— Eu vou — respondeu Rand, sem rodeios. — Sigam com a Luz. — Tentou imprimir algum afeto ao que dizia, qualquer sentimento que fosse, mas não sabia se conseguira.
— Siga com a Luz — respondeu Haman, e as mulheres repetiram.
Os três Ogier deram as costas para o grupo, rumo à casa mais adiante. Mas nem mesmo Erith parecia acreditar que ele conseguiria seguir com a Luz.
Rand ficou um instante a mais ali, parado. Algumas pessoas tinham saído da casa e observavam os Ogier se aproximarem, mas os olhos de Rand estavam voltados para noroeste — não na direção de Campo de Emond, e sim da fazenda onde crescera. Dar meia-volta e abrir um portão para Caemlyn foi como arrancar o próprio braço — aquela dor seria um lembrete muito mais adequado da morte de Liah do que um mero arranhão.
CAPÍTULO 22
Rumo ao sul
Mat jogava as cinco pedras para cima, formando um círculo que girava suavemente logo acima das mãos — uma vermelha, uma azul, uma verde-clara e as outras duas com listras em padrões interessantes. Não parara de cavalgar enquanto jogava as pedras, conduzindo Pips com os joelhos, a lança de cabo preto enfiada atrás da cinta da sela, no lado oposto em que repousava o arco desencordoado. As pedras lembravam Thom Merrilin, que lhe ensinara a arte do malabarismo, e ele se perguntou se o velho ainda estaria vivo. Pouco provável. Parecia ter passado uma eternidade desde que Rand mandara o menestrel ir atrás de Elayne e Nynaeve, querendo que ele cuidasse das duas — se existiam duas mulheres que precisassem menos de cuidados, Mat não conhecia. Só sabia que não havia dupla de mulheres mais capazes de fazer um homem acabar morto simplesmente por não dar ouvidos a seus conselhos. Nynaeve se metia em tudo o que um homem fazia, dizia ou pensava e sempre puxava aquela maldita trança na cara de quem fosse, e aquela maldita Filha-herdeira sempre achava que conseguiria deixar as coisas do jeito dela se empinasse bem o nariz e explicasse o que queria tão mal quanto Nynaeve — mas com Elayne era ainda pior, já que, se a petulância gélida não desse certo, a garota sorria, deixando as covinhas à mostra, e esperava que acabassem cedendo só porque ela era bonita. Mat torcia para que Thom tivesse sobrevivido às duas. E torcia para que elas também estivessem bem, mesmo que não fosse se importar muito se tivessem se metido em apuros vez ou outra desde que partiram às pressas sabia lá a Luz para onde. Elas que vissem como era difícil não ter Mat sempre por perto para descascar os abacaxis — e não tinham agradecido nem uma única vez quando ele estava sempre lá para ajudar. E nem precisavam ter encontrado algum abacaxi muito grande, só algo difícil o suficiente para desejarem que Mat Cauthon estivesse ali para resgatá-las de novo, como o idiota que era.
— E você, Mat? — indagou Nalesean, puxando as rédeas para se aproximar. — Já pensou alguma vez em como seria ser Guardião?
Mat quase deixou cair as pedras. Daerid e Talmanes o encaravam, muito suados, esperando a resposta. O sol já deslizava em direção ao horizonte, e em pouco tempo teriam que parar. O crepúsculo parecia durar cada vez mais conforme os dias iam se encurtando, mas Mat queria já estar sossegado com seu cachimbo quando a noite enfim caísse. E, além do mais, aquele era o tipo de terreno onde era muito fácil os cavalos quebrarem as pernas, se viajassem no escuro. Os cavalos e os homens.
Vinham do norte, e o Bando se estendia atrás dele, patas de cavalos e pés humanos levantando um rastro de poeira. Os estandartes drapejavam ao vento, mas os tambores estavam quietos conforme o grupo atravessava as colinas baixas cobertas por um matagal esparso com aglomerados de árvores aqui e ali. Avançavam mais rápido do que Mat imaginara: fazia onze dias que tinham partido de Maerone, mas já estavam na metade do caminho — talvez um pouco além — para Tear. E só tinham gastado um dia inteiro com o descanso dos cavalos. Claro que não sentia a menor pressa para tomar o lugar de Weiramon, mas não conseguia deixar de se perguntar quanto mais conseguiriam percorrer se avançassem entre o nascer e o pôr do sol, caso precisassem. Até ali, o máximo que tinham conseguido era quarenta e cinco milhas de uma só vez. Claro que os carroções com mantimentos levariam metade da noite para alcançá-los, mas, nos últimos dias, os homens a pé tinham feito questão de demonstrar que conseguiriam acompanhar os cavalos ao longo da viagem, ainda que não se mantivessem emparelhados com os animais a todo momento.
