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Cassin simplesmente olhou para ela. O corte do casaco que o sujeito usava informava que era Goshien, além de Aethan Dor, mas Aviendha não reconhecia o ramo. Ele continuou acocorado, as lanças apoiadas nos joelhos. O homem não sabia de nada, claro. Mas Liah abriu um sorriso encorajador demais para uma mulher que não conhecia, e astuto demais para alguém que não soubesse. Aviendha ficou chocada em perceber que estava pensando em como os Chareen — como indicava o casaco de Liah — tinham fama de dissimulados. Nunca pensara em qualquer Donzela como algo além de Far Dareis Mai. Rand al’Thor esgotara seu cérebro.

Mas ainda assim mexeu os dedos, irritada. Por que está sorrindo, garota? Não tem nada melhor para fazer?

Liah ergueu as sobrancelhas de leve, e o sorriso não diminuiu, apenas assumiu um ar divertido. Ela gesticulou em resposta. Quem você está chamando de garota, garota? Você ainda não é Sábia, mas não é mais Donzela. Acho que vai acabar trançando a alma em uma coroa e a deitando aos pés de um homem.

Aviendha deu um passo à frente, furiosa. Poucos insultos eram piores que aquele, para as Far Dareis Mai. Mas então se conteve. Se estivesse de cadin’sor achava que Liah não seria páreo para ela, mas, naquelas saias, seria derrotada. E pior: Liah decerto se recusaria a fazer dela gai’shain — e poderia muito bem fazê-lo, já que teria sido atacada por uma mulher que não era Donzela, mas ainda não era Sábia —, ou então acabaria exigindo o direito de surrar Aviendha diante de todos os Taardad que pudessem reunir — o que seria vergonha menor que a recusa, claro, mas ainda assim uma vergonha considerável. E pior de tudo: mesmo que Aviendha ganhasse, Melaine decerto escolheria uma punição para fazê-la lembrar que deixara a lança para trás, e ela acabaria desejando dez surras de Liah diante de todos os clãs. Nas mãos de uma Sábia, a vergonha era mais cortante que uma faca afiada. Liah não moveu um músculo sequer. Ela sabia de tudo isso tão bem quanto Aviendha.

— E agora vocês ficam se encarando… — comentou Cassin. — Um dia tenho que aprender essa sua língua de sinais.

Liah olhou de esguelha para ele, soltando uma risada animada.

— Você vai ficar bonito de saias, Escudo Vermelho, vou gostar de ver quando vier pedir para se tornar Donzela.

Aviendha soltou um suspiro de alívio quando Liah desviou os olhos dela. Naquelas circunstâncias, não teria podido desviar o olhar primeiro e ainda manter a honra. Sem nem pensar, fez com os dedos o sinal de agradecimento — o primeiro gesto da língua de sinais que uma Donzela aprendia, posto que era a frase que uma nova Donzela mais usava: Tenho toh.

Liah respondeu sem nem hesitar. Muito pequena, irmã-de-lança.

Aviendha sorriu agradecida quando Liah não acrescentou o dedinho em gancho que teria transformado o termo em zombaria, o que era sempre utilizado com mulheres que tinham abandonado a lança, mas ainda tentavam se comportar como se não tivessem.

Um serviçal aguacento vinha apressado pelo corredor. Mantendo oculto o desgosto que sentia por quem passava a vida servindo aos outros, Aviendha foi para o lado oposto, querendo evitar passar pelo sujeito. Matar Rand al’Thor satisfaria uma toh, enquanto matar a si mesma satisfaria a segunda, mas cada toh impedia uma dessas soluções. Não importava o que as Sábias dissessem, teria quer dar um jeito de pagar aquelas duas dívidas.

CAPÍTULO 20

Visitas do pouso

Rand tinha apenas começado a enfiar o tabaco de Dois Rios no cachimbo curto quando a cabeça de Liah apareceu pela porta entreaberta. Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, um criado de rosto redondo, usando um uniforme vermelho e branco, empurrou-a para abrir caminho e entrou, muito ofegante, desabando de joelhos diante de Rand. A Aiel encarava o sujeito, estupefata.

— Milorde Dragão — ganiu o criado, ainda sem ar —, os Ogier acabaram de chegar ao Palácio. Três deles! Servimos vinho e oferecemos um pouco mais, mas eles insistem que só querem ver o Lorde Dragão.

