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Encarando as próprias mãos, arrependida, Egwene suspirou e largou o chá. A xícara foi recolhida antes mesmo que pudesse afastar as mãos.

— Preciso ir — anunciou para as duas outras aprendizes. — Acabei de me lembrar que ainda preciso resolver um assunto.

Surandha e Estair falaram que queriam ir junto — na verdade, estavam prestes a se levantar e ir com ela, pois os Aiel nunca falavam da boca para fora —, mas algo no debate lhes chamou a atenção, e elas não discutiram quando Egwene insistiu que ficassem. Enrolando o xale de volta na cabeça e deixando as vozes cada vez mais elevadas para trás — Mera ia dizendo a Estair, sem um pingo de hesitação, que jovem até poderia se tornar uma Sábia, algum dia, mas que até lá ainda tinha muito o que aprender com uma mulher que dera conta de um marido e criara três filhas e dois filhos sem nenhuma esposa-irmã para ajudar —, Egwene saiu para a poeira e o vento.

Já na cidade, tentou se esgueirar pelas ruas cheias sem parecer muito furtiva, tentou ficar atenta aos arredores enquanto aparentava olhar apenas para o caminho que seguia. As chances de trombar com Nesune eram pequenas, mas… À frente, duas mulheres com vestidos muito sóbrios e aventais engomados deram um passo para o lado, desviando uma da outra. Por azar, ambas escolheram o mesmo lado e acabaram ficando cara a cara. Depois de murmurarem desculpas, deram mais um passo para o lado — o mesmo lado. Mais desculpas e, como se dançassem, foram outra vez mais um passo para o mesmo lado. Quando Egwene as ultrapassou, as duas ainda estavam andando de um lado para o outro em perfeita sincronia, os rostos já corando, as desculpas sendo engolidas por trás dos lábios comprimidos. Egwene não fazia ideia de quanto tempo aquilo ainda poderia durar, mas serviu para lembrá-la de que Rand estava na cidade. Luz, quando ele estava por perto, não seria nem um pouco absurdo se acabasse de cara com as seis Aes Sedai da Torre justo no instante em que uma lufada de vento arrancasse seu xale da cabeça e três pessoas gritassem seu nome e a chamassem de Aes Sedai. Com ele por perto, não acharia absurdo nem se desse de cara com Elaida.

Avançou, apressada, cada vez mais preocupada com a possibilidade de sofrer a influência de ta’veren de Rand, o olhar cada vez mais irritado. Por sorte, uma Aiel irritada de rosto coberto — aquelas pessoas ao menos sabiam da diferença entre um xale e um véu? — fazia todos saírem do caminho, o que lhe permitia acelerar o passo até quase correr. Ainda assim, ela não respirou tranquila até se enfiar no Palácio do Sol, entrando por uma portinha de empregados que ficava nos fundos.

Um forte cheiro de comida no fogo pairava no corredor estreito, e mulheres e homens de libré andavam às pressas de um lado a outro. Foi recebida pelos olhares atônitos de alguns serviçais descansando sem o casaco e algumas criadas que se abanavam com o avental. Provavelmente não era comum ver ninguém além dos serviçais tão perto das cozinhas, muito menos uma Aiel. Todos pareciam esperar que ela fosse tirar uma lança de debaixo das saias.

Egwene apontou para um homenzinho rechonchudo que enxugava o pescoço com um lenço.

— Sabe onde está Rand al’Thor?

O sujeito levou um susto, voltando os olhos para os colegas, que já se afastavam. Ele batia os pés, ansioso, doido para ir atrás dos outros.

— O Lorde Dragão, é… Senhora? Nos aposentos dele? É o que eu acho, ao menos. — Ele começou a se virar de lado, curvando-se em uma mesura. — Se a Senhora… é… se milady me permitir, preciso voltar para o…

— Você vai me levar até lá — interrompeu Egwene, a voz firme. Dessa vez, não ficaria perambulando à toa.

Voltando os olhos uma última vez em busca dos amigos desaparecidos, o sujeito suprimiu um suspiro, lançou um rápido olhar assustado para ver se não a havia ofendido e disparou atrás do casaco. O homem sabia se orientar muito bem naquele emaranhado de corredores palacianos, andando rápido e fazendo uma mesura a cada curva. Quando, com uma última reverência, o sujeito enfim apontou para as portas altas decoradas com sóis nascentes dourados e vigiadas por uma Donzela e um Aiel, Egwene sentiu uma pontada de desdém e o dispensou. Não conseguia entender por que sentira aquilo quando o sujeito estava apenas fazendo o que era pago para fazer.

