Tudo aconteceu em um piscar de olhos. Rand agarrou saidin e canalizou enquanto a flecha voava em sua direção — o projétil atingiu uma barreira de Ar, uma massa de prata azulada suspensa no meio da rua, chocando-se com um clangor de metal contra metal. Uma bola de fogo irrompeu de sua mão, acertando o homem no peito enquanto a flecha ricocheteava para longe do escudo de Ar. As chamas envolveram o desconhecido e ele caiu do telhado ainda agonizando. Então alguém se atirou em cima de Rand, jogando-o para fora da sela.
Ele caiu feio no chão de paralelepípedos, sentindo um peso sobre seu corpo, e largou saidin ao mesmo tempo em que perdia o fôlego. Tentando respirar, lutou contra o peso, jogando-o para o lado… e viu que segurava Desora pelos braços. A mulher sorriu para ele — um belo sorriso —, então sua cabeça desabou para o lado. Os olhos azuis o encaravam, já cegos e embotados. Uma flecha da besta despontava de seu peito, pressionando o punho de Rand. Por que ela sempre escondera aquele sorriso tão lindo?
Rand foi agarrado e erguido por Donzelas e Dançarinos da Montanha que o empurraram para o canto da rua, bem ao lado da loja de um funileiro, e se dispuseram em um círculo bem fechado à sua volta — todos velados, os arcos de chifre prontos, os olhos perscrutando ruas e telhados. Gritos e berros irromperam por toda parte, mas a rua já estava completamente livre mais de cinquenta passadas de cada lado do círculo de Aiel, e a multidão virou uma massa fervilhante desesperada para ir embora. A rua estava vazia, exceto pelos corpos: Desora e mais seis, três deles Aiel. Rand achou que havia mais uma Donzela abatida. Era difícil ter certeza daquela distância, ainda mais com a pessoa caída feito uma boneca de pano.
Rand começou a andar, e os Aiel à sua volta apertaram ainda mais o círculo, em uma muralha de carne.
— Esses lugares parecem tocas de coelhos — comentou Nandera, displicente, mas ainda de rosto velado, vigiando os arredores. — Se entrar na dança aqui, pode acabar levando uma facada nas costas antes de desconfiar de que há perigo.
Caldin assentiu.
— Isso me lembra uma batalha perto de Fenda de Sedar, quando… Bem, pelo menos temos um prisioneiro. — Alguns dos Hama N’dore tinham saído de uma taverna do outro lado da rua, empurrando um homem com os braços e os cotovelos amarrados nas costas. O homem não parou de se debater até ser derrubado de joelhos sobre o chão de paralelepípedos, as lanças coladas a seu pescoço. — Talvez ele diga quem ordenou isso. — Caldin não parecia ter a menor dúvida de que o homem falaria.
Um instante depois, algumas Donzelas saíram de outra casa trazendo um segundo homem amarrado — o sujeito mancava e estava com o rosto ensanguentado. Não demorou para os Aiel alinharem quatro homens ajoelhados na rua. Enfim o semicírculo que envolvia Rand se afrouxou.
Os quatro pareciam durões, mas o que estava todo sujo de sangue cambaleou e revirou os olhos para os Aiel. Dois outros pareciam desafiadores, e o quarto os olhava com desprezo.
Rand sentiu as mãos tremerem.
— Têm certeza de que eles estavam envolvidos? — Não conseguia acreditar na brandura e na firmeza de sua voz. Um tanto de fogo devastador resolveria tudo. Fogo devastador não, protestou Lews Therin, ofegante. Nunca mais. — Têm certeza?
— Estavam — respondeu uma Donzela, mas ele não soube dizer quem era por trás do véu. — E os que matamos estavam usando isso aqui.
A mulher deu um puxão, soltando o manto preso pelos braços atados do sujeito com o rosto ensanguentado. Era um manto branco surrado, encardido e manchado com um raio de sol dourado bordado na parte que deveria ficar sobre o peitoral. Os outros três usavam mantos iguais.
— Foram enviados para ficar de vigia — acrescentou um Dançarino da Montanha — e informar aos superiores caso o ataque fosse malsucedido. — Ele soltou uma risada seca e curta. — Esses superiores não imaginavam o tamanho do fracasso.
