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Egwene apoiou os punhos cerrados na cintura.

— Somara disse que você devia ir lavar estas orelhas agora mesmo, meu jovem — ralhou, fazendo-o erguer a cabeça.

A surpresa e o leve ultraje duraram apenas um instante. Abrindo um sorriso, Rand se levantou e largou a ponta de lança no assento da cadeira.

— Luz, o que você andou fazendo? — perguntou ele, atravessando o aposento, agarrando-a pelos ombros e virando-a de frente para o espelho mais próximo.

Egwene fez uma careta involuntária. Que visão. A poeira que atravessara o xale — poeira não: já virara lama, com todo aquele suor — desenhava linhas em suas bochechas e espirais nos pontos de sua testa que esfregara com o lenço antes.

— Vou mandar Somara providenciar um pouco de água — afirmou ele, seco. — Talvez ela ache que é para as minhas orelhas.

Ah, aquele sorriso insuportável!

— Não precisa — respondeu Egwene, com o máximo de dignidade que conseguiu reunir. Não iria simplesmente se lavar com ele ali, assistindo. Puxou o lenço encardido da bolsa e tentou dar um jeito nas piores partes. — Daqui a pouco você vai se encontrar com Coiren e as outras. Não preciso avisar que elas são perigosas, preciso?

— Acho que você acabou de avisar. Bem, nem todas elas virão. Eu disse que não receberia mais que três, então apenas três foram enviadas. — Pelo espelho, Egwene notou a cabeça dele se inclinando, como se estivesse ouvindo alguma coisa. Rand assentiu, a voz baixando até não passar de um murmúrio: — É, consigo dar conta de três, se não forem muito fortes. — De repente, ele pareceu notar que era observado. — Claro que, se alguma delas for Moghedien de peruca, ou Semirhage disfarçada, vou acabar encrencado.

— Rand, você precisa levar isso a sério. — O lenço não estava ajudando muito. Com toda a relutância do mundo, cuspiu no tecido para ver se melhorava. Não havia maneira digna de cuspir em um lenço. — Eu sei o quanto você é forte, mas elas são Aes Sedai. Você não pode se comportar como se fossem apenas camponesas. Mesmo que ache que Alviarin vai se ajoelhar aos seus pés, junto com todas as amigas que trouxer, essas mulheres foram enviadas por Elaida. Você não pode acreditar que virão com qualquer intenção além de atar uma coleira em seu pescoço. Serei franca e direta: você deveria mandar todas embora.

— E confiar nas suas amigas escondidas? — indagou ele, a voz suave. Suave demais.

Egwene concluiu que não havia como dar jeito no rosto. Devia ter deixado Rand mandar trazer água. Bem, não tinha mais como pedir, não depois de ter recusado.

— Você sabe que não pode confiar em Elaida — advertiu, hesitante, virando-se para ele. Lembrando-se do desfecho da última conversa, não queria nem mencionar as Aes Sedai de Salidar. — Você sabe.

— Eu não confio em nenhuma Aes Sedai. Elas… — Ele hesitou, como se fosse usar alguma palavra… Egwene não fazia ideia de qual poderia ser. — Elas tentarão me usar, e eu tentarei usar cada uma delas. Uma bela troca, não acha?

Se Egwene algum dia tivesse considerado a possibilidade de deixá-lo chegar perto das Aes Sedai de Salidar, teria desistido ao ver o olhar de Rand — era tão duro e gélido que ela ficou arrepiada.

