— Nós decidimos — começou Haman, muito rígido — aceitar sua oferta. Vamos acabar logo com esse passeio para eu poder retomar as aulas. E voltar ao Cepo. Hum, hum. Há muito a dizer sobre o senhor, diante do Cepo.
Rand não se importava se Haman dissesse ao Cepo que ele intimidara os três. Os Ogier mantinham distância dos homens, só aparecendo para efetuar reparos em antigos trabalhos de cantaria, e era improvável que pudessem influenciar a opinião de qualquer humano sobre ele.
— Ótimo — respondeu. — Vou mandar alguém buscar seus pertences na estalagem.
— Estamos com tudo bem aqui — anunciou Covril.
A mulher foi até o outro lado da fonte, agachou-se e pegou duas trouxas que os Ogier haviam escondido ali atrás. Qualquer uma daquelas trouxas seria uma carga bem pesada para um homem, mas ela entregou uma a Erith e pendurou a alça da outra nos ombros, acomodando-a enviesada no peito e apoiada nas costas.
— Imaginamos que, se Loial estivesse aqui — explicou Erith, ajeitando a trouxa —, já estaríamos com tudo pronto para voltar ao Pouso Tsofu sem mais demora. Se não o encontrássemos, estaríamos prontos para partir. Sem demora.
— Na verdade, o problema são as camas — confidenciou Haman, erguendo as mãos apartadas, formando entre elas um espaço do tamanho de uma criança humana. — Nos tempos antigos, todas as estalagens daqui de Fora tinham dois ou três quartos para Ogier, mas hoje em dia é uma dificuldade encontrar mobília para o nosso tamanho. É difícil de entender por quê. — Ele olhou os mapas marcados e soltou um suspiro. — Era difícil entender.
Rand esperou apenas por tempo suficiente para Haman apanhar a própria trouxa, então agarrou saidin e abriu um portão ali mesmo, ao lado da fonte. O buraco no ar exibia uma rua devastada, repleta de ervas daninhas e construções em ruínas.
— Rand al’Thor — chamou Sulin, entrando no pátio em um passo quase casual, à frente de um grupo de serviçais e gai’shain abarrotadas de mapas. Liah e Cassin estavam junto, com a mesma naturalidade fingida. — Você pediu mais mapas.
O olhar de Sulin para o portal era quase acusatório.
— Posso me proteger melhor lá sozinho do que com vocês — explicou Rand, com frieza. Não pretendia ser frio, mas, envolto no Vazio, não havia como a voz soar mais que fria e distante. — Não há nada que suas lanças possam combater, e há algumas coisas que as lanças não venceriam.
Sulin ainda exibia boa parte da irritação de mais cedo.
— Por isso mesmo deveríamos ir.
Aquilo não faria sentido para ninguém que não fosse Aiel, mas…
— Eu não vou discutir — declarou Rand. Sulin tentaria ir atrás, caso ele recusasse. Ela convocaria Donzelas que tentariam pular portal adentro, mesmo que a abertura já estivesse se fechando. — Imagino que todo o restante da guarda de hoje deve estar logo ali dentro, na próxima sala. Convoque todas com um assobio. Mas quero que todos fiquem perto de mim e tomem o cuidado de não tocar em nada. Seja rápida. Quero acabar logo com isso.
Suas lembranças de Shadar Logoth não eram nada agradáveis.
— Eu as mandei embora, como você insistiu — retrucou Sulin, indignada. — Conte devagar até cem.
— Dez.
— Cinquenta.
Rand assentiu, e a mulher remexeu os dedos. Jalani disparou para dentro, e Sulin remexeu as mãos outra vez. Três gai’shain, atônitas, largaram o monte de mapas que carregavam, ergueram os longos robes brancos e correram de volta para o Palácio por caminhos diferentes. As mulheres pareciam muito surpresas, e nenhum Aiel nunca demonstrava tamanha surpresa. Sulin nem esperou: já tinha desaparecido quando as gai’shain começaram a se afastar.
Quando Rand chegou a vinte, Aiel começaram a saltar pátio adentro, pulando pelas janelas, jogando-se das sacadas. Ele quase perdeu a conta. Todos estavam velados, e havia apenas algumas Donzelas. Os Aiel olharam em volta, confusos por verem apenas Rand e três Ogier, que olharam de volta para eles, curiosos. Alguns baixaram os véus. Os serviçais do Palácio se encolheram, aproximando-se uns dos outros de modo apreensivo.
