou sem nem perceber quando Rand segurou a porta para um dos quartos de vestir com paredes cobertas de painéis com entalhes de leões — coisa que em geral despertava certa ira nela, no mínimo uma pergunta irritada sobre qual dos braços dela parecia quebrado. Quando Rand perguntou qual era o problema, a jovem levou um susto.
— Nada. Sulin estava certa. Mas… — Ela de repente abriu um sorriso enorme, mas meio relutante. — Você viu a cara dela? Sulin não ouve uma resposta dessas… desde nunca, eu acho. Nem Rhuarc fala assim com ela.
— Estou surpreso com esse seu apoio.
Aviendha o encarou com aqueles olhos enormes. Rand poderia passar o dia inteiro tentando decidir se eram mais azuis ou mais verdes… Não. Não tinha o direito de pensar nos olhos dela. Não importava o que havia acontecido logo depois de ela abrir aquele portão — para fugir dele, aliás. E também, principalmente, não tinha o direito de pensar no que acontecera entre os dois naquele dia.
— Ah, Rand al’Thor, você só me perturba — comentou ela, sem um pingo de irritação. — Luz, às vezes acho que o Criador fez você só para me causar problemas.
Rand quis retrucar, dizer que aquilo era apenas culpa dela própria. Mais de uma vez se oferecera para levá-la de volta para as Sábias, mesmo que na prática isso só servisse para fazê-las mandarem outra espiã em seu lugar. Mas, antes que ele pudesse abrir a boca, Jalani e Liah chegaram, seguidas de perto por dois Escudos Vermelhos — um deles era um sujeito grisalho, ostentando no rosto quase o triplo das cicatrizes na face de Liah. Rand mandou Jalani e o homem das cicatrizes de volta ao salão do trono, o que quase desencadeou uma briga — não da parte do Escudo Vermelho, claro: o homem apenas olhou para seu companheiro, deu de ombros e saiu. Jalani, no entanto, se empertigou.
Rand apontou para a porta que levava ao Grande Salão.
— O Car’a’carn espera que as Far Dareis Mai sigam para onde ele ordenar.
— Você pode ser um rei dos aguacentos, Rand al’Thor, mas não é rei dos Aiel. — A irritação evidente na voz de Jalani acabou com seu ar de dignidade, o que fez Rand notar como ela era jovem. — As Donzelas nunca vão desapontá-lo na dança das lanças, mas isto aqui não é a dança.
Mesmo tendo respondido, ela se retirou, parando apenas para trocar breves gestos com Liah, naquela língua de sinais das Donzelas.
Com Liah e o outro Escudo Vermelho, um homem louro e esguio chamado Cassin, quase uma boa polegada mais alto que ele, Rand atravessou o palácio depressa até seus aposentos. Com Aviendha, claro. Se achava que aquelas saias pesadas a deixariam para trás, estava muitíssimo enganado. Liah e Cassin montaram guarda no corredor, do lado de fora da enorme antessala, mas Aviendha entrou atrás dele. O cômodo tinha um friso de mármore com entalhes de leões, logo abaixo do teto alto, e as paredes eram cobertas de tapeçarias com desenhos de cenas de caça e montanhas enevoadas.
— Você não deveria estar com Melaine? Para cuidar desses assuntos das Sábias e tudo o mais?
— Não — retrucou ela, sem rodeios. — Melaine não ficaria muito feliz com minha interferência, não agora.
Luz, mas ele não ficaria feliz se ela não fosse logo embora. Rand largou o Cetro do Dragão sobre uma mesa com pés cobertos de entalhes dourados de vinhas, desafivelou o cinturão da espada e perguntou:
— Amys e as outras lhe contaram onde Elayne está?
Aviendha ficou um bom tempo ali, parada, no meio do piso de azulejos azuis, encarando-o com uma expressão indecifrável.
— Elas não sabem — disse, por fim. — Eu perguntei.
Rand tinha imaginado que ela perguntaria. Já fazia meses que Aviendha parara de falar em Elayne, mas, antes de ir a Caemlyn com ele pela primeira vez, uma em cada duas palavras que saíam de sua boca eram para lembrá-lo de que ele pertencia a Elayne — segundo a própria Aviendha, pelo menos, e ela já deixara bem claro que o que acontecera entre os dois do outro lado daquele portão não mudava em nada esse fato. Outra coisa que ficara bem clara é que aquilo decididamente não aconteceria de novo. Rand concordava com ela, e era pior que um porco pela ponta de arrependimento misturada à concordância. Ignorando todas as elegantes poltronas douradas, Aviendha se acomodou no chão, de pernas cruzadas, e ajeitou as saias graciosamente.