Vanin cuspiu por uma fresta entre os dentes, enojado.
— A gente sempre tem que expulsar esses daí antes que eles roubem muita coisa. E se a pessoa não ficar esperta, eles pegam as crianças e levam pra criar. E de vez em quando é preciso dar uns chutes para eles irem embora mais rápido, mas isso não se faz. Quem seria capaz de uma barbaridade dessas?
— Não sei. Ladrões, talvez.
De fato, os cavalos não estavam por ali. Mas ladrões sempre queriam apenas roubar, não matar, e nenhum Latoeiro resistiria, nem se quisessem levar sua última moeda e os fizessem tirar a roupa do corpo, do casaco às botas. Mat se obrigou a diminuir o aperto das mãos nas rédeas. Não havia para onde se virar sem esbarrar os olhos em uma mulher ou criança morta. Quem tinha feito aquilo, fosse quem fosse, não queria sobreviventes. Deu uma volta na área, bem devagar, tentando ignorar os guinchos dos abutres, que abriam as asas à sua passagem. O chão estava seco demais para exibir rastros precisos do que acontecera, mas, pelo que via, Mat achava que os cavalos tinham fugido por todos os lados, na hora da confusão. Voltou para perto de Vanin.
— Você poderia ter me contado — protestou. — Eu não precisava ver.
Luz, não precisava!
— Eu podia ter contado que não encontrei nenhum rastro — retrucou Vanin, virando o cavalo e avançando pelo regato raso. — Mas achei que o senhor precisava ver isto aqui.
O carroção tombado de lado fora quase completamente consumido pelo fogo, mas o anexo sobre rodas amarelas de aros vermelhos, onde ficava a cama, permanecera intacto. Um sujeito metido em um casaco escurecido pelas chamas, ainda com alguns pedaços remanescentes do tecido de um tom azul de doer os olhos, jazia estatelado contra a parede de madeira, uma das mãos coberta de sangue seco enegrecido e caída aberta para o lado. Ele escrevera uma mensagem no carroção intocado, e as letras trêmulas se destacavam, mais escuras que a madeira de fundo:
CONTE AO DRAGÃO RENASCIDO
Contar o quê?, pensou Mat. Que alguém assassinara uma caravana inteira de Latoeiros? Vai ver o homem tinha morrido antes de conseguir completar a frase. Não seria a primeira vez que um grupo de Latoeiros encontrava alguma informação importante. Se fosse uma história, o sujeito teria vivido por tempo suficiente para conseguir escrever aquele trecho vital que levaria à vitória do bem. Ora, fosse qual fosse a mensagem, ninguém àquela altura iria descobrir mais nenhuma palavra.
— Você estava certo, Vanin — concordou Mat. Então hesitou. Contar o que para o Dragão Renascido? Não tinha por que gerar ainda mais boataria. — Antes de ir embora, cuide de queimar o que resta desse carroção. E, se alguém perguntar, só o que tinha por aqui eram homens mortos.
E mulheres, e crianças.
Vanin aquiesceu.
— Esses selvagens imundos — resmungou, cuspindo outra vez pelo buraco do sorriso. — Acho até que pode ter sido um grupo deles.
O sujeito estava reclamando do grupo de Aiel que enfim os alcançara, cerca de trezentos ou quatrocentos homens. Vinham trotando encosta abaixo e cruzaram o regato a não mais que cinquenta passadas dos carroções. Alguns ergueram a mão em cumprimento. Mat não reconheceu nenhum rosto, mas muitos dos Aiel já tinham ouvido falar do amigo de Rand al’Thor, um sujeito de chapéu contra o qual era melhor não apostar. Depois de atravessado o regato e subido a encosta seguinte, os Aiel seguiram em frente — para eles, todos aqueles corpos podiam muito bem nem ter existido.
Malditos Aiel, pensou Mat. Sabia que os Aiel evitavam os Latoeiros, que os ignoravam. Não sabia bem por quê, mas aquilo…
— Mas acho que não foram eles — opinou. — Não se esqueça de tocar fogo no carroção, Vanin.
Talmanes e os outros dois estavam no mesmíssimo lugar onde os deixara, claro. Quando Mat contou o que havia à frente e explicou que precisariam designar alguns destacamentos para os enterros, os homens assentiram com tristeza. E Daerid resmungou, descrente:
— Latoeiros?
