— Ao que parece, puseram cem guardas debaixo do teto de Arilyn — comentou Bair, depois de algum tempo. Então completou, em uma voz completamente sem emoção: — As Aes Sedai alegam que a situação na cidade ainda está instável, mas acho que estão com medo dos Aiel.
Olhares muito interessados surgiram em vários rostos — chegava a ser um pouco perturbador.
— Cem!? — exclamou Egwene. — Elas trouxeram cem homens?
Amys negou com a cabeça.
— Trouxeram mais de quinhentos. Os batedores de Timolan encontraram grande parte acampados a menos de meio dia de viagem a norte. Rhuarc mencionou os homens, e Coiren Saeldain explicou que eram uma guarda de honra, mas que tinham deixado a maioria esperando nos arredores da cidade para não alarmar ninguém.
— Elas acham mesmo que vão escoltar o Car’a’carn para Tar Valon. — Sorilea falava em uma voz tão dura que poderia rachar uma pedra, e sua expressão fazia o tom parecer bem suave. Egwene não fizera segredo do que dizia a carta de Elaida para Rand, e as Sábias pareciam gostar menos da mensagem a cada vez que a ouviam.
— Rand não é tolo o bastante para aceitar a oferta — declarou Egwene, mas não estava pensando na carta.
Quinhentos homens de fato poderiam ser apenas uma guarda de honra, e Elaida podia muito bem achar que o Dragão Renascido esperaria honrarias do tipo e ficaria até lisonjeado. Pensou em diversas possibilidades, mas precisava prosseguir com cuidado. Bastava uma palavra errada para que Amys, Bair ou, pior ainda, Sorilea — escapar dela era como tentar sair de um espinheiro — lhe dessem ordens que não seria capaz de obedecer se tivesse que dar conta do que só ela própria tinha como resolver. Ou que só ela estava disposta a resolver.
— Imagino que os chefes estejam de olho nesses soldados fora da cidade, certo? — Meio dia a norte estava mais para um dia inteiro de marcha, já que os soldados não eram Aiel. Era longe demais para representar qualquer perigo, mas um pouco de cautela nunca caía mal. Amys assentiu, e Sorilea olhou para Egwene como se ela tivesse perguntado se o sol ainda estaria no céu ao meio-dia. A jovem pigarreou. — Ah, claro que estão. — Era pouco provável que os chefes de clã fossem cometer um erro tão ingênuo. — Bem, tenho algumas sugestões. Se uma dessas Aes Sedai for ao palácio, algumas Sábias capazes de canalizar deveriam ir atrás, para garantir que ela não deixe nenhuma armadilha com o Poder.
As Sábias aquiesceram. Dois terços das presentes conseguiam manejar saidar. Algumas não tinham muito mais habilidade que Sorilea, mas outras tinham o mesmo nível de Amys, que era tão forte quanto a maioria das Aes Sedai que Egwene já conhecera. Era mais ou menos a mesma proporção dali para todas as Sábias dos Aiel. Suas habilidades eram bem distintas das Aes Sedai — sabiam menos de alguns aspectos e mais de outros, mas no geral era o mesmo nível de poder, apenas em áreas distintas. Ainda assim, era provável que as Sábias conseguissem detectar “presentes” indesejados.
— E temos que ter certeza de que vieram só seis representantes da Torre — completou Egwene.
Teve que explicar essa parte. As Sábias tinham lido livros de aguacentos, mas nem as capazes de canalizar conheciam os rituais que as Aes Sedai haviam desenvolvido para lidar com homens capazes de tocar saidin. Entre os Aiel, um homem capaz de canalizar acreditava ser um escolhido e partia para o norte, para a Praga, caçando o Tenebroso. Nenhum nunca voltava. A própria Egwene não sabia dos rituais até ir para a Torre. Era raro as histórias que ouvira quando criança terem qualquer relação com a realidade.
— Rand consegue dar conta de duas mulheres de uma só vez — declarou Egwene, e sabia disso por experiência própria. — E pode ser que dê conta de seis. Mas, se estiverem em maior número do que afirmam, seria no mínimo prova de que mentiram, mesmo que apenas por omissão.
Quase se encolheu diante das testas franzidas daquelas mulheres. Quem mentia incorria em toh para com qualquer um que ouvisse a mentira. No seu caso, a mentira era inevitável. Era mesmo.
