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Atrás das Aes Sedai veio mais uma dúzia de mulheres com roupas simples e sobrecapas ásperas de linho pendendo das costas. A maioria era bem troncuda, mas parecia penar com o peso de dois baús nada pequenos, as alças de latão polido trabalhadas com a Chama de Tar Valon. As serviçais depositaram os baús no chão com suspiros de alívio bem audíveis, alongando os braços e as costas discretamente enquanto as portas se fechavam. Coiren e as outras Aes Sedai mergulharam em mesuras na mais perfeita sincronia, ainda que não muito profundas.

Rand se levantou antes mesmo que as três Aes Sedai endireitassem as costas. O brilho de saidar cercava as três — tinham se unido. Egwene tentou se lembrar do que vira, de como aquilo era feito. Apesar do brilho intenso, nada abalou a calma em seus rostos quando Rand passou direto, indo até as serviçais, analisando cada um de seus rostos.

O que ele estava…? Ah, claro. Estava querendo se certificar de que nenhuma tinha o rosto de idade indefinida de uma Aes Sedai. Egwene balançou a cabeça, então voltou a ficar imóvel. Rand era um tolo se achava que aquilo bastava. Quase todas as servas pareciam já ter certa idade — não eram velhas, mas já tinham a marca da passagem dos anos —, só que duas eram jovens o bastante para terem sido elevadas havia pouco tempo. Nenhuma era — Egwene só conseguia sentir a capacidade de canalização das três Aes Sedai, e estava perto o bastante para ter sentido, caso houvesse a fagulha em alguma das outras mulheres. Ainda assim, Rand não podia afirmar só de olhar se aquelas mulheres eram ou não capazes de manejar o Poder.

Rand estendeu a mão e ergueu o queixo de uma jovem robusta, encarando-a com um sorriso.

— Não tenha medo — disse ele, baixinho. A mulher cambaleou como se estivesse prestes a desmaiar. Com um suspiro, Rand deu meia-volta. Nem olhou para as Aes Sedai quando passou por elas.

— Vocês não vão canalizar perto de mim — advertiu, firme. — Soltem.

Nesune pareceu pensativa por uma fração de segundo, mas as outras duas permaneceram completamente serenas enquanto ele voltava a se sentar e esfregava o braço. Egwene estivera presente quando ele desenvolveu aquela comichão. Rand acrescentou, com uma voz mais firme:

— Eu disse que vocês não vão canalizar perto de mim. Não vão nem abraçar saidar.

Houve um longo momento de hesitação, e Egwene rezou em silêncio. O que Rand faria se as mulheres continuassem abraçando a Fonte? Tentaria cortar a conexão? Interromper o acesso a saidar depois que a mulher já o abraçara era bem mais difícil do que criar uma barreira antes de acontecer. Não sabia nem se ele conseguiria lidar com três mulheres ao mesmo tempo, ainda por cima unidas. E pior — o que elas fariam se Rand tentasse alguma coisa? O brilho esvaneceu, e Egwene conseguiu — por pouco — suprimir um enorme suspiro de alívio. Aquela trama que ele fizera a tornava invisível, mas obviamente não isolava o som.

— Bem melhor. — Rand abriu um sorriso caloroso voltado para as três, mas o calor não chegou aos seus olhos. — Vamos começar de novo. Vocês são convidadas de honra e acabaram de entrar aqui neste exato momento.

Elas entenderam, claro. Rand não estava apenas supondo que as três estavam canalizando — ele sabia. Coiren se enrijeceu de leve, e a mulher de cabelos escuros como um corvo arregalou os olhos. Nesune apenas assentiu para si mesma, acrescentando aquilo às anotações mentais. Egwene torcia para que ele tomasse cuidado — Nesune não deixaria passar nada.

Com esforço visível, Coiren tratou de se acalmar, alisou o vestido e quase ajustou um xale que nem ao menos estava usando.

— Eu tenho a honra — anunciou, com uma voz límpida — de ser Coiren Saeldain Aes Sedai, Embaixadora da Torre Branca e emissária de Elaida do Avriny a’Roihan, a Vigia dos Selos, a Chama de Tar Valon, o Trono de Amyrlin.

Com apresentações um pouco menos floreadas, ainda que com as honrarias completas de Aes Sedai, ela anunciou as outras duas. A mulher de olhar firme e cabelos negros era Galina Casban.