Quando ela se aproximou, o Aiel se levantou. Era um sujeito de meia-idade e muito alto, com um tórax e ombros que lembravam os de um touro e olhos cinzentos e frios. Egwene não o conhecia, e o Aiel parecia prestes a mandá-la embora. Por sorte, ela conhecia a Donzela.

— Deixe-a passar, Marie — disse Somara, abrindo um sorriso. — Esta é a aprendiz de Amys, e também de Bair e Melaine. A única aprendiz que eu conheço que serve a três Sábias. E, pela cara dela, foi enviada às pressas com palavras bem contundentes para Rand al’Thor.

— Às pressas? — O gracejo de Marie não suavizou a dureza de seu rosto ou de seus olhos. — Parece mais que veio se arrastando.

Ele retomou a posição de guarda.

Egwene não precisou perguntar o que ele queria dizer. Desenterrou um lenço do fundo da bolsa do cinto e esfregou o rosto. Ninguém era levado a sério sujo daquele jeito, e Rand precisava ouvi-la com atenção.

— São mesmo palavras importantes, Somara. Espero que ele esteja sozinho. As Aes Sedai ainda não vieram?

O lenço voltou cinza, e ela o devolveu à bolsa com um suspiro.

Somara balançou a cabeça.

— Ainda falta um bom tempo para elas chegarem. Você vai pedir para ele tomar cuidado? Não tenho intenção de desrespeitar suas irmãs, mas ele se joga sem pensar onde vai cair. É muito cabeça-dura.

— Vou pedir, sim.

Egwene não conseguiu suprimir um sorrisinho. Já ouvira Somara falar daquele jeito, com o tom orgulhoso e exasperado que uma mãe teria ao falar de um filho excessivamente aventureiro de dez anos de idade — e ouvira o mesmo tom sendo usado por outras Donzelas. Só podia ser alguma brincadeira Aiel. Bem, mesmo que não entendesse do que se tratava, apoiava qualquer comportamento que evitasse que Rand acabasse muito cheio de si.

— Também vou mandar ele lavar as orelhas. — Somara até assentiu, antes de se conter e voltar à expressão séria. Egwene respirou fundo. — Somara, minhas irmãs não podem saber que estou aqui. — Marie, que examinava cada serviçal que cruzava o corredor, a encarou com curiosidade. Egwene precisava tomar cuidado. — Nós não somos muito próximas, Somara. Na verdade, dá para dizer que sempre fomos o mais distantes possível, em se tratando de irmãs.

— Não há rixa pior que as rixas entre irmãs-primeiras — afirmou Somara, assentindo. — Entre. Não direi nada a elas sobre você. E se a língua de Marie ficar muito agitada, dou um nó nela.

Marie apenas abriu um leve sorriso, sem nem olhar para Somara — a mulher batia abaixo de seu ombro e devia ter metade de seu peso.

As Donzelas sempre a mandavam entrar sem ser anunciada, o que já causara alguns constrangimentos, mas dessa vez ela não encontrou Rand tomando banho. Só de olhar, dava para notar que aqueles eram os antigos aposentos reais, e a antessala estava mais para uma miniatura de sala do trono — ou melhor, miniatura se comparada à verdadeira. As únicas curvas na decoração eram os raios ondulosos de um sol dourado, cada um de uma braçada de largura, gravados no piso de pedra polido. Espelhos altos em molduras de ouro austeras enfileiravam-se nas paredes sob largas faixas retas com douraduras, e a enorme cornija da lareira era toda de triângulos dourados que se sobrepunham feito escamas. Poltronas cobertas de douraduras estavam dispostas de cada lado do sol nascente, em duas fileiras tão rígidas quanto os espaldares altos, uma perfeitamente de frente para a outra. Rand estava sentado em uma poltrona com o dobro de douraduras e o espaldar duas vezes mais alto que as outras apoiada sobre um pequeno estrado também incrustrado de douraduras. O jovem trajava um casaco de seda vermelho com bordados de ouro, ostentando uma careta de preocupação enquanto segurava aquela lança Seanchan entalhada apoiada no cotovelo. Parecia um rei — um rei prestes a cometer um assassinato.