Durante todo o restante do café, as Sábias decidiram quem iria ao palácio naquele dia e quais chefes poderiam ser confiados para escolher homens e Donzelas para vasculharem a cidade em busca de mais Aes Sedai. Alguns poderiam relutar em agir contra qualquer Aes Sedai, não importava como — as Sábias não declararam isso, apenas deram a entender pelas coisas que diziam, e sempre com amargor —, e outros talvez acreditassem que qualquer ameaça ao Car’a’carn, mesmo por parte das Aes Sedai, seria mais bem resolvida com a lança — e algumas Sábias também pareciam partilhar daquela opinião. Sorilea recusara com muita ênfase as sugestões evasivas de que esse problema seria resolvido se Aes Sedai simplesmente não estivessem mais na cidade. No fim das contas, Rhuarc e Mandelain, dos Daryne, foram os dois únicos chefes de Clã que todas concordaram em chamar.
— Mas fiquem atentas para eles não escolherem nenhum siswai’aman — advertiu Egwene.
Os siswai’aman, a lança do Dragão, com certeza recorreriam à violência ao menor sinal de ameaça. O alerta lhe rendeu muitos olhares, tanto inexpressivos quanto irônicos — as Sábias são eram tolas. Ainda assim, Egwene estava incomodada com uma coisa: nenhuma delas mencionou o que já estava tão acostumada a ouvir quase sempre que o povo do Deserto mencionava as mulheres da Torre: no passado, os Aiel tinham falhado com as Aes Sedai e seriam destruídos se falhassem de novo.
Exceto por aquele único comentário, Egwene se manteve de fora da discussão, ocupando-se de uma segunda tigela de mingau — dessa vez com pera seca junto das ameixas —, o que gerou um meneio de aprovação de Sorilea. Mas não buscava aprovação de Sorilea — estava com fome, verdade, mas queria mesmo que aquelas mulheres esquecessem que ela estava ali. Pareceu funcionar.
Depois de encerrados o café da manhã e as discussões, Egwene voltou para sua tenda e se agachou junto da aba, do lado de dentro, observando um pequeno grupo de Sábias que partia rumo à cidade, lideradas por Amys. Quando as mulheres cruzaram o portão mais próximo, Egwene deu um pinote e saiu outra vez. Havia Aiel por toda parte, gai’shain e outros, mas todas as Sábias estavam em suas tendas, e ninguém pareceu olhá-la quando saiu andando para a muralha, tentando não caminhar rápido demais. Se alguém a notasse, poderia pensar que ela só estava fazendo seu exercício matinal. O vento aumentou, soprando ondas de poeira e resquícios das cinzas de Portão da Frente, mas ela manteve o ritmo. Estava apenas se exercitando.
Na cidade, a primeira pessoa para quem ela pediu informação, uma mulher magrela vendendo maçãs murchas a um preço exorbitante, não soube dizer o caminho para o palácio de Lady Arilyn. Nem a segunda, uma costureira rechonchuda que arregalou os olhos ao ver o que parecia uma Aiel entrando em sua loja, muito menos o cuteleiro meio careca que achou que Egwene estaria muitíssimo interessada em suas facas. Por fim, conseguiu a informação com uma prateira de olhos estreitos que a encarou com muita atenção durante todo o tempo que ela passou na loja. Egwene balançou a cabeça, desapontada, enquanto avançava a passos largos por entre a multidão. Às vezes esquecia como era grande uma cidade do porte de Cairhien — grande a ponto de que nem todo mundo saber onde ficava cada lugar.
Tão grande era a cidade que Egwene acabou se perdendo três vezes e precisou pedir informação a duas outras pessoas antes de acabar se esgueirando pela lateral de um estábulo que alugava cavalos, espiando o outro lado da rua. Sua atenção estava concentrada em uma construção que consistia em um amontoado de pedras escuras com janelas estreitas, varandas anguladas e torres inclinadas. Era pequeno para um palácio, mas parecia enorme para uma casa comum. Se bem lembrava, Arilyn estava um pouco acima da média da nobreza de Cairhien. Soldados com casacos verdes, usando placas peitorais e elmos, montavam guarda na espaçosa escadaria frontal, diante de cada portão visível e nas varandas. Estranhamente, eram todos jovens — bem, isso não importava. Havia mulheres canalizando dentro daquela casa, e não eram quantidades pequenas de saidar, para ela estar sentindo ali da rua — e sentindo com tanta intensidade. A quantidade de poder sendo canalizado diminuiu de repente, mas continuava significativa.