Começou criando tessituras em torno do Portal usando todos os Cinco Poderes, erguendo as partes da cerca de volta para o lugar. Desde o primeiro fluxo que canalizou, sentiu que a mácula parecia pulsar dentro dele — uma vibração que aos poucos tomava seu corpo. Devia ser em resposta ao mal de Shadar Logoth, um mal ecoando o outro. Mesmo dentro do Vazio, ficou tonto com tantas reverberações, como se o mundo oscilasse sob seus pés. A sensação o deixou com ânsia, querendo vomitar tudo o que já comera na vida. Ainda assim, perseverou. Não podia botar homens de guarda ali, assim como não podia enviar batedores para explorar a cidade.
A trama que ele urdiu, para então inverter, era uma armadilha horrível, adequada para aquele lugar. Um selo de proteção da mais profunda e completa vilania. Podia erguer um selo contra humanos ou um selo contra Crias da Sombra, mas não os dois. Por aquele ali, humanos passariam incólumes, e talvez até os Abandonados conseguissem atravessar — e quem sabe não conseguiriam nem notar sua presença. Ainda assim, se alguma Cria da Sombra passasse por ali… bem, era a questão da vilania. A criatura não morreria imediatamente, e talvez até vivesse para transpor as muralhas da cidade. Tempo suficiente para chegar bem longe, sair dali e não servir de aviso para o próximo Myrddraal que passasse. Tempo suficiente para a debandada de um exército de Trollocs, talvez deixando alguns para trás pelo caminho. E seria uma morte cruel o bastante para um Trolloc. Fazer aquilo o enojava tanto quanto a mácula em saidin.
Trançar os últimos nós da trama e soltar saidin só lhe trouxe um pouco de alívio. O resíduo de podridão que sempre parecia persistir ainda pulsava, e Rand quase sentia como se o chão pulsasse debaixo de suas botas. Os dentes e as orelhas doíam. Mal via a hora de sair dali.
Respirou fundo e preparou-se para canalizar outra vez, abrir um portão… então parou, franzindo o cenho. Contou todos depressa, depois recontou, mais devagar.
— Está faltando alguém. Quem é?
Os Aiel levaram apenas um instante para conferir.
— Liah — anunciou Sulin, por baixo do véu.
— Ela estava logo atrás de mim. — A voz de Jalani era inconfundível.
— Talvez ela tenha visto alguma coisa. — Parecia ser a voz de Desora.
— Eu mandei todo mundo ficar junto! — A ira irrompeu pelo Vazio como ondas arrebentando contra um rochedo, espumando. Alguém estava faltando, e eles ainda encaravam a situação com a maldita frieza Aiel. Uma Donzela faltando. Uma mulher desaparecida em Shadar Logoth. — Ah, quando eu encontrar aquela… — Ele combateu a fúria que ameaçava engolir o vazio à sua volta, ganhando polegada a polegada de autocontrole. Queria era gritar com Liah até ela desmaiar, então mandá-la para Sorilea pelo resto de sua vida. Sua fúria era incandescente, assassina. — Dividam-se em pares. Chamem o nome dela, procurem por toda parte, mas não entrem em prédio nenhum, não importa o motivo. E fiquem longe das sombras. Aqui um homem pode morrer sem nem se dar conta. Todos vocês podem morrer sem nem se darem conta. Se virem Liah dentro de alguma construção, me chamem primeiro, mesmo que ela pareça completamente normal. Me chamem, a não ser que ela vá até vocês.
— Conseguiríamos procurar mais rápido sozinhos — sugeriu Urien, e Sulin assentiu em concordância. Houve acenos afirmativos demais entre os outros Aiel.
— Em pares! — Rand teve que lutar outra vez contra a fúria. Que a Luz queime essa teimosia Aiel! — Pelo menos assim cada um tem alguém de apoio. Façam o que eu digo na hora que eu digo, pelo menos uma vez na vida. Eu já estive aqui antes, sei um pouco mais do que vocês sobre este lugar.
Alguns minutos depois, quase todos gastos em um debate sobre quantos deveriam permanecer ao lado de Rand, vinte pares de Aiel se espalharam pela cidade em ruínas. Só uma ficou — Jalani, Rand achava, mas era difícil ter certeza por conta do véu. Pela primeira vez, a mulher não parecia nem um pouco satisfeita em vigiá-lo. Seus olhos verdes exibiam um brilho firme de contrariedade.