Rand manteve a voz calma, sem querer assustar o sujeito.

— Há quanto tempo você trabalha no Palácio…? — Além de usar o casaco do uniforme do tamanho certo, o sujeito não era jovem. — Acho que ainda não sei seu nome.

O criado ajoelhado arregalou os olhos.

— Meu nome? É Bari, milorde Dragão. É… trabalho aqui há… Milorde, fará vinte e dois anos na Noite Invernal. Milorde Dragão, e o Ogier?

Rand já fora duas vezes a um pouso Ogier, mas não sabia a etiqueta apropriada para recebê-los como convidados. Os Ogier tinham construído quase todas as grandes cidades, pelo menos as partes mais antigas, e de vez em quando ainda saíam dos pousos para realizar alguns reparos, mas ele duvidava de que um criado como Bari fosse ficar tão ansioso por qualquer visita menos importante que um rei ou uma Aes Sedai — ou talvez nem isso. Ele guardou o cachimbo e a bolsa de tabaco de volta no bolso.

— Então me leve até eles.

Bari se levantou de pé em um salto, quase dando pulinhos de ansiedade. Rand suspeitou de que tivesse tomado a decisão certa: o homem não demonstrou muita surpresa em ver o Lorde Dragão ir até os Ogier, em vez de mandar que viessem ao seu encontro. Ele deixou a espada e o cetro para trás — nada daquilo impressionaria os Ogier. Liah e Cassin o acompanharam, naturalmente, e pelo jeito Bari decerto teria ido correndo até os visitantes se não tivesse que ajustar o passo ao ritmo menos afoito de Rand.

Os Ogier aguardavam em um pátio, ao largo de uma fonte cheia de vitórias-régias, com peixes vermelhos e dourados nadando na base. Eram três: um homem de cabelos brancos usando um casaco comprido e aberto com botas altas de cano dobrado e duas mulheres, uma notavelmente mais jovem que a outra, ambas com saias cheias de bordados de vinhas e folhas, embora os bordados das roupas da Ogier mais velha fossem consideravelmente mais elaborados do que os da mais jovem. Os cálices de ouro, feitos para humanos, pareciam minúsculos em suas mãos enormes. Muitas das árvores ali no pátio ainda conservavam algumas de suas folhas, e o próprio Palácio também fornecia alguma sombra. Os Ogier não estavam sozinhos. Quando Rand chegou, viu Sulin e quase trinta Donzelas à volta deles, além de Urien, junto de cinquenta ou mais de seus homens. Os Aiel tiveram a delicadeza de fazer silêncio ao avistarem Rand.

— Seu nome é música para meus ouvidos, Rand al’Thor — disse o Ogier, a voz retumbante feito um trovão, então fez as apresentações.

Ele era Haman, filho de Dal, filho de Morel. A mais velha era Covril, filha de Ella, filha de Soong; e a mais nova era Erith, filha de Iva, filha de Alar. Rand se lembrava de ter visto Erith quando foi ao Pouso Tsofu, a dois dias de cavalgada intensa de Cairhien. Não tinha a menor ideia do que ela estava fazendo ali em Caemlyn.

Os Ogier faziam os Aiel parecerem pequenos; faziam até o pátio parecer pequeno. Haman tinha uma vez e meia a altura de Rand e a mesma proporção em largura, Covril era menos de uma cabeça — uma cabeça Ogier — mais baixa que seu companheiro. Até mesmo Erith era quase um pé e meio mais alta que Rand. Ainda assim, essa era a menor das diferenças entre os Ogier e os humanos à volta. Haman tinha olhos imensos e redondos feito xícaras de chá, um nariz largo que ocupava quase o rosto inteiro, e orelhas pontudas, cheias de tufos de pelos brancos e despontando no topo da cabeça, por entre os cabelos grisalhos. Ele usava um comprido bigode branco, e uma barba estreita brotava do queixo. As sobrancelhas chegavam até as bochechas. Rand não sabia dizer exatamente o que distinguia o rosto masculino dele das feições de Erith e de Covril — exceto pela barba e pelo bigode, claro, além de as sobrancelhas delas serem menores e menos espessas —, mas os rostos delas pareciam mais delicados. Mesmo que Covril tivesse uma expressão bastante rígida — a Ogier mais velha lhe parecia familiar, não sabia por quê — e Erith parecesse preocupada, com as orelhas caídas.