Выбрать главу

— Mas falaram de você — comentou.

— Ah, por essa eu não esperava — retrucou ele, irônico.

Para sua surpresa, Aviendha enrubesceu. Ela não era mulher de corar, e já era a segunda vez no mesmo dia.

— As Sábias contaram os sonhos que tiveram, e alguns lhe dizem respeito. — A voz dela começou a sair um pouco falha, até que Aviendha fez uma pausa para pigarrear, então o encarou com um olhar firme e determinado. — Melaine e Bair sonharam que você estava em um barco — contou, proferindo a palavra com estranheza, mesmo depois de tantos meses em terras aguacentas —, junto com três mulheres cujos rostos elas não conseguiram distinguir. E uma balança que pendia primeiro para um lado, depois para o outro. Melaine e Amys sonharam com um homem ao seu lado, encostando uma adaga em seu pescoço, mas sem você ver. Bair e Amys sonharam com você dividindo as terras aguacentas ao meio com uma espada.

Aviendha olhou de relance, os olhos cheios de desprezo, para a espada embainhada largada sobre o Cetro do Dragão. Desprezo, sim, muito, mas também um pouco de culpa. Ela lhe dera aquela espada, que já fora do Rei Laman. O presente viera cuidadosamente embrulhado em um cobertor, para que ela não tocasse na arma diretamente.

— Elas não conseguem interpretar os sonhos, mas acharam que você deveria saber — concluiu ela.

O primeiro era tão obscuro para ele quanto era para as Sábias, mas o segundo parecia óbvio: um homem que ele não podia ver atacando-o com uma adaga só podia ser um Homem Cinza. Eram almas entregues à Sombra — não apenas juradas, mas completamente entregues —, e podiam passar despercebidos mesmo quando encarados diretamente. Seu único propósito era matar. Como as Sábias não tinham conseguido entender uma mensagem tão clara? O último sonho também era bem claro, para sua infelicidade. E ele já estava dividindo as terras aguacentas: Tarabon e Arad Doman estavam em ruínas; as rebeliões em Tear e Cairhien a qualquer momento podiam deixar de ser apenas boatos; e Illian decerto logo sentiria o peso de sua espada. Isso sem falar no Profeta, espalhando os Devotos do Dragão por Altara e Murandy.

— Não vejo muito mistério em dois desses sonhos, Aviendha.

Ainda assim, a jovem apenas o encarou, descrente, enquanto ele explicava suas interpretações. Claro. Para Aviendha, se as Sábias Andarilhas dos Sonhos não conseguiam interpretar um sonho, então ninguém mais conseguiria. Rand soltou um grunhido frustrado e desabou em uma poltrona de frente para ela, perguntando:

— O que mais elas sonharam?

— Tem um outro sonho que eu posso contar, mas talvez não tenha muita relação com você. — O que significava que havia sonhos que ela não podia contar. Rand se perguntou por que as Sábias tinham discutido aqueles sonhos com ela. Aviendha não era Andarilha dos Sonhos. — As três tiveram o mesmo sonho, o que só torna seu significado mais especial. Elas sonharam com chuva — a palavra saiu com o mesmo estranhamento que “barco”, mais cedo. — Chuva saindo de uma tigela. E, em volta dela, há armadilhas e arapucas. Se for encontrada pelas pessoas certas, a tigela trará um tesouro que pode ser até mais impressionante do que ela própria. Mas, se cair nas mãos erradas, o mundo estará condenado. A chave para encontrar essa tigela é encontrar aquele que já não é.

— Já não é o quê? — Isso sem dúvida parecia o detalhe mais relevante. — É alguém que já morreu?

Os cabelos ruivos de Aviendha se balançaram sobre os ombros quando ela negou com a cabeça.

— Elas não sabem mais do que o que eu lhe disse.

Aviendha se levantou, para surpresa de Rand, ajeitando a roupa com aqueles movimentos mecânicos típicos das mulheres.

— Você… — Ele forçou uma tosse, cortando a frase no meio. Você tem mesmo que ir?, era o que estava prestes a perguntar.