Um pouco mais para trás, a leste, havia um grupo de Aiel no topo de uma elevação cercada por árvores, todos correndo sem a menor dificuldade, diminuindo a distância pouco a pouco. Deviam estar viajando desde o nascer do sol e era certo que continuariam avançando até o cair da noite — isso se não avançassem por mais tempo. Se passassem pelo Bando enquanto ainda houvesse luz para vê-los, seria um bom estímulo para os homens no dia seguinte. Sempre que os Aiel os ultrapassavam, os homens pareciam dispostos a tentar avançar uma ou duas milhas a mais no dia seguinte.
Algumas milhas à frente, os aglomerados de árvores iam se alargando até virarem outra vez uma floresta densa, então era melhor descerem para um pouco mais perto do Erinin antes de avançarem até a mata. Quando chegaram no topo de uma colina, Mat avistou o rio, onde os cinco barcos que haviam sido contratados ostentavam o estandarte da Mão Vermelha, enquanto outros quatro barcos — que transportavam principalmente forragem para os cavalos — voltavam a Maerone para serem recarregados. O que ele não conseguia avistar ainda, mas que sabia que estava lá, era as pessoas que andavam ao longo das margens, algumas rio acima, outras rio abaixo, e algumas mudando de direção sempre que encontravam um grupo liderado por alguém com alguma lábia. Umas poucas tinham carroças, que em geral eram puxadas por seus próprios donos, e outras tinham carroções, mas a maioria levava apenas o que podia carregar — até os salteadores mais obtusos já tinham aprendido que não havia por que gastar tempo com aquela gente. Mat não fazia ideia de para onde aquele povo ia — coisa que nem mesmo aquelas pessoas sabiam —, mas o fluxo de gente ainda era o suficiente para congestionar aquela trilha ridícula ao longo do rio, que muitos teimavam em chamar de estrada. O Bando ganhava tempo indo ali por cima. Se tentassem seguir pela trilha no mesmo ritmo, precisariam abrir caminho a pauladas.
— Um Guardião? — repetiu Mat, guardando as pedras no alforje. Conseguiria encontrar mais pedras daquelas em qualquer lugar que fosse, mas gostava das cores das que tinha. Também estava guardando uma pena de águia, uma pedra desgastada, branca como a neve, que, no passado, devia ser coberta de entalhes. Também ficara tentado a levar consigo um pedregulho que parecia ter sido a cabeça de alguma estátua, mas para isso precisaria de um carroção. — Nunca. São um bando de tolos, idiotas o bastante para se deixar serem arrastados pela orelha por uma Aes Sedai. De onde você tirou essa ideia de jerico?
Nalesean deu de ombros. Estava bastante suado, mas mesmo assim usava o casaco — que naquele dia era vermelho com listras azuis — abotoado até o pescoço. O casaco de Mat estava aberto, mas mesmo assim ele sentia como se estivesse assando ao sol.
— Acho que foi por causa das Aes Sedai ali perto — sugeriu o taireno. — Que me queime a alma, mas não dá para não pensar. Quer dizer, que me queime a alma, o que elas estão tramando?
Ele estava falando das Aes Sedai no outro lado do Erinin, que, segundo os batedores, estavam subindo e descendo o rio às pressas, um pouco mais rápido que os andarilhos na outra margem.
— O que eu acho é que é melhor não pensar nelas — retrucou Mat.
Através da camisa, tocou a cabeça de raposa de prata. Mesmo com ela, ficou feliz em saber que as Aes Sedai estavam do outro lado do rio. Alguns dos seus soldados viajavam naquelas embarcações, e, mesmo havendo poucas aldeias, seguiam as ordens de Mat e atracavam sempre que passavam por alguém na margem oposta, só para saber que notícias o viajante trazia. Até aquele momento, as notícias não tinham sido nada reveladoras e eram quase sempre desagradáveis. Aquele monte de Aes Sedai por ali era o menor dos problemas.