Nandera estendeu a mão em sua direção, então voltou a segurar o arco. Quando Rand se levantou, notou que as Donzelas o observavam. Ah, claro que aqueles olhos estavam sempre atentos a tudo, mas os rostos velados pareciam se voltar para ele com um pouco mais de frequência. Sulin sabia como Rand se sentia, mesmo que não soubesse da lista, mas ele não tinha certeza se ela contara ou não às outras. Se tivesse contado, não fazia ideia do que as outras achavam.
Foi andando de volta para onde tinha caído e pegou o Cetro do Dragão, com suas borlas. Teve que fazer um esforço para se agachar, e a lança curta e ornamentada parecia muito pesada. Jeade’en não fora muito longe com a sela vazia, era um cavalo bem-treinado. Rand montou de volta no sarapintado.
— Já fiz tudo o que podia por aqui — anunciou, enfiando os calcanhares no lombo do cavalo. Os outros que pensassem o que quisessem.
Se não podia deixar as lembranças para trás, deixaria os Aiel. Ao menos por um tempo. Entregara Jeade’en a um cavalariço e adentrara o Palácio antes de Nandera e Caldin o alcançarem, trazendo cerca de dois terços da escolta de Donzelas e Dançarinos da Montanha. Alguns tinham ficado cuidando dos mortos. Caldin parecia irritado e, pela fúria nos olhos de Nandera, Rand se considerou sortudo por ela não estar velada.
Antes que a mulher pudesse reclamar, a Senhora Harfor se aproximou e curvou-se em uma mesura profunda.
— Milorde Dragão — começou, com uma voz grave e firme —, a Mestra das Ondas do clã Catelar, dos Atha’an Miere, fez uma petição para uma audiência.
Se o corte sofisticado do vestido vermelho e branco de Reene não bastasse como indicativo de que “Criada-chefe” não era uma boa designação para seu posto, os modos sem dúvida eram. A mulher rechonchuda, de cabelos grisalhos e queixo comprido, encarava Rand nos olhos, mesmo tendo que empinar o queixo para tanto, e conseguia mesclar o grau apropriado de deferência a uma total falta de servilismo e a um desinteresse que a maioria das nobres não conseguia atingir. Tal qual Halwin Norry, Reene permanecera no reino mesmo depois que a maioria dos outros criados fugiu — Rand tinha a leve suspeita de que a mulher ficara para defender o Palácio dos invasores e não ficaria surpreso em descobrir que ela fazia revistas periódicas em seus aposentos atrás de bens do Palácio; não ficaria surpreso sequer em saber que ela tentara revistar os Aiel.
— O Povo do Mar? O que é que eles querem?
Reene o encarou com um olhar paciente, tentando ser compreensiva com sua ignorância. Apenas tentando.
— A petição não informa, milorde Dragão.
Se Moiraine sabia alguma coisa a respeito do Povo do Mar, não priorizara o tópico em seus conselhos, mas, pela atitude de Reene, aquela mulher que pedia uma audiência era importante. O título de Mestra das Ondas decerto soava importante. Bem, teria que usar o Grande Salão. Não visitara o lugar desde que voltara de Cairhien — não que tivesse qualquer motivo para evitar o salão do trono, simplesmente não houvera necessidade de usá-lo.
— Hoje à tarde — respondeu, hesitante. — Diga que a verei no meio da tarde. A senhora ofereceu boas acomodações a ela e à comitiva? — Duvidava de que uma pessoa com um título tão imponente fosse viajar sozinha.
— Ela recusou, e todos se hospedaram na Bola e Argola. — Reene Harfor pareceu meio irritada com aquilo; ao que parecia, não considerava a recusa muito apropriada, por mais importante que fosse uma Mestra das Ondas. — Estavam todos muito sujos e cansados por conta da viagem, quase não conseguiam se manter de pé. Vieram a cavalo, não de coche, e acredito que não estejam muito acostumados a esse tipo de viagem. — Ela piscou, parecendo surpresa por ter falado tanto, então recuperou a discrição como se vestisse um manto. — Outra pessoa deseja vê-lo, milorde Dragão. — Sua voz assumiu o mais leve tom de desgosto. — Lady Elenia.
Até ele teve que conter uma careta. Elenia decerto preparara mais um discurso reivindicando seus direitos ao Trono do Leão. Até então, Rand conseguira evitar ouvir mais de uma em cada três palavras. Bem, seria fácil dispensá-la. Ainda assim… precisava de uma informação a respeito da história de Andor, e ninguém por ali sabia mais do assunto do que Elenia Sarand.
— Bem, leve Lady Elenia aos meus aposentos, por favor.
— É verdade que pretende levar a Filha-herdeira ao trono?