O fluxo de Aiel continuou mesmo depois de Sulin voltar, o véu baixado, no exato instante em que ele chegou a cinquenta. O pátio estava tomado de Aiel. Logo ficou claro que a mulher espalhara a notícia de que o Car’a’carn estava em perigo, a única forma que encontrara de reunir lanças suficientes no tempo que lhe fora concedido. Os homens resmungaram, amargurados, mas a maioria logo concluiu que era uma boa piada, e alguns soltaram risadinhas e bateram as lanças nos broquéis. Ainda assim, nenhum foi embora. Eles olharam o portão e se endireitaram, agachados, tentando ver o que estava acontecendo.
Com os ouvidos aguçados pelo Poder, Rand ouviu Nandera, uma Donzela bem musculosa, ainda bela apesar dos cabelos mais grisalhos que louros, sussurrar para Sulin:
— Você falou com as gai’shain como se fossem Far Dareis Mai.
Os olhos azuis de Sulin encararam os verdes de Nandera com firmeza.
— Falei. Lidaremos com isso ainda hoje, depois que Rand al’Thor estiver seguro.
— Depois que ele estiver seguro — concordou Nandera.
Sulin logo destacou vinte Donzelas, inclusive algumas que tinham composto a guarda naquela manhã. Quando Urien começou a escolher seus Escudos Vermelhos, homens de outras sociedades insistiram para serem incluídos. Aquela cidade para além do portão parecia um lugar cheio de inimigos, e o Car’a’carn tinha que ser protegido. Na verdade, nenhum Aiel dava as costas a uma possibilidade de luta — e quanto mais jovens, mais provável que corressem atrás de uma. Uma nova discussão começou quando Rand declarou que não poderia haver mais homens do que as Donzelas — o que desonraria as Far Dareis Mai, posto que elas carregavam sua honra —, e que Sulin não poderia escolher mais nenhuma Donzela. Falara sério quando dissera que estava levando aqueles Aiel a um lugar onde nenhuma de suas habilidades de batalha poderia protegê-los, e cada um que levava era um a mais em quem ficar de olho. Claro que não explicou isso. Não havia como saber quem ficaria ofendido com aquilo.
— Lembrem-se de não tocar em nada — ressaltou, assim que todos foram selecionados. — Não peguem nada, nem mesmo tomem um gole de água. E fiquem sempre à vista. Não entrem em nenhuma casa, não importa o motivo.
Haman e Covril assentiram com vigor, o que pareceu impressionar mais os Aiel que as palavras de Rand. Bem, não importava. Bastava que ficassem impressionados.
O grupo cruzou o portal e adentrou uma cidade morta — uma cidade mais do que morta.
O sol dourado, já a mais de meio caminho do zênite, escaldava as ruínas grandiosas. Aqui e ali ainda havia imensos domos intactos sobre palácios de mármore claro, porém era mais comum ver construções sem teto, e na maioria dos casos restavam apenas as ruínas de algum fragmento curvo. Compridas passarelas sustentadas por colunas ligavam torres mais altas do que Cairhien jamais sonhara ter, algumas com extremidades irregulares. Por todo lado se viam tetos desmoronados das casas, além de tijolos e pedras espalhados pelas pedras rachadas do pavimento, resquícios de construções e muralhas desabadas. Fontes espatifadas e monumentos destruídos decoravam cada cruzamento. As imensas montanhas de entulho eram pontilhadas de árvores atrofiadas, morrendo pela falta de água. Ervas mortas revestiam as rachaduras das ruas e dos edifícios. Nada se movia — nem um pássaro, nem um rato, nem a brisa. O silêncio dominava Shadar Logoth. Onde a Sombra Espreita.
Rand deixou o portão se fechar. Nenhum Aiel baixou o véu. Os Ogier olhavam em volta, tensos, as orelhas bem para trás. Rand agarrou-se a saidin, naquela luta que, como dizia Taim, fazia o homem saber que estava vivo. Mesmo se não pudesse canalizar — especialmente nesse caso, talvez —, naquele lugar era bom ser lembrado de que estava vivo.