Rand analisou a dupla, franzindo o cenho, e Egwene prendeu a respiração. Ele mais uma vez parecia estar ouvindo alguma voz — ou tentando ouvir. Nesune o encarava com a mesma atenção com que ele a analisava. Galina alisou as saias por reflexo, sem nem reparar no que seus dedos faziam.
— Não — respondeu, por fim, recostando-se de volta e repousando os cotovelos nos braços da poltrona. Com aquilo, Rand a fazia parecer ainda mais um trono. — Não é muito seguro. Eu não gostaria que uma de vocês, por acidente, acabasse com uma lança atravessada entre as costelas. — Coiren abriu a boca para protestar, mas ele continuou falando. — Para sua própria segurança, nenhuma de vocês deve ficar a menos de uma milha de mim sem minha permissão. Aliás, o melhor é também manterem essa distância do Palácio, a não ser que eu permita. Vocês serão informadas quando eu estiver pronto para acompanhar a comitiva de volta a Tar Valon. Eu prometo. — Rand se levantou de repente. De cima do estrado, ficava alto o bastante para que as Aes Sedai precisassem levantar o pescoço, e as três deixaram muito claro que desgostavam daquilo tanto quanto das restrições impostas. Três rostos entalhados em pedra ergueram os olhos para fitá-lo. — Agora vou deixar que voltem ao seu descanso. Quanto mais rápido eu conseguir resolver certas questões, mais rápido poderei ir para a Torre. Mandarei avisar quando pudermos nos encontrar outra vez.
As três não ficaram nada satisfeitas com aquela dispensa tão súbita, muito menos com o fato de terem sido dispensadas. Eram as Aes Sedai que definiam quando uma audiência se encerrava. Ainda assim, havia pouco que pudessem fazer além de reverências mínimas, a contrariedade quase esfacelando a famosa calma das mulheres da Torre.
Quando davam meia-volta para ir embora, Rand se pronunciou mais uma vez, em um tom casuaclass="underline"
— Esqueci de perguntar: como está Alviarin?
— Está bem. — Galina passou alguns instantes boquiaberta, os olhos arregalados. Parecia surpresa por ter respondido.
Coiren hesitou, prestes a usar aquela abertura para falar mais, porém Rand já dava sinais de impaciência, quase batendo os pés no chão. Quando as mulheres saíram, ele desceu do tablado ainda carregando a ponta de lança, os olhos fixos nas portas que se fecharam atrás delas.
Egwene não perdeu tempo, foi logo avançando para cima dele.
— Que jogo é este que você está jogando, Rand al’Thor? — Já avançara quase cinco passos quando um vislumbre de seu reflexo nos espelhos a fez perceber que atravessara a tessitura de saidin. Pelo menos não reparara quando foi tocada por aquelas tramas cheias de mácula. — Pois bem?
— Ela é uma das mulheres de Alviarin — comentou ele, em tom pensativo. — Galina. Ela é uma das amigas de Alviarin. Posso até apostar.
Egwene parou diante dele e fungou com desdém.
— Você perderia sua moeda e ainda acabaria com um ancinho no próprio pé. Se Galina não é Vermelha, nunca vi uma Vermelha na vida.
— Só porque ela não gosta de mim? — Rand a encarava, e Egwene quase desejou que ele desviasse os olhos. — Porque ela tem medo de mim? — Ele não franziu a testa nem olhou feio para ela. Nem ao menos a encarava com dureza. Ainda assim, seus olhos pareciam saber coisas que ela desconhecia. Egwene odiou aquela sensação. O sorriso de Rand surgiu tão de repente que ela teve que piscar. — Egwene, espera que eu acredite que você consegue identificar a Ajah de uma mulher só de olhar para o rosto dela?
— Não, mas…
— Seja como for, até as Vermelhas podem acabar me seguindo. Elas conhecem as Profecias tão bem quanto qualquer um. “A torre imaculada se divide e se ajoelha perante o símbolo esquecido.” Foram escritas antes de existir uma Torre Branca, mas o que mais poderia ser essa “torre imaculada”? E o símbolo esquecido? É meu estandarte, Egwene, com o antigo símbolo Aes Sedai.