A pergunta não veio em um tom ríspido, mas Reene não demonstrava a menor deferência. Seu rosto permanecia impassível, mas Rand tinha certeza de que, com a resposta errada, a mulher berraria “Por Elayne e o Leão Branco!” e tentaria esmagar seu crânio, com ou sem escolta Aiel em volta.
— Pretendo — respondeu ele, com um suspiro. — O Trono do Leão é de Elayne. Pela Luz e por minha esperança de renascimento e salvação, é dela.
Reene o avaliou por um instante, então abriu as saias em mais uma mesura profunda.
— Vou mandar Lady Elenia entrar, milorde Dragão.
A mulher se afastou a passos graciosos, as costas eretas. Mas era sempre assim, e não havia como dizer se ela acreditara no que ouvira.
— Um inimigo ardiloso — começou Caldin, irritadiço, antes que Reene avançasse cinco passadas — prepara uma emboscada fraca para que o alvo consiga escapar. Com a confiança de ter enfrentado a ameaça, o alvo então baixa a guarda e caminha direto para a segunda emboscada, mais poderosa.
Nandera, quase falando por cima de Caldin, declarou, em uma voz gélida:
— Os rapazes podem ser impetuosos, podem ser impulsivos, podem até ser idiotas. O Car’a’carn não pode se permitir ser um rapaz.
Rand olhou para os dois por cima do ombro antes de começar a se afastar. Parou apenas por tempo suficiente para dizer:
— Vamos voltar para o palácio. Escolham os dois da escolta.
Não foi nenhuma surpresa ver que Nandera e Caldin escolheram a si mesmos, menos ainda que o tenham seguido pisando duro, em um silêncio muito rígido.
Rand parou diante da porta para seus aposentos e pediu que mandassem Elenia entrar quando ela chegasse, então os deixou no corredor. Havia ponche de ameixa em uma jarra folheada a prata, mas ele nem pensou em beber. Ficou apenas encarando a jarra, tentando planejar o que diria — até que notou o que estava fazendo e soltou um grunhido de surpresa. O que havia para planejar?
Uma batidinha na porta anunciou Elenia. A mulher de cabelos cor de mel se curvou em uma mesura ao entrar. Usava um vestido trabalhado em rosas douradas — em qualquer outra mulher, Rand teria pensado que eram simples rosas; em Elenia, só podia simbolizar a Coroa de Rosas.
— Milorde Dragão agradeço a imensa cortesia de me receber.
— Quero fazer algumas perguntas sobre a história de Andor — respondeu Rand. — Gostaria de um pouco de ponche de ameixa?
Elenia não conseguiu se conter e arregalou os olhos em deleite. Sem dúvida já planejava conduzir a conversa para as próprias reivindicações, mas Rand lhe dera um pretexto de graça. Ela abriu um sorriso em seu rosto de raposa.
— Posso ter a honra de servir milorde Dragão? — perguntou, mas não esperou que Rand assentisse. A mulher estava tão satisfeita com a reviravolta que ele quase podia imaginá-la empurrando-o para uma cadeira e obrigando-o a pôr os pés para cima. — Sobre que parte da história posso lhe fornecer algum esclarecimento?
— Um cenário mais geral… — Rand franziu o cenho, aquilo daria à nobre a desculpa perfeita para começar a listar sua linhagem com detalhes dali a duas frases. — Por exemplo, quero saber o que levou Souran Maravaile a trazer a esposa para cá. Ele era de Caemlyn?
— Foi Ishara quem trouxe Souran, milorde Dragão. — O sorriso de Elenia mudou um pouco, assumindo um ar indulgente. — A mãe de Ishara era Endara Casalain, a governante local de Artur Asa-de-gavião quando Andor era apenas uma província. Ela também era neta de Joal Ramedar, o último Rei de Aldeshar. Souran era só um… um general. — Rand podia apostar que a mulher estava para dizer que ele era plebeu, mas pensou melhor a tempo. — Claro que era o melhor dos generais de Asa-de-gavião. Endara renunciou à coroa e se ajoelhou perante Ishara, elevando-a a Rainha. — Rand não conseguia acreditar que a coisa tinha ocorrido exatamente dessa forma, ou pelo menos não daquele jeito tão pacífico. — Claro que foi uma época terrível, tão ruim quanto as Guerras dos Trollocs, tenho certeza. Com Asa-de-gavião morto, todos os nobres queriam se tornar reis. Ou rainhas. No entanto, Ishara sabia que ninguém poderia dar conta de todo o território. Eram facções demais, além das muitas alianças, e a maioria se desfazia assim que era selada. Ela convenceu Souran a suspender o cerco de Tar Valon e vir para cá com a maior parcela do exército que ele conseguiria manter por aqui.