Выбрать главу

Aridhol era uma capital magnífica nos tempos das Guerras dos Trollocs, aliada de Manetheren e do restante das Dez Nações. Essas guerras duraram tanto tempo que faziam a Guerra dos Cem Anos parecer breve, e também davam a impressão de que a Sombra estava vencendo em todos os cantos e que cada vitória da Luz servia apenas para se ganhar tempo. Foi quando Mordeth tornou-se conselheiro de Aridhol e convencera o governante de que, para ganhar a guerra — para sobreviver à guerra —, a cidade teria que ser ainda mais forte que a Sombra, ainda mais cruel e menos confiável que a Sombra. E isso foi se estabelecendo aos poucos, até que, por fim, Aridhol se tornou um lugar tão tenebroso quanto a Sombra — se não mais. A Guerra dos Trollocs seguia, feroz, mas Aridhol voltou-se para si mesma — virou-se contra si mesma. Consumindo-se.

E algo foi deixado para trás. Algo que impedia qualquer um de voltar a viver ali. Até a menor pedrinha daquele lugar estava maculada com o ódio e a desconfiança que tinham assassinado Aridhol e deixado Shadar Logoth em seu lugar. Com o tempo, até a menor pedrinha deixava uma mácula própria.

E ali ainda resistia algo além da mácula, embora essa já fosse forte o suficiente para afastar qualquer homem são.

Rand girou o corpo bem devagar, mantendo-se no mesmo lugar, examinando cada janela como se fosse uma órbita oca, os olhos arrancados das construções. O sol ainda estava alto, mas ele já sentia os olhos invisíveis o observando. Quando passara por ali antes, a sensação só ficara forte daquele jeito depois de o sol começar a baixar. Muito mais do que a mácula persistia ali. Um exército de Trollocs morrera enquanto acampava ali, desaparecera por completo, deixando apenas manchas de sangue nas paredes — mensagens implorando ao Tenebroso que os salvasse. Shadar Logoth não era um bom local para se estar à noite.

Este lugar me dá medo, murmurou Lews Therin, por trás do Vazio. Você não fica com medo?

Rand ficou sem fôlego. A voz estava mesmo falando com ele? Fico.

A escuridão está aqui. Um negrume mais negro que o negro mais intenso. Se o Tenebroso escolhesse viver entre os homens, viveria aqui.

Sim. Viveria.

Preciso matar Demandred.

Rand ficou sem reação.

Demandred tem alguma ligação com Shadar Logoth? Com este lugar?

Eu agora me lembro de que matei Ishamael. A voz transmitia um quê admirado, como se acabasse de descobrir isso. Ele mereceu morrer. Lanfear também mereceu, mas fico feliz que não tenha sido por minhas mãos.

Será que a voz apenas parecia estar falando com ele, por acaso? Ou Lews Therin estava ouvindo, respondendo?

Como foi que eu… que você matou Ishamael? Me conte.

Morte. Quero a morte completa. Mas não aqui. Não quero morrer aqui.

Rand suspirou. Era apenas por acaso. Também não queria morrer ali. Um palácio próximo, com as colunas da frente quebradas, estava bem inclinado em direção à rua. Poderia desabar a qualquer momento, soterrando-os ali mesmo.

— Podem guiar — disse a Haman. E alertou os Aieclass="underline" — Lembrem-se do que eu disse. Não toquem em nada, não peguem nada e não sumam de vista.

— Não achei que estivesse tão ruim — murmurou Haman. — Quase abafa a sensação do Portal dos Caminhos.

Erith soltou um gemido de lamento, e Covril teria soltado outro, se não fosse tão altiva. Os Ogier eram muito sensíveis à atmosfera de um lugar. Haman apontou. O suor em seu rosto não tinha nenhuma relação com o calor.

— Por aqui.

O pavimento rachado estalava sob as botas de Rand feito ossos sendo esmigalhados. Haman conduziu o grupo pelas ruas e esquinas, passando por diversas ruínas, mas sempre seguro da direção. Os Aiel à volta avançavam nas pontas dos pés. Seus olhos, a única parte do rosto visível por entre as dobras dos véus negros, indicavam que não esperavam um ataque — para eles, o ataque já tinha começado.