— Que o queime, Rand al’Thor! — O xingamento que escapou de seus lábios soava mais estranho do que Egwene esperava. Não estava acostumada a dizer aquele tipo de coisa. — Que a Luz o queime! Você não pode estar pensando em ir mesmo com elas. Não pode!
Rand abriu um sorriso divertido. Divertido!
— Ora, eu não fiz o que você queria? Fiz o que você me disse para fazer e o que você queria.
Ela comprimiu os lábios, indignada. Já era ruim que ele soubesse que seus planos tinham falhado, mas era uma verdadeira grosseria jogar na cara dela daquele jeito.
— Rand, por favor, me escute. Elaida…
— A questão é como fazer você voltar para as tendas sem elas descobrirem sua presença. Acho que elas têm olhos-e-ouvidos no Palácio.
— Rand, você precisa…
— Que tal escapulir dentro de um daqueles cestos grandes da lavanderia? Posso mandar duas Donzelas carregarem.
Egwene quase gritou de frustração. Rand estava tão ansioso para se ver livre dela quanto das Aes Sedai.
— Pode deixar que meus próprios pés já são o bastante, obrigada. — Um cesto de lavanderia, ora essa! — Se me dissesse como faz para vir de Caemlyn para cá na hora que quiser, eu não precisaria me preocupar. — Ela não entendia por que era tão difícil perguntar a ele. — Sei que você não tem como me ensinar, mas, se me dissesse como faz, talvez eu pudesse dar um jeito de imitar o truque usando saidar.
Em vez de zombar dela, o que Egwene já praticamente esperava que acontecesse, Rand segurou as pontas de seu xale com ambas as mãos.
— Tem o Padrão — começou ele. — Aqui é Caemlyn — um dos dedos da mão esquerda se ergueu, elevando o tecido de lã —, e aqui é Cairhien. — Um dedo da outra mão se ergueu do outro lado, então ele uniu as pontas dos dois dedos. — Eu dobro o Padrão, então faço um buraco de um ponto ao outro. Não sei o que é que escavo para abrir esse buraco, mas não há espaço entre uma ponta e a outra. — Ele deixou o xale cair. — Isso ajuda?
Egwene mordeu o lábio e encarou o xale de cenho franzido, amargurada. Não ajudava em nada. Ficava enjoada só de pensar em abrir um buraco no Padrão. Tivera a esperança de que fosse ser como algo que ela descobrira em relação a Tel’aran’rhiod — não que pretendesse usar sua descoberta, claro, mas tivera todo aquele tempo nas mãos, e as Sábias não paravam de resmungar a respeito das perguntas das Aes Sedai sobre como entrar lá em carne e osso. Egwene achava que a solução seria criar uma semelhança — esse parecia o único meio de descrever o que precisava ser feito — entre o mundo real e seu reflexo no Mundo dos Sonhos. O que criaria um lugar onde seria possível simplesmente passar de um mundo para o outro. Se a Viagem de Rand tivesse uma relação mínima com isso, Egwene estaria disposta a tentar. Mas aquilo… Saidar sempre obedecia aos desejos de quem canalizava, bastava se ter consciência de que o Poder era muito mais forte que qualquer pessoa e precisava ser conduzido com delicadeza. Tentar forçar algo errado poderia resultar em morte, ou a pessoa acabaria exaurida antes mesmo de conseguir gritar.
— Rand, tem certeza de que não existe um meio de tornar as coisas mais iguais… ou… — Não sabia explicar. Em todo caso, ele balançou a cabeça antes mesmo que ela começasse a diminuir a voz em busca das palavras certas.
— Me parece muito que essa sua ideia mudaria a tessitura do Padrão. Acho que eu acabaria destruído se tentasse. Eu só faço um buraco — completou, cutucando-a para demonstrar.
Bem, não havia sentido em tentar aprender aquilo. Egwene ajeitou o xale, irritada.
— Rand, e quanto ao Povo do Mar? Não sei nada sobre eles além do que li. — Na verdade sabia, mas não contaria a ele. — Mas deve ser um assunto importante para eles virem tão longe só para falar com você.