Egwene mordeu o lábio inferior. Não tinha como saber o que estavam fazendo ali dentro, não sem ver os fluxos. Por outro lado, as mulheres que estavam canalizando também precisavam ver os fluxos para tecê-los. Mesmo que estivessem diante de alguma janela mais escondida, se houvesse um fluxo sendo canalizado para fora da mansão, Egwene só não conseguiria ver se fossem todos voltados para o sul, para longe do Palácio do Sol — longe de tudo. O que elas estariam fazendo?
Um dos portões se abriu apenas por tempo suficiente para deixar sair uma parelha de seis baios puxando uma carruagem preta toda fechada com um brasão laqueado nas portas — duas estrelas de prata em um fundo de listras vermelhas e verdes. A carruagem rumou para o norte, abrindo caminho por entre a multidão. O condutor, de libré, abusava do chicote comprido, usando-o tanto para afastar as pessoas quanto para incitar os cavalos. Seria Lady Arilyn indo a algum lugar, ou seria alguém da missão diplomática?
Bem, não tinha ido até ali para ficar olhando. Recuando até só conseguir espiar para a rua com um dos olhos e apenas o suficiente para divisar o casarão, Egwene tirou uma pequena pedra vermelha da bolsinha do cinto, respirou fundo e começou a canalizar. Se uma das Aes Sedai estivesse olhando para fora naquela direção, conseguiria ver os fluxos, mas não a veria. Bem, precisava correr o risco.
A pedra lisa era apenas isso — uma pedra polida de algum regato. Mas Egwene aprendera aquele truque com Moiraine e, como esta usara uma pedra para se concentrar — na verdade uma pedra preciosa, mas a qualidade do material não fazia diferença —, Egwene também usava. Teceu principalmente Ar, com um toque de Fogo. A tessitura permitia ouvir a conversa alheia — ou espionar, como diriam as Sábias. Egwene não ligava para como chamavam, só queria descobrir as intenções das Aes Sedai enviadas pela Torre.
Tocou a tessitura com todo o cuidado na abertura de uma janela — bem de leve, com toda a delicadeza… Depois tocou em outra, e mais outra. Apenas silêncio. E então…
— … daí virei pra ele — anunciou uma voz feminina, em seu ouvido — e falei bem assim: ah, você quer essas camas pra agora, é? Pois vai ficar querendo, Alwin Rael!
Outra mulher respondeu:
— Até parece que você falou isso mesmo!
Egwene abriu um sorriso amargo. Criadas.
Uma mulher corpulenta carregando uma cesta de pão no ombro passou por ali, encarando Egwene, confusa. Claro que estaria confusa: ouvia duas mulheres e via apenas uma garota ali, parada, com os lábios imóveis. Egwene resolveu o problema do jeito mais rápido que conhecia: encarou a mulher com tanta irritação que ela levou um susto e quase deixou cair a cesta quando disparou para o meio da multidão.
Um pouco relutante, Egwene reduziu a intensidade da tessitura. Não ouviria tão bem, mas também não atrairia mais olhares curiosos. Uma Aiel espremida contra a parede já atraía muitos olhares, embora ninguém sequer hesitasse antes de seguir adiante, já que não queriam confusão com os Aiel. Não quis se preocupar com os curiosos. Foi movendo a tessitura de janela em janela. Suava em bicas, e não só por conta do calor, que já aumentava. Se uma única Aes Sedai visse seus fluxos, mesmo que de relance, mesmo que não reconhecesse a tessitura, todas saberiam que alguém estava canalizando contra elas. E claro que imaginariam o propósito da tessitura. Egwene se escondeu ainda mais — só aparecia metade do olho.
Silêncio. Silêncio. Um farfalhar — alguém andando? Chinelos num carpete? Mas nenhuma palavra. Silêncio. Um homem resmungando — parecia estar esvaziando penicos e nem um pouco contente. Sentindo as orelhas quentes, Egwene prosseguiu com a busca. Silêncio. Silêncio. Silêncio.