— Acho que podemos formar mais uma dupla — sugeriu Haman, olhando para Covril.
A Ogier assentiu.
— E Erith pode ficar aqui.
— Não! — gritaram Rand e Erith, quase no mesmo instante.
Os Ogier mais velhos se viraram, os rostos graves e cheios de desaprovação. As orelhas de Erith afundaram até quase a ponto de desabar.
Rand conteve o mau humor com mais firmeza. Antes, quando estava no Vazio, toda a raiva parecia permanecer em um lugar distante, ligada a ele por apenas um fio. Só que cada vez mais a raiva ameaçava arrebatá-lo, arrebatar o Vazio. O que poderia ser um desastre. Bem, fora isso…
— Peço desculpas. Não tinha o direito de gritar com o senhor, Ancião Haman, nem com a senhora, Oradora Covril. — Seria a forma apropriada de se dirigir a eles? Eram mesmo aqueles títulos, para início de conversa? Nada na expressão dos dois lhe deu qualquer resposta. — Agradeceria muito se permanecessem aqui comigo. Podemos procurar todos juntos.
— É claro — concordou Haman. — Não vejo como lhe oferecer mais proteção do que o senhor é capaz de oferecer a si mesmo, mas o pouco que tenho a lhe oferecer é sua. — Covril e Erith assentiram em aprovação. Rand não fazia ideia do que Haman estava falando, mas não parecia hora de perguntar, com os três parecendo preparados para protegê-lo. Não tinha dúvidas de que conseguiria manter os três a salvo, desde que não se afastassem.
— Contanto que siga suas próprias regras, Rand al’Thor. — A Donzela de olhos verdes de fato era Jalani, soando animada por não ter que ficar ali esperando.
Rand torceu para que os outros tivessem entendido bem o perigo daquele lugar.
A busca já começou frustrante. Percorreram as ruas vigiadas por olhos invisíveis de cima a baixo, por vezes escalando entulho, sempre gritando por Liah. Os berros de Covril faziam ranger as paredes inclinadas, e os de Haman arrancavam grunhidos abomináveis das ruínas. Não se ouvia resposta. Os únicos outros sons eram os gritos das outras duplas de busca e os ecos zombeteiros se dissipando pelas ruas. Liah! Liah!
O sol já estava quase a pino quando Jalani comentou:
— Não acho que ela teria vindo tão longe, Rand al’Thor. A não ser que estivesse tentando fugir de nós, coisa que não faria.
Rand, que examinava as colunas sombrias no topo de amplos degraus de pedra, tentando ver o interior de um amplo aposento mais adiante, virou-se para a Aiel. Até onde pudera ver, não havia nada ali além de poeira. Nenhuma pegada. Os olhos invisíveis tinham esvanecido — não pareciam ter ido embora, mas quase.
— Temos que procurar o máximo que der. Talvez ela… — Não soube como concluir a frase. — Não quero abandonar Liah aqui, Jalani.
O sol subiu mais ainda, então começou a descer. Rand estava no topo do que um dia fora um palácio, talvez um bloco inteiro de edifícios. Agora era uma colina, tão desgastada pelos anos que só o punhado de tijolos quebrados e os pedaços de madeira trabalhada despontando do chão seco davam indícios de que um dia fora outra coisa.
— Liah! — gritou, entre as mãos em concha. — Liah!
— Rand al’Thor! — chamou uma Donzela da rua de baixo, descendo o véu para que ele a reconhecesse. Sulin. Ela e sua dupla, ainda velada, estavam com Jalani e os Ogier. — Desça aqui.
Ele desceu depressa, fazendo subir uma nuvem de poeira e uma chuva de fragmentos de tijolo e pedras. Foi tão rápido que quase caiu duas vezes.
— Encontraram?
Sulin balançou a cabeça.
— Mas já teríamos encontrado, se ela estivesse viva. Liah não teria ido tão longe sozinha. Se alguém a levou, acho que a levou morta. Ela não cederia tão fácil. E, se está ferida a ponto de não conseguir responder a nossos chamados, isso também deve significar que ela está morta.
Haman soltou um suspiro triste. As compridas sobrancelhas das outras duas Ogier desabaram até as bochechas. Por alguma razão, seus olhares tristes e pesarosos se voltaram para Rand.