Выбрать главу

Mat ouviu um barulho, mas não conseguiu identificar o que era. Se a noite não estivesse tão parada, o ruído tênue poderia não ter parecido furtivo, mas, com a calmaria, foi exatamente essa a impressão que passou. Quem estaria se esgueirando ali por cima? Curioso, Mat ergueu o tronco, apoiando-se só no cotovelo — e congelou.

Vultos se moviam ao redor de sua tenda, sombras ao luar. A lua iluminou um deles o suficiente para que Mat identificasse um rosto velado. Seriam Aiel? Como assim, pela Luz? Em silêncio, os vultos cercaram a tenda e se aproximaram cada vez mais. O brilho do metal reluziu na noite, e Mat ouviu o tecido ser rasgado, então todos sumiram de vista. Saíram da tenda apenas um momento depois, muito atentos ao acampamento em volta. Havia luz suficiente para notar sua inquietação.

Mat ergueu o corpo, mas permaneceu de cócoras. Se ficasse abaixado, talvez conseguisse escapulir sem ser ouvido.

— Mat! — gritou Talmanes, para o alto da colina. Pela voz, parecia bêbado.

Ficou imóvel. Talvez Talmanes fosse embora, se achasse que ele estava dormindo. Os Aiel pareciam ter desaparecido, mas Mat tinha certeza de que só haviam se abaixado exatamente onde estavam.

O som das botas de Talmanes contra o chão foi ficando mais perto.

— Tenho um pouco de conhaque aqui, Mat. Acho que você devia tomar um gole. É bom para os sonhos. Você não vai se lembrar de nenhum.

Mat se perguntou se, caso saísse correndo, os Aiel o ouviriam por cima do alarde de Talmanes. Estava a pouco mais de dez passadas dos homens adormecidos mais próximos — naquela noite, era o Primeiro Estandarte do Cavalo, os Raios de Talmanes, que ganharam a “honra” de cercá-lo naquela noite —, mas os Aiel estavam a menos de dez passadas, ao lado de sua tenda. Os homens do Deserto eram rápidos, mas, com duas passadas de vantagem, Mat achava que conseguiria ter cinquenta homens quase ao alcance quando os Aiel o alcançassem.

— Mat? Sei que que você não está dormindo. Vi sua cara, mais cedo. Vai melhorar depois que você matar os sonhos. Pode acreditar.

Mat ficou agachado, agarrando a espada, e respirou fundo. Só precisava de duas passadas de vantagem.

— Mat? — Talmanes estava mais perto. A qualquer momento, o idiota acabaria pisando em um Aiel. Acabaria com a garganta cortada, e os agressores não fariam nem um ruído.

Que a Luz o queime, Mat pensou. Só preciso de duas passadas.

— Às armas! — gritou, dando um pinote e se levantando de vez. — Os Aiel estão atacando! — Saiu correndo encosta abaixo. — Todos para o estandarte! Todos para a Mão Vermelha! Corram, seu bando de ladrões de tumba!

Aquilo acordou todos em volta — claro, o que mais poderia acontecer, com Mat berrando feito um touro no estouro da boiada? Ouviu gritos de todas as direções. Os tambores começaram a ribombar, os trompetes ressoavam em convocação. Homens do Primeiro Cavalo irromperam dos lençóis e saíram correndo em direção ao estandarte, espadas em riste.

Ainda assim, o fato era que os Aiel tinham uma distância menor a percorrer do que os soldados e sabiam o que estavam procurando. Por instinto, por sorte ou simplesmente por ser ta’veren — Mat com certeza não ouviu nada em meio àquele alvoroço —, algo o fez se virar justo no instante em que o primeiro vulto de véu apareceu atrás de si, como se brotando do ar. Não teve nem tempo para pensar. Bloqueou a investida de uma lança Aiel com o cabo de sua lança estranha, mas o sujeito defendeu o contra-ataque com um broquel e deu um chute na barriga de Mat. O desespero lhe deu forças para manter as pernas eretas, mesmo sem nenhum ar nos pulmões, e Mat desviou depressa para o lado, escapando de uma ponta de lança que tentava se enfiar entre suas costelas. Então passou o cabo de sua própria lança por trás das pernas do Aiel, derrubando-o, e enfiou a ponta da arma no coração do agressor. Luz, torcia para que fosse um homem.