Luz, queria que ela fosse. Cada minuto perto dela era uma tortura. Bem, poderia fazer o que era certo e bom para ele — e ainda melhor para ela.

— Você quer voltar para as Sábias, Aviendha? Retomar os estudos? Não tem muito por que você ficar mais tempo aqui comigo. Já aprendi tanto com você que é como se tivesse sido criado pelos Aiel.

Ela fungou, o que já era resposta suficiente, mas claro que não se conteve e respondeu:

— Você sabe menos que um garoto de seis anos. Por que um homem ouve a mãe-segunda antes da própria mãe, enquanto uma mulher ouve seu pai-segundo antes do próprio pai? Em que situação uma mulher pode se casar sem fazer a coroa nupcial? E quando uma senhora do teto precisa obedecer a um ferreiro? Se tiver uma gai’shain que faça prata, por que precisa permitir que ela trabalhe um dia para si mesma para cada dia que trabalhar para você? E por que o mesmo não se aplica a uma tecelã? — Rand pensou, buscando as respostas a fundo, para não precisar admitir que não sabia. Mas Aviendha remexeu o xale, como se tivesse esquecido que ele estava ali. — Às vezes o ji’e’toh rende ótimas piadas. Eu riria até morrer, se essa não fosse comigo. — Ela baixou a voz a um sussurro. — Vou ao encontro da minha toh.

Rand achou que a ruiva estivesse falando sozinha, mas respondeu mesmo assim. Com toda a delicadeza.

— Se você está falando de Lanfear, não fui eu que a salvei. Foi Moiraine. Ela morreu salvando todos nós.

A espada de Laman livrara Aviendha de sua única toh para com Rand, embora ele jamais tivesse compreendido qual era. Pelo menos da única obrigação que Aviendha sabia. Rezava para que ela jamais descobrisse a outra — Aviendha decerto acharia que tinha alguma dívida com ele, mesmo que Rand não enxergasse a questão dessa maneira.

Inclinando a cabeça e abrindo um sorrisinho, Aviendha olhou fundo nos olhos dele. A ruiva recobrara o autocontrole em um nível que deixaria Sorilea orgulhosa.

— Obrigada, Rand al’Thor. Bair sempre diz que de vez em quando é bom ser lembrada de que um homem não sabe tudo. Não se esqueça de me avisar quando pretende dormir. Não quero chegar muito tarde e acordá-lo.

Rand permaneceu parado, encarando a porta mesmo depois que ela saiu. Era mais fácil entender um cairhieno no Jogo das Casas do que uma mulher que não estava fazendo o menor esforço para ser enigmática. E suspeitava de que seus sentimentos por Aviendha, fossem lá quais fossem, complicavam ainda mais as coisas.

O que eu amo, eu destruo, comentou Lews Therin, com uma risada. O que eu destruo, eu amo.

Cale a boca!, pensou Rand, furioso, e a gargalhada insana morreu. Não sabia quem amava, mas sabia quem salvaria. De todas as ameaças, mas sobretudo de si mesmo.

Quando saiu para o corredor, Aviendha se encostou na porta, respirando fundo para se acalmar. Ou pelo menos para tentar se acalmar. O coração ainda tentava rasgar o peito e sair. Estar perto de Rand al’Thor doía como estar nua sobre uma cama de brasas, doía quase a ponto de lhe quebrar todos os ossos. Rand a fazia sentir uma vergonha que ela jamais pensou que sentiria. Era mesmo uma grande piada, como dissera, e parte dela queria mesmo rir. Tinha toh para com Rand, porém tinha muito mais para com Elayne. Rand apenas salvara sua vida — Lanfear a teria matado, não fosse por ele. E Lanfear queria mesmo matar Aviendha em especial, causando a maior dor possível. Lanfear sabia, de algum jeito. Mas, em comparação ao que incorrera com Elayne, sua toh para com Rand era um cupinzeiro aos pés da Espinha do Mundo.