Talvez, se ele ficasse zangado o bastante, se trocasse farpas com Coiren até obrigar a missão diplomática a voltar para a Torre de mãos abanando…

— Se você acha uma bela troca, então suponho que seja. Você é o Dragão Renascido, afinal. Bem, já que pretende continuar com isso, então é melhor fazer as coisas direito. Só não se esqueça de que são Aes Sedai. Até um rei trata as mulheres da Torre com respeito, mesmo quando não concorda com o que dizem. E até um Rei iria correndo a Tar Valon, se fosse convocado. Até os Grão-senhores tairenos iriam, até Pedron Niall. — Ah, o tonto voltou a sorrir; ou pelo menos exibiu os dentes, já que o restante do rosto estava tão inexpressivo quanto uma pedra de rio. — Espero que esteja prestando atenção, estou tentando ajudar. — Bem, e estava. Só não do jeito que ele pensava. — Se quer usar essas mulheres, não pode deixá-las feito gatas arrepiadas. Elas não ficarão mais impressionadas do que eu com você, Dragão Renascido, mesmo com esses casacos enfeitados, esse trono e esse cetro idiota. — Egwene olhou com desprezo para a ponta de lança borlada. Luz, aquele troço lhe causava arrepios! — As Aes Sedai não cairão de joelhos quando chegarem, e você não vai morrer por isso. Também não vai morrer se demonstrar alguma cortesia. Curve esse seu pescoço teimoso. Não é humilhação agir com a deferência apropriada, mostrar um pouco de humildade.

— A deferência apropriada — repetiu ele, pensativo. Suspirando, Rand balançou a cabeça com pesar e passou a mão no cabelo. — Bem, suponho que eu não possa falar com uma Aes Sedai como falo com um lorde qualquer que vem tramando contra mim. É um bom conselho, Egwene. Vou tentar. Serei humilde feito um rato.

Tentando não parecer espantada, Egwene disfarçou os olhos arregalados esfregando o rosto com o lenço. Não podia afirmar com certeza se os olhos estavam a ponto de saltar das órbitas, mas achou que deviam. A vida inteira, sempre que apontava que era melhor ir pela direita, Rand levantava o queixo e insistia na esquerda! Por que ele teve de escolher justo aquele momento para ouvi-la?

Havia algo de bom no jeito como as coisas estavam? Ao menos não faria mal a ele demonstrar algum respeito. Mesmo que elas estivessem do lado de Elaida, a ideia de alguém se mostrar impertinente com qualquer Aes Sedai de fato a aborrecia. Só que ela queria que ele fosse impertinente, tão arrogante quanto jamais havia sido. Não havia razão para tentar desfazer aquilo, não havia como. Ele não era obtuso. Apenas irritante.

— Foi só para isso que você veio? — indagou Rand.

Não podia ir embora, não ainda. Talvez tivesse uma chance de consertar as coisas, ou pelo menos de ter certeza de que Rand não era cabeça oca a ponto de concordar em ir para Tar Valon.

— Sabia que tem uma Senhora das Ondas do Povo do Mar num navio lá no rio, o Borbotão? — Era uma mudança brusca, mas para um assunto tão bom quanto qualquer outro. — Ela veio ver você, e ouvi dizer que a mulher já está ficando impaciente.

Ficara sabendo por Gawyn. Erian fora remando até o navio para descobrir o que o Povo do Mar estava fazendo tão dentro do continente, mas não recebeu permissão para embarcar. A mulher voltara em tal estado de espírito que, se não fosse Aes Sedai, diriam que estava prestes a explodir de ódio. Egwene tinha mais do que suspeitas de por que aquela gente estava ali, mas não as revelaria para Rand. Seria bom para ele finalmente se encontrar com alguém sem a expectativa de que a outra pessoa fosse se curvar a seus pés.

— Ao que parece, os Atha’an Miere estão por toda parte. — Rand se sentou em uma das cadeiras. Por algum motivo, parecia de bom humor. Egwene podia jurar que não tinha nada a ver com o Povo do Mar. — Berelain disse que tenho que me encontrar com essa Harine din Togara Dois Ventos, mas, se a mulher tiver metade do gênio que Berelain relatou, então pode esperar. Já tenho que lidar com uma boa quota de mulheres zangadas, por enquanto.

Aquilo era quase uma abertura, mas não era o suficiente.

— Não consigo entender por quê. Você é tão cativante. — Egwene se arrependeu assim que falou. Aquelas palavras só reforçavam o que não queria que ele fizesse.