Mat sacudiu a lança, soltando a lâmina bem a tempo de se defender do ataque seguinte. Eu devia ter fugido quando tive a chance! Começou a usar a lança feito um bastão, os golpes fluindo em movimentos mais rápidos e intensos do que em toda a vida, girando e bloqueando investidas de lanças Aiel. Não tinha nem tempo de contra-atacar. Eram muitos. Devia ter fechado essa minha matraca e dado no pé! Conseguiu recuperar o fôlego.

— Avancem, seus ladrões de ovelha com tripas de pombo! Estão surdos? Limpem esses ouvidos e venham logo!

Mat começou a se perguntar por que ainda não estava morto — tivera sorte na luta contra aquele primeiro Aiel, mas não havia sorte que desse conta daquilo tudo —, até que reparou que não estava mais sozinho. Viu um cairhieno magricela só de roupas de baixo cair ali perto, quase aos seus pés, com um grito estridente. O sujeito logo foi substituído por um taireno, a camisa solta tremulando, a espada rodopiando sem parar. Outros homens se amontoaram, aos berros de “Lorde Matrim, vitória!”; “Avante Mão Vermelha!” e “Matem esses vermes!”

Mat recuou, deixando os soldados darem conta daquilo. Tolo é o general que lidera na linha de frente. As palavras vinham de uma daquelas memórias antigas, a fala de alguém cujo nome não acompanhara a lembrança. Os homens morrem fácil, na linha de frente. Aquele pensamento era só dele, mesmo.

No fim das contas, foi mesmo uma questão de números. Eram pouco mais de dez Aiel contra várias centenas de homens, se não o Bando inteiro, que conseguiram chegar no topo da colina antes que a coisa toda terminasse. Os Aiel morreram e, como se tratava de Aiel, levaram quase vinte homens do Bando, deixando o dobro de gente ou até mais sangrando, mas ainda vivos para se lamuriar. Mesmo tendo passado pouco tempo em luta, Mat estava dolorido e sangrava de cinco cortes diferentes — e suspeitava de que pelo menos três precisariam de suturas.

A lança serviu bem como bengala quando Mat foi mancando até Talmanes, estirado no chão com Daerid amarrando um torniquete em sua perna esquerda.

Havia duas manchas escuras na camisa branca de Talmanes.

— Parece que Nerim vai ter outra chance de treinar suas mãos de costureira na minha pele — comentou, ofegante. — Que o queime, ele tem patas de touro.

Nerim era serviçal de Talmanes e remendava a pele de seu senhor com quase a mesma frequência com que remendava as roupas do nobre.

— Ele vai ficar bem? — perguntou Mat, baixinho.

Daerid deu de ombros. Estava só de bombachas.

— Acho que ele está sangrando menos que você. — Quando o sujeito ergueu a cabeça para responder, Mat notou que ele teria uma nova cicatriz para a coleção que ostentava no rosto. — Foi bom ter saído da frente deles, Mat. Ficou bem claro que vieram atrás de você.

— Que bom que não conseguiram o que queriam. — Talmanes se esforçou para ficar de pé, fazendo uma careta de dor enquanto se apoiava com o braço por sobre o ombro de Daerid. — Seria uma pena perder a sorte do Bando para uns selvagens que apareceram no meio da noite.

Mat pigarreou.

— Também fiquei pensando nisso.

Lembrou-se dos Aiel desaparecendo tenda adentro e estremeceu. Luz, por que aqueles Aiel queriam acabar com ele?

Nalesean apareceu, vindo de onde tinham disposto os corpos dos Aiel. Ainda estava com o casaco, apesar de desabotoado, e não parava de olhar feio para uma mancha de sangue na lapela — talvez fosse seu próprio sangue, talvez não.

— Que minha alma queime, sabia que mais cedo ou mais tarde esses selvagens iam nos atacar. Acho que eram parte daquele grupo que nos passou, mais cedo.

— Duvido — contestou Mat. — Se aqueles Aiel estivessem atrás de mim, teriam me enfiado num espeto e me colocado para assar no fogo antes que qualquer um de vocês notasse minha ausência. — Ele deu um jeito de ir mancando até os corpos dos Aiel e examinou um a um, usando a luz de uma lanterna que tinham trazido para ampliar sua visão à luz do luar. O alívio de encontrar apenas rostos masculinos quase fez seus joelhos bambearem. Não conhecia nenhum daqueles homens, mas de fato não conhecia muitos Aiel. — Devem ser Shaido — sugeriu, voltando com a lanterna para junto dos outros.