— Vamos acampar aqui — acrescentou Mat.
Esperava algum comentário em protesto — ainda havia luz para avançarem mais algumas milhas, e aqueles três também tinham se envolvido nos debates sobre quanto o Bando conseguiria avançar por dia, tinham até feito suas apostas. Mas Nalesean só respondeu:
— Vou mandar um homem ir lá embaixo dar um sinal para os navios, antes que se distanciem demais.
Talvez os três também se sentissem como ele. A menos que dessem uma grande volta para chegarem ao rio, não haveria como evitar ao menos a visão dos abutres espalhados pelo céu acima dos destacamentos. Só porque o sujeito já tinha visto a morte de perto não significava que ia querer ver uma coisa daquelas. Mat, de sua parte, achava que acabaria esvaziando o estômago se visse aqueles pássaros mais uma vez. Pela manhã, haveria apenas túmulos — e bem longe do alcance dos olhos.
Mas a cena não saía da cabeça, mesmo depois de sua tenda ter sido montada bem no topo daquela colina, onde talvez passasse uma brisa do rio, caso surgisse alguma brisa. Corpos destroçados por assassinos, bicados por abutres. Fora pior que na batalha contra os Shaido, nos arredores de Cairhien. Algumas Donzelas tinham morrido naquela batalha, mas Mat pelo menos não vira nenhuma, e não houvera crianças. Os Latoeiros não lutavam nem para defender a própria vida. Ninguém matava o Povo Errante. Mat mal tocou na sua porção de carne com feijão e se recolheu o mais cedo possível. Nem mesmo Nalesean queria conversar, e Talmanes parecia mais tenso do que nunca.
A notícia da matança se espalhara. Uma quietude inédita tomou o acampamento. Em geral, a escuridão da noite era cortada por pelo menos algumas gargalhadas, e muitas vezes as canções desafinadas e de gosto duvidoso quebravam o silêncio até que os porta-estandartes finalmente convenciam o grupo dos que não admitiriam estar cansados a irem dormir. Aquela noite era como nas vezes em que tinham encontrado uma aldeia que ainda não enterrara seus muitos mortos ou um grupo de refugiados assassinados enquanto tentavam evitar que bandidos levassem o pouco que possuíam. Poucos conseguiam rir ou cantar depois de cenas como aquelas, e quase sempre eram silenciados pelos outros.
Mat ficou deitado, fumando seu cachimbo enquanto a noite caía. A tenda estava fechada para visitas, mas o sono não viria, com tantas memórias de Latoeiros mortos — e outras memórias, mais antigas, de outros mortos mais antigos. Eram batalhas demais, mortos demais. Dedilhou a lança, tateando a inscrição na Língua Antiga ao longo do cabo preto.
Ficara com a pior parte daquele trato.
Depois de um tempo, Mat pegou um cobertor. Hesitou um instante, então pegou também a lança e saiu da tenda só com as roupas de baixo, o pingente de prata de cabeça de raposa em seu peito desnudo refletindo a luz da nesga de lua no céu. Uma leve brisa soprava, um discreto revolver do vento com um frescor mínimo que mal fazia o estandarte da Mão Vermelha tremular no mastro cravado no chão diante da tenda. Ainda assim era melhor do que lá dentro.
Mat estendeu o cobertor entre os arbustos e se deitou de peito para cima. Quando era garoto, às vezes se deitava ao relento e dormia identificando as constelações. Naquele céu claro, a lua, mesmo minguante, proporcionava luz suficiente para ofuscar quase todas as estrelas, mas ainda deixava algumas. Lá estavam a Carroça de Feno, bem acima de sua cabeça; assim como as Cinco Irmãs e, mais ao lado, os Três Gansos, indicando o norte. A constelação do Arqueiro, a do Fazendeiro, a do Ferreiro, a da Serpente — que os Aiel chamavam de Dragão. E também a do Escudo, que alguns chamavam de “Escudo de Asa-de-gavião” — ver aquelas estrelas o deixou meio agitado: em algumas das suas memórias, não gostava nem um pouco de Artur Paendrag Tanreall —, além de a do Cervo e a do Carneiro. Ah, e logo ali a da Xícara e a da Viajante, o cajado bem destacado.