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O Grão-senhor Meilan umedeceu os lábios.

— Por que está me dizendo isso?

O sorriso de Nesune poderia significar qualquer coisa.

Quando Sarene entrou na sala de estar, só encontrou Coiren e Erian, bebericando chá. Além do serviçal esperando para servi-las, claro. Sarene gesticulou para que o homem saísse.

— Ela pode se revelar bem difícil, essa Berelain — opinou, assim que a porta se fechou. — Não sei se o que funcionaria melhor com ela seria a maçã ou o chicote. Eu deveria encontrar Aracome amanhã, não é mesmo? Mas acho que precisaremos de mais tempo com Berelain.

— Maçã ou chicote — ponderou Erian, a voz contrita. — No caso, usamos o que for preciso.

Sarene pensou em como o rosto de Erian parecia ser de mármore claro emoldurado por asas de corvo — seu vício secreto era a poesia, mas jamais permitiria que descobrissem que ela se interessava por algo tão… emotivo. Morreria de vergonha se Vitalien, seu Guardião, descobrisse que ela já escrevera versos comparando-o a um leopardo, além de outros animais graciosos, poderosos e perigosos.

— Controle-se, Erian. — Como de costume, Coiren falava como se discursasse. — Sarene, ela está assim incomodada por um rumor que Galina escutou. Corre o boato de que uma irmã Verde estava em Tear com o jovem Rand al’Thor e que essa mulher agora está aqui em Cairhien.

Coiren sempre se referia ao garoto como “o jovem Rand al’Thor”, como se quisesse lembrar a todos de que o rapaz era muito jovem — e, portanto, inexperiente.

— Moiraine e uma Verde — matutou Sarene. Aquilo de fato poderia indicar problemas. Elaida insistia que Moiraine e Siuan tinham agido sozinhas, permitindo que al’Thor ficasse à solta sem orientação, mas, mesmo que o boato fosse de apenas mais uma Aes Sedai envolvida, poderia significar que outras também estavam, o que poderia ser um fio condutor que levasse até algumas, quiçá muitas, das que tinham ido embora da Torre quando Siuan foi deposta. — Mas é só um boato.

— Talvez não seja — alertou Galina, entrando na sala. — Não ouviram? Alguém canalizou contra nós hoje de manhã. Por que eu não sei, mas acho que dá para ter um palpite. E com muitas chances de estar certo.

As contas presas às trancinhas escuras de Sarene estalaram quando ela balançou a cabeça.

— Isso não comprova a presença de uma Verde, Galina. Não prova nem que era uma Aes Sedai. Poderia ser alguma coitada qualquer mandada embora da Torre por não ter passado no teste para Aceita. E você sabe tão bem quanto eu que algumas daquelas Aiel podem canalizar.

Galina sorriu, os dentes brancos se destacando no rosto negro e duro.

— Acho que comprova a presença de Moiraine. Ouvi dizer que ela tinha a mania de ouvir as conversas alheias e não acredito nada nessa história tão oportuna de ela ter morrido. Não sem nenhum cadáver de prova e nem ninguém para dar detalhes de como foi.

Sarene também se incomodava bastante com aquilo. Em parte porque gostava de Moiraine, antes daquela história toda. Tinham sido amigas durante seu tempo de noviças e Aceitas, mesmo Moiraine estando um ano à frente, e a amizade se mantivera em seus poucos encontros nos anos seguintes. E em parte porque aquela história estava mesmo muito estranha, e era bastante conveniente que Moiraine tivesse morrido — ou melhor, desaparecido — agora que havia um mandato de prisão para sua cabeça. Naquelas circunstâncias, a Azul podia muito bem ter forjado a própria morte.

— Então você acredita que teremos que lidar com Moiraine e com uma irmã Verde desconhecida? Isso tudo é especulação, Galina.

O sorriso de Galina não se alterou, mas os olhos brilharam. A mulher era inflexível demais para a lógica, acreditava no que acreditava, não importando as evidências. Ainda assim, Sarene sempre achava que havia um fogo intenso e incandescente ardendo em algum lugar das profundezas de Galina.