— Eu sou Rand al’Thor.

A simplicidade assinalava um contraste nítido. Corina não mencionara o título de Dragão Renascido e ele também não, mas aquela omissão pareceu fazer o título ressoar de leve pela sala.

Coiren respirou fundo, inclinando a cabeça como se ouvisse o tal sussurro.

— Trazemos um nobre convite ao Dragão Renascido. O Trono de Amyrlin tem plena consciência de que os sinais foram dados e as profecias foram cumpridas, de que… — A mulher, sempre com uma voz alta e límpida, chegou rápido demais ao ponto, dizendo que Rand deveria acompanhá-las, “com a honra e o respeito merecidos”, até a Torre Branca, e que, caso ele aceitasse o convite, Elaida oferecia a proteção da Torre e todo o peso de sua autoridade e influência por trás do título de Amyrlin. Seguiu-se mais uma boa dose de discursos floreados antes que ela terminasse com um: — … e, como símbolo de boa vontade, o Trono de Amyrlin envia este humilde presente.

Coiren se virou para os baús e ergueu as mãos. Então ficou parada, abrindo uma leve careta de irritação. Precisou gesticular duas vezes até que as serviçais compreendessem o que ela queria e puxassem as alças de latão para abrir as tampas dos baús. Ao que parecia, a mulher tivera intenção de abrir as tampas usando saidar. Os baús estavam completamente cheios de sacas de couro. Depois de um outro gesto, mais firme, as serviçais começaram a desamarrá-las.

Egwene conteve um suspiro. Não era de se surpreender que aquelas mulheres tivessem precisado de tanto esforço para carregar os baús! As sacas abertas tiveram seu conteúdo derramado: moedas de ouro de todos os tamanhos, anéis reluzentes, colares cintilantes e gemas soltas. Mesmo se as sacas logo abaixo da primeira camada contivessem apenas entulho, tratava-se de uma fortuna.

Reclinando-se na poltrona em forma de trono, Rand examinava os baús com um princípio de sorriso. As Aes Sedai o analisavam, os rostos cobertos com suas máscaras de autocontrole, mas Egwene achou ver um quê de complacência nos olhos de Coiren e um leve desdém nos lábios carnudos de Galina. Mas Nesune… Nesune representava o verdadeiro perigo.

As tampas se fecharam de repente, sem que ninguém as tocasse. As serviçais deram um pinote para trás, sem sequer abafarem os gritinhos de susto. As Aes Sedai se enrijeceram, e Egwene rezava com a mesma intensidade com que o suor escorria do corpo. Claro que queria um Rand arrogante e um tanto insolente, mas apenas o bastante para deixar as três irritadas, não a ponto de elas decidirem tentar amansá-lo ali mesmo.

Foi então que lhe ocorreu que, até o momento, Rand não mostrara nada daquele lado “humilde feito um rato”. Ah, ele nunca sequer tivera a intenção de mostrar humildade, apenas zombara dela! Se não estivesse tão aterrorizada, iria até ele e lhe daria uma bela bofetada na orelha.

— É bastante ouro — afirmou Rand. Parecia tranquilo, o sorriso enchendo o rosto todo. — Eu sempre encontro utilidade para ouro. — Egwene apenas piscou, surpresa. Rand soava quase ganancioso!

Coiren respondeu com um sorriso, uma imagem perfeita de arrogância ponderada.

— O Trono de Amyrlin é de extrema generosidade, claro. Quando você chegar à Torre Branca…

— Quando eu chegar à Torre — interrompeu Rand, como se pensasse alto. — Sim, mal posso esperar pelo dia em que entrarei na Torre. — Ele se inclinou um pouco para a frente, apoiando o cotovelo no joelho, o Cetro do Dragão dependurado para além das pernas. — Mas, entendam, não posso ir imediatamente. Primeiro tenho compromissos por aqui, além de em Andor e em outros lugares.

Coiren comprimiu os lábios apenas por uma fração de segundo. Ainda assim, sua voz se manteve tranquila e firme como sempre.

— Com certeza não fazemos nenhuma objeção a descansar alguns dias por aqui antes de iniciarmos a jornada de volta a Tar Valon. Enquanto isso, permita-me sugerir que uma de nós fique disponível para aconselhá-lo em caso de necessidade. Ouvimos falar, claro, do triste destino de Moiraine. Não posso me oferecer, mas Nesune e Galina estão à disposição.