— … acha mesmo que é necessário? — A voz da mulher chegava como um sussurro, mas mesmo assim soava intensa e cheia de si.
— Precisamos estar preparadas para qualquer eventualidade, Coiren — retrucou outra mulher, com uma voz que parecia uma barra de ferro. — Ouvi um boato surpreendente…
Uma porta bateu com força, cortando o restante da conversa.
Egwene encostou na parede de pedra do estábulo, desanimada. Queria gritar de tanta frustração. Ouvira a Cinza que estava no comando, e a outra só podia ser uma das Aes Sedai que a acompanhavam, ou não teria falado daquele jeito com Coiren. Não poderia ter encontrado conversa melhor para ouvir, mas claro que as duas saíram da sala onde estavam. Que boato surpreendente? Que eventualidades? Como elas iam se preparar? A canalização dentro da mansão voltou a aumentar. O que aquelas mulheres estavam armando? Egwene respirou fundo e recomeçou, obstinada.
O sol ia cada vez mais alto, e ela ouviu uma infinidade de barulhos, quase todos impossíveis de identificar, além de muitas conversas e fofocas dos serviçais. Uma mulher chamada Ceri estava grávida de novo, e teriam que servir vinho de Arindrim — Egwene não fazia ideia de que lugar era esse — para as Aes Sedai junto com a refeição do meio-dia. A descoberta mais interessante foi que era mesmo Arilyn naquela carruagem. A nobre tinha ido se encontrar com o marido, na área rural. Grande coisa. Uma manhã inteira desperdiçada.
As portas principais da mansão se escancaram, e os serviçais de libré se curvaram em mesuras. Os soldados não pareceram tensos, apenas um pouco mais atentos. Nesune Bihara saiu, seguida por um jovem alto que aparentava ter sido talhado em pedra — em um pedregulho, na verdade.
Egwene soltou depressa a tessitura, largou saidar e respirou bem fundo, tentando se acalmar. Não era hora de entrar em pânico. Nesune e seu Guardião trocaram algumas palavras, então a irmã Marrom de cabelo escuro olhou para os dois lados rua abaixo. Não restava dúvida de que estava atrás de alguma coisa.
Achando que, afinal, talvez fosse uma boa hora para entrar em pânico, Egwene começou a se afastar bem devagar, sem querer atrair o olhar atento de Nesune, e tratou de dar meia-volta assim que saiu de vista. Ergueu as saias e saiu correndo, abrindo caminho à força pela multidão. Correu três passadas, até que deu de cara com uma parede de pedra e caiu sentada no meio da rua, batendo no chão com tanta força que até quicou nos paralelepípedos quentes.
Ergueu os olhos, confusa — e só ficou ainda mais confusa. A parede de pedra era Gawyn, que a encarava de cima, parecendo tão estarrecido quanto ela. Os olhos dele eram azuis brilhantes e intensos, e aqueles cachos dourados… Sentiu o rosto corar, pensando em como queria enroscar os dedos outra vez naqueles cachos neles. Você nunca fez isso, corrigiu-se, com firmeza. Foi só um sonho!
— Machuquei você? — perguntou o rapaz, ansioso, abaixando-se para se ajoelhar a seu lado.
Egwene conseguiu se levantar, meio sem jeito, e espanou a poeira do corpo. Se pudesse ter um único desejo realizado naquele exato momento, seria perder a capacidade de corar. Os dois já haviam atraído um círculo de curiosos, e ela enroscou o braço no de Gawyn e o puxou pela rua na direção em que estava indo antes de esbarrarem. Com uma olhadela por cima do ombro, viu que deixavam para trás apenas uma aglomeração agitada. Mesmo que Nesune fosse exatamente para aquela esquina, veria apenas um grupo de curiosos confusos. Ainda assim, não desacelerou, e a multidão abria passagem sem reclamar para a Aiel e seu companheiro, alto o bastante para também ser Aiel, mesmo carregando uma espada — e o modo como Gawyn se movia indicava que sabia como usá-la. Ele se portava como um Guardião.