— Nenhum desses homens disparou uma besta? — perguntou Rand. Fogo devastador. Não, ganiu Lews Therin, de longe. Os Aiel se entreolharam e negaram com as cabeças envoltas nas shoufas. — Enforquem todos — ordenou.
O sujeito ensanguentado quase desabou. Rand o sustentou com fluxos de Ar e o pôs de pé. Só então percebeu que agarrara saidin. Aceitou de bom grado aquela luta pela sobrevivência, aceitou até a mácula, que corroía seus ossos feito lodo ácido. O Poder diminuía a consciência das coisas que preferia não lembrar, das emoções que preferia não sentir.
— Qual é o seu nome?
— F-Faral, m-milorde. D-Dimir Faral. — Os olhos, tão arregalados que quase saltavam das órbitas, encaravam Rand por trás daquela máscara de sangue. — P-Por favor, não me e-enforque, m-milorde. Eu c-caminharei pela Luz, eu j-juro!
— Você é um sujeito de muita sorte, Dimir Faral — começou Rand, sua própria voz soando tão distante quanto os gritos de Lews Therin. — Você vai assistir ao enforcamento dos seus amigos — Faral começou a chorar —, depois receberá um cavalo, então vai contar a Pedron Niall que um dia eu também o enforcarei pelo que aconteceu aqui hoje. — Quando Rand soltou os fluxos de Ar, Faral desabou no chão, gemendo e afirmando que iria até Amador sem parar nem uma vez. Os três que estavam à beira da morte encararam o homem soluçante com desprezo. Um até cuspiu no chão.
Rand eliminou todos os pensamentos sobre aqueles homens. Niall era o único de quem precisava lembrar. Ainda havia uma coisa a fazer. Afastou saidin, travando a luta para escapar sem ser obliterado, a luta para se forçar a soltar o Poder. Não queria nenhum filtro que o apartasse das emoções que viriam com o que precisava fazer.
Uma Donzela estava ajeitando o corpo de Desora, que já estava com o véu erguido. A mulher ergueu o braço para detê-lo quando Rand tocou o algode negro, então hesitou, o encarou e se afastou, agachando.
Rand ergueu o véu e memorizou o rosto da Donzela caída. Parecia estar dormindo. Desora, do ramo Musara dos Aiel Reyn. Tantos nomes. Liah, dos Chareen Cosaida; Dailin, dos Taardad dos Nove Vales; Lamelle, dos Miagoma da Água Esfumada… tantos. Ele às vezes percorria nome por nome daquela lista, mas havia um nome que não fora culpa sua: Ilyena Therin Moerelle. Não sabia como Lews Therin pusera aquele nome ali, mas, mesmo que soubesse, não o removeria.
Afastar-se de Desora foi ao mesmo tempo um esforço e um alívio, mas foi puro alívio descobrir que o corpo que ele achava que era de uma segunda Donzela na verdade era de um homem — um sujeito baixo para um Aiel. Rand também lamentava pelos homens que morriam por ele, mas com suas mortes sempre vinha à sua mente um antigo ditado: “Deixe que os mortos descansem, cuide dos vivos.” Não era fácil, mas conseguia se obrigar a seguir aquelas palavras. Entretanto, nunca conseguia sequer invocar o ditado quando era uma mulher quem morria.
Seu olhar foi atraído pela visão de uma saia esparramada no chão de paralelepípedos. Os mortos não eram apenas Aiel.
A mulher levara uma flechada de besta bem entre as omoplatas. Quase nenhum sangue manchava as costas do vestido — uma morte rápida, o que era um pequeno consolo. Rand se ajoelhou e virou o corpo com toda a delicadeza. A outra ponta da flecha projetava-se do peito. A mulher tinha um rosto quadrado de meia-idade, com toques de fios grisalhos nos cabelos. Os olhos escuros estavam arregalados, e ela parecia surpresa. Não sabia seu nome, mas memorizou as feições. Aquela mulher morrera apenas por estar na mesma rua que ele.
Agarrou o braço de Nandera, que se desvencilhou para que ele não a atrapalhasse caso precisasse usar o arco, mas ainda assim o encarou.
— Encontre a família desta mulher e dê a eles o que precisarem. Ouro… — Não era o bastante. Precisavam era da esposa de volta, da mãe. Mas isso ele não podia dar. — O que precisarem. E descubra o nome dela.