Os olhos invisíveis que os observavam e as construções destroçadas trouxeram memórias que Rand preferia evitar. Fora ali que Mat iniciara a jornada que o levara à Trombeta de Valere — uma jornada que quase o matara, e talvez a mesma jornada que o conduzira a Rhuidean e ao ter’angreal do qual ele não queria falar. Ali, Perrin desaparecera quando todos foram forçados a fugir no meio da noite — quando Rand enfim o reencontrou, o amigo tinha olhos dourados tristes e segredos que Moiraine jamais revelara.

Ele próprio não escapara incólume, embora Shadar Logoth não o tivesse tocado diretamente. Padan Fain seguira todos até ali: Rand, Mat, Perrin, Moiraine, Lan, Nynaeve e Egwene. Padan Fain, o mascate que sempre visitava Dois Rios. Padan Fain, o Amigo das Trevas. Que agora, segundo Moiraine, era mais que Amigo das Trevas — algo pior. Fain seguira todos até Shadar Logoth, mas o que saiu de lá foi mais — ou menos — do que entrou. Padan Fain, ou quanto ainda restara dele, queria ver Rand morto. Já ameaçara todos os que Rand amava caso o garoto não fosse ao seu encontro. E Rand não fora. Perrin lidara com a ameaça e protegera Dois Rios, mas — Luz! — como doía. E o que Fain estava fazendo com os Mantos-brancos? Será que Pedron Niall era Amigo das Trevas? Se algumas Aes Sedai podiam ser, então o Senhor Capitão Comandante dos Filhos da Luz também podia.

— Lá está — anunciou Haman, e Rand levou um susto.

Shadar Logoth era o pior lugar do mundo para se perder em devaneios.

O Ancião estava parado onde já houvera uma praça enorme. Um dos cantos estava cheio de entulho enferrujado. No meio, onde talvez existisse uma fonte, havia uma cerca com filigranas de algum metal brilhante. Era da altura de um Ogier, e, ao contrário do restante dos escombros da cidade, permanecera intocada pela ferrugem. A cerca envolvia o que parecia uma pedra alta com entalhes de vinhas e folhas ao sabor da brisa — tinham sido esculpidas com tamanho esmero que parecia que a brisa logo voltaria a soprar. Pareciam tão bem-feitas que era uma surpresa notar seu tom cinza e pétreo, não verde. Era o Portal dos Caminhos, mesmo que não se parecesse com um portal.

— Derrubaram o bosque assim que os Ogier partiram para os pousos — resmungou Haman, irritado, as compridas sobrancelhas caídas. Mal esperaram uns vinte ou trinta anos para expandir a cidade.

Rand tocou a cerca com um fluxo de Ar, perguntando-se como transpor aquele obstáculo. Piscou, surpreso, quando a estrutura inteira se desfez em vinte ou mais pedaços, que desabaram com um estrépito que fez os Ogier darem um salto. Rand balançou a cabeça. Claro. Qualquer metal que tivesse sobrevivido tanto tempo sem o menor pontinho de ferrugem só podia ter sido feito a partir do Poder. Talvez fosse um resquício da Era das Lendas. Mas os fluxos que uniam as placas de metal já estavam enfraquecidos havia muito, só esperando um bom solavanco.

Covril botou a mão em seu ombro.

— Queria pedir que o senhor não abrisse. Loial com certeza lhe ensinou como fazer… ele sempre teve interesse demais nesse tipo de coisa. Mas os Caminhos são perigosos.

— Posso trancar — anunciou Haman —, para que não possa mais ser aberto sem o Talismã do Crescimento. Hum, hum. É bem simples. A solução é muito óbvia. — Mas ele não parecia ansioso por tentar, e nem fez menção de se aproximar do portal.

— Talvez o portal tenha que ser usado às pressas, sem que se tenha tempo de pegar um Talismã do Crescimento — explicou Rand.

Todos os Caminhos talvez tivessem que ser usados, a despeito dos perigos. Se pudesse dar um jeito de purificá-los… era um projeto quase tão ambicioso quanto o anúncio que fizera a Taim de que purificaria saidin.