— Eu acredito é que Moiraine é essa irmã Verde misteriosa — revelou Galina. — Que jeito melhor de escapar da prisão do que morrer e reaparecer como outra mulher, de outra Ajah? Já ouvi falar até que essa Verde é baixa, e todas sabemos como Moiraine está longe de ser uma alta. — Erian se endireitou na poltrona, rígida feito uma rocha, as labaredas de ultraje ardendo em seus grandes olhos castanhos. Galina se virou para ela: — Quando pegarmos essa irmã Verde, acredito que o melhor será deixá-la sob sua responsabilidade durante a jornada de volta à Torre.

Erian assentiu, ávida, mas o calor não se dissipou de seus olhos.

Sarene estava estarrecida. Moiraine fingindo ser de outra Ajah? Claro que não. Sarene nunca se casara — não havia nada de lógico em pensar que duas pessoas poderiam permanecer compatíveis por uma vida inteira —, mas a única comparação que lhe vinha à cabeça era que se passar por outra Ajah era como se deitar com o marido de outra mulher. No entanto, foi a acusação em si que a deixou estarrecida, não a possibilidade de que aquela fantasia pudesse ser verdade. Estava prestes a retrucar, observando que havia muitas mulheres baixas no mundo e que a pouca estatura de alguém era algo relativo, quando Coiren voltou a falar, naquela voz retumbante:

— Sarene, é sua vez de novo. Precisamos estar preparadas, aconteça o que acontecer.

— Ah, nem gosto de falar nisso — reclamou Erian. — No caso, parece que estamos nos preparando para o fracasso.

— O que é apenas lógico — retrucou Sarene. — Mesmo se dividirmos nosso tempo pela menor medida possível, continua sendo impossível afirmar com certeza factível o que vai acontecer entre um momento e outro. Se formos a Caemlyn atrás de al’Thor, podemos muito bem chegar lá apenas para descobrir que ele veio para cá, é melhor continuarmos aqui, para onde podemos afirmar com razoável certeza que ele vai voltar em algum momento. O problema é que isso pode acontecer amanhã ou daqui a um mês. Qualquer acontecimento isolado em qualquer momento dessa espera, ou ainda qualquer combinação de eventos, poderia nos deixar sem alternativa. Portanto, é apenas lógico estarmos preparadas para o pior.

— Muito bem explicado — retrucou Erian, seca.

A mulher não levava muito jeito para a lógica, e Sarene às vezes achava que aquilo era uma característica comum às mulheres bonitas, apesar de não haver qualquer lógica aparente nessa relação.

— Temos todo o tempo de que precisamos — anunciou Coiren, com ares de grandeza. Mesmo quando não estava discursando, parecia fazer um pronunciamento. — Beldeine chegou hoje e alugou um quarto perto do rio, mas Mayam não conseguirá chegar em menos de dois dias. Precisamos tomar muito cuidado, e essa demora nos dá tempo.

— Continuo sem gostar nada dessa história de me preparar para o fracasso — murmurou Erian, para sua xícara de chá.

— Não considero nem um pouco inoportuno se tivermos algum tempo para levar Moiraine à justiça — opinou Galina. — Já esperamos esse tempo todo, não há tanta pressa assim para resolver as coisas com al’Thor.

Sarene suspirou. Aquelas mulheres eram tão boas em suas especialidades, mas não conseguia entender como. Não havia um pingo de lógica em qualquer uma delas.

Retirou-se para seus aposentos, sentou-se diante da lareira apagada e começou a canalizar. Seria mesmo possível que esse tal Rand al’Thor tivesse redescoberto a arte de Viajar? Era muito mais do que se poderia acreditar, mas era a única explicação. Que tipo de homem ele era? Bem, descobriria quando o conhecesse, não antes. Preenchida por saidin quase a ponto de a doçura se transformar em dor, começou a repassar os exercícios das noviças — aquilo serviria tão bem quanto qualquer outra preparação mental. E se preparar